Branko: "senti-me a viver os tempos pré-Buraka"

Novo álbum, "OBG", sai amanhã, o que motiva uma entrevista a um dos ícones nacionais da música eletrónica.

Branko: "senti-me a viver os tempos pré-Buraka"DR (cortesia da promoção do artista)
Gonçalo Palma

O esvaziamento da agenda ao vivo internacional de Branko durante a pandemia levou-o às origens, aos tempos mais livres e solitários de experiências criativas com a eletrónica, antes do sonho em ser músico se ter materializado numa profissão.

Desta vez, Branko olhou um pouco mais para o mapa do interior de Portugal e, assim, viajou até ao seu interior, às memórias pessoais mais antigas. Mas o ex-membro dos Buraka continua com o globo bem iluminado no seu estúdio.

O seu novo álbum é "OBG", um obrigado abreviado nos carateres mas alargado à humanidade que tem rodeado o produtor da Grande Lisboa. O álbum sai amanhã, mesmo em cheio com a edição de estreia do Sónar em Lisboa, onde Branko se prepara para atuar na madrugada de sábado, numa noite longa da sua editora Enchufada, no revitalizado Pavilhão Carlos Lopes.

O obrigado do título é a quem?
É um obrigado a todas as pessoas que me acompanharam nos últimos anos. Evidentemente, a indústria musical teve que se reinventar um bocadinho. No meu caso, tive necessidade de ir buscar outras fontes de informação e baseei-me muito nos sets que fui fazendo, programando e gravando por Portugal. Foi muito bonito sentir o apoio e o acompanhamento das pessoas. Inclusivamente, a audiência estava a crescer. Isso deu-me algum conforto e alguma segurança para trabalhar neste disco, "OBG". Normalmente, agradece-se no fim, poderia ser um álbum best of. Mas ainda me vão ter por mais alguns anos.  

 

Fizeste dos títulos abreviaturas. Por alguma razão em especial?
Sempre gostei de simplificar a comunicação. Acho que o ritmo é uma linguagem universal. Sempre fui fã de tudo aquilo que vem simplificar as trocas e a partilha, como as abreviaturas, que possa até acelerar a nossa vida e chegar a ideias melhores. Como uso bastante [abreviaturas], achei que seria interessante brincar um bocadinho com a universalidade das siglas, principalmente sendo este um disco praticamente todo instrumental e que pode ter um impacto internacional diferente. As siglas e as abreviaturas podem apresentar uma nova versão de português, preparada para o mundo da internet, que é onde a música existe.  

Sobre os convidados, como é que se deram as colaborações de MS Mavy, Fumaxa, Iúri Oliveira, Tráz Água e Éllàh.
Neste disco, quis que as partes instrumentais fossem o mais importante. Na minha cabeça, este disco foi um voltar ao início de 2000, quando eu produzia a minha música no sótão da casa dos meus pais na Amadora. Sem as turnés e mais fechado em estúdio, voltei a esse Branko pré-Buraka Som Sistema e àquela sensação de estar horas e horas a produzir. Este disco acaba por ser aquele que tem menos colaborações. Os meus colaboradores são quase todos produtores, exceto uma vocalista, que é a Éllàh Barbosa, que canta o 'Nafé'. Além de serem quase todos produtores, eles têm músicas que eu estava a usar nos seus sets que estava a gravar por Portugal. Eu pensei: "OK, se estes sets são a inspiração do disco, mais vale contactar estas pessoas e tentar criar uma equipa de produção que venha complementar aquilo que estou a fazer no estúdio", para o "OBG", com participações online e trocas de ficheiros e de sons. Foi um processo simples, bem mais simples do que costuma ser, em que tenho que marcar estúdios em não sei quantas cidades, como para o "Nosso" e para o "Atlas".     

 

Samplas sons de uma cantadeira portuguesa em SRA e em ADRT. Não é tão habitual ver-te no ambiente rural português, pois não?
Eu acho que o abrandar das viagens, das tours e daquele frenesim normal que acontecia até 2020 criou-me algumas conexões. Este disco não é tanto de viagens mas mais de memórias, por paisagens mais nacionais e tradicionais. Foi uma presença forte quando eu estava a preparar os sets que fui gravando durante a pandemia, seja na Serra da Estrela ou no Algarve. Para esses sets, pesquisei o ponto de cruzamento possível entre a tradição e a música eletrónica. Inevitavelmente, acabei por ir buscar essas influências.  

 

Essas vozes femininas sampladas são de polifonias beirãs? Como é que as foste buscar? Qual é a origem?
São tudo samples. Este é o disco em que usei mais samples. Mesmo no formato eletrónico, costumo optar mais pela canção e por vozes convidadas, trabalhando-as do início até ao fim. Achei interessante explorar mais essa faceta do sampling. No 'ETA', acabei por gravar com uma voz, que é da Rita Vian, mas acabei por tratar aquilo que gravei como um sample. Quase tudo o resto são gravações antigas que fui buscar. No 'SRA', é uma gravação de 1982, de uma cantiga da Beira-Baixa que é o 'Embalo'. Era a música que a minha bisavó me cantava para me adormecer. Este é um disco muito feito de memórias e de viagens internas. Acaba por ser o meu disco mais internacional, por eu brincar mais com a voz e focar-me mais no instrumental do que no formato de canção. 

Normalmente, os discos em que te envolves são expressos intercontinentais. O 'OBG' é mais um expresso intercidades?
Não consigo sentir que o caminho tenha mudado ou que tenha mudado de comboio. Desde 2006, com o arranque dos Buraka com o "From Buraka to the World" e com o início da [editora] "Enchufada", sinto que o caminho é sempre o mesmo, seja através dos ritmos, seja através de samplings, seja através de convidados. A visão que esteve sempre por trás é a de Lisboa como epicentro da cultura de expressão portuguesa  e eu sinto que este disco continua a celebrar e a trabalhar isso. Sinto que o expresso continua intercontinental, só que acrescentei outras paragens que não existiam na viagem de comboio. Isso acabou por me levar para direções novas. Essa é sempre a minha busca: trazer algo de novo, tentar inovar e chegar a uma perspetiva nova nessa ideia de fundir música tradicional com música eletrónica.

Já atuaste várias vezes no Sónar de Barcelona, através dos Buraka. Qual é a sensação de poderes participar na edição de estreia do Sónar no nosso país?
O Sónar é um festival muito marcante, onde tento ir, mesmo que não toque. É um festival que olha para a música da mesma forma que eu olho. Gosto da mistura que apresenta entre artistas consagrados e mais novos e a crescer. Quando ainda não se falava de música eletrónica, já eles faziam estes programas com as eletrónicas e os DJ sets em Barcelona. Lisboa tem as características e a identidade para receber estes conceitos e este festival. Estou muito feliz por poder participar nesta primeira edição, e mais ainda com a curadoria de um palco durante uma noite inteira, sob a alçada da minha editora, a Enchufada. Ficámos muito felizes com este convite, porque nem sempre os festivais têm a abertura de interagirem com a cidade e localmente com as pessoas que fazem música nessas cidades. Tens muitos festivais que falam simplesmente para estrangeiros. Poderia ser mais um festival para atrair turistas, mas neste caso acho que souberam bem ir buscar alguns agentes ativos da música eletrónica nacional. Fiquei muito feliz de ter sido um deles.  

 

O teu radar expedicionário liga-se através de um PC ou de um smartphone. No Sónar, o teu radar é pelo teu próprio pé.
Isso acontece muito em Barcelona. É mais fácil encontrar música nova. E também acontece muito com a programação. Nem todos os festivais arriscam muito com a programação, até a lançar para uma audiência maior. Lembro-me que com os Buraka Som Sistema, fomos lançados para um palco muito maior para a dimensão da banda em Espanha na altura. Mas funcionou, porque no ano seguinte tocámos noutro palco ainda maior e depois noutro ainda maior. Fazíamos parte de um grupo que estava a crescer ao mesmo tempo que o festival e isso foi muito interessante.

No Mundial de futebol, ficámos no grupo do Gana. No Sónar, vai haver um encontro entre um português e um ganês, entre ti e o Gafacci. Neste encontro musical, ganham os dois, não é?
É mais um abraço musical. O Gafacci é um produtor de quem eu passo muita música nos meus sets por todo o lado. Ele participa inclusivamente numa série documental que fiz para a RTP, o Club Atlas, no episódio dedicado a Accra [a capital do Gana]. Além disso, já trabalhei com ele em várias produções e em muitas edições da Enchufada, principalmente as compilações Enchufada na Zona, que dão nome ao palco do Sónar. É um produtor e um artista com quem tenho tanta conexão. Acima de tudo, é uma noite de celebração do lançamento do disco e deste momento que estamos a viver agora, na fronteira entre o que acabámos de viver nestes dois últimos anos e o possível futuro social normal. Para isso acontecer, senti que tinha que fazer uma noite de dança à antiga, mesmo à séria. O Gafacci é a pessoa certa para me acompanhar.

 

A sessão de dee-jaying  "Branko b2b Gafacci", decorre entre as 03:20 e as 04:45 de sábado, 9 de abril, no Pavilhão Carlos Lopes. A atuação faz parte do programa do Sónar Lisboa.