Capitão Fausto: hoje o sol põe-se mais tarde

Filme-concerto "Sol Posto" tem exibição única em 70 salas. Entrevista a Tomás Wallenstein e ao realizador Ricardo Oliveira.

DR - fotos da rodagem de "Sol Posto" (cortesia LPM)
Gonçalo Palma
20 novembro 2020, 09:55

Nesta época mais fria em que os dias perdem a claridade mais cedo, há hoje uma maneira de vermos o pôr-de-sol à hora de jantar, numa das 70 salas de cinema onde o filme-concerto dos Capitão Fausto, "Sol Posto", vai ter exibição única, a partir das 20h00.   
 
Se não há maneira do público ver ao vivo os Capitão Fausto nesta época pandémica de abstinência de concertos, os Fab 5 de Alvalade arranjaram uma solução ainda mais intimista, tocando para a grande tela. Com a proximidade das câmaras, o espectador pode acompanhar a ação no meio da banda, de uma forma privilegiada que nunca poderia acontecer num concerto normal. 
 
O cenário é costeiro, na linda Melides, com a banda lisboeta a tocar em três locais diferentes e próximos: num terraço sob o céu alaranjado e na contraluz do pôr-do-sol; num areal iluminado por máquinas de construção civil durante a noite; e no meio do pinhal, de manhãzinha. 
 
Mudam os locais, muda a luz e mudam as roupas. O mar sente-se sempre por certo. As imagens do quinteto a tocar vão sendo intercaladas com vários planos dos Capitão Fausto, numa rocha lindamente esculpida pela natureza, ou num armazém abandonado de um antigo complexo industrial, ou junto a uma lareira, ou numa corrida pelo areal da praia como se fossem cinco garotos. Com retratos e pinturas de natureza viva, "Sol Posto" é como uma sessão fotográfica num local idílico que toma a forma de um filme-concerto.  
 
À triangulação de locais, há também no set ao vivo uma triangulação entre os últimos três álbuns dos Capitão Fausto: "A Invenção Do Dia Claro" (de 2019), "Capitão Fausto Têm Os Dias Contados" (de 2016) e "Pesar O Sol" (de 2014). A omnipotência talentosa dá-lhes a habilidade para deslizar entre belas melodias e alongamentos instrumentais tão deslumbrantes quanto imprevisíveis. A residência é em Melides, mas a música dos Capitão Fausto não pára quieta e viaja. 
 
"Sol Posto" é o grande filme-concerto do cinema documental português. É um produto de cinema e hoje e só hoje surge a oportunidade para o ver. O realizador Ricardo Oliveira é o membro atrás da câmara dos Capitão Fausto. Depois de "Pontas Soltas" e de vários vídeos do grupo, coube-lhe a ele realizar este documentário, rodado em setembro. 
 
Entrevistamo-lo a ele e ao músico e vocalista Tomás Wallenstein, um dos principais ideólogos de "Sol Posto". 
 
Começou por quem esta ideia do filme-concerto em Melides? 
Tomás Wallenstein – Partiu dos Capitão Fausto. No início do verão, ainda estávamos a ver o que íamos fazer, para continuar a nossa atividade porque os concertos reduziram drasticamente. Fizemos vários planos e este é um deles. Este planeamento surge de um desafio entre nós e o nosso manager Paulo Ventura. Fomos apurando várias ideias e fomos chegando a isto. O formato de filme-concerto foi mudando à medida que fomos evoluindo.  
 
A ideia de ser em Melides vem da banda em particular? 

TW - Eu conhecia bem o sítio. Quando decidimos fazer um filme, lembrei-me de fazermos uma residência em Melides. O Melides Artes dedica-se a residências artísticas, a música e a um bocadinho de tudo. Encontrámos ali o espaço ideal. Depois disto começar a andar, fui lá e conversámos sobre o assunto. Acabou por ser o espaço ideal para estarmos retirados durante dez dias, em filmagens, gravações de som, montagens, por aí fora. Ficámos num processo muito exclusivo e correu muito bem. 
Procurámos em conjunto com o Ricardo construirmos esta história e representar a travessia de um período. O título do filme e a sua passagem temporal é uma reflexão sobre a passagem do tempo no geral mas também sobre um atravessamento de um rio ou de uma noite, representando esse período. Temos a esperança de que depois de uma fase má, virão fases melhores. É preciso metermo-nos na barca, atravessar até à outra margem. E chegando à outra margem, o sol volta a nascer, como acontece no filme, ou os planos começam-se a reconstruir. Estas referências no filme da reconstrução e da travessia e da resiliência foram muito importantes para se fazer “Sol Posto”.   
 
Tocaram em três sítios diferentes, em três alturas diferentes do dia. Houve algum sítio onde se tenham sentido melhor? 
TW - Acho que nos sentimos bem em todos os sítios. Foi muito enriquecedor termos tido esta experiência. A equipa de trabalho era muito reduzida mas que já tem trabalhado connosco muitas vezes. Sentíamo-nos em casa. A única coisa que faltou foi mesmo o público. 

Esta ideia de uma atuação em três alturas diferente do dia e em três locais diferentes surgiu durante a rodagem ou já estava planeada? 
Ricardo Oliveira - Já estava planeada. No processo criativo, há algumas ideias que surgem que magneticamente atraem outras. Havia uma curta dos Beach House, chamada “Forever Still”, que também fazia a travessia de um fim de dia, noite e manhã. Era uma ideia que já estava definida. "OK, encontrámos esta referência dos Beach House, vamos agora descolar dela, porque não queremos fazer outro Forever Still, vamos fazer uma coisa nossa". Houve um processo que passou por procurar os sítios. No caso dos Beach House, é uma música por espaço, [connosco] seria um bocadinho, seriam quatro a cinco músicas em cada set. Isso era uma coisa que já estava decidida quando fomos pré-produzir o filme.

  
Como surgiu a ideia das máquinas de construção a iluminar a vossa prestação noturna?  

TW - Para tocarmos à noite, tínhamos que ter iluminação artificial. Estando no meio do nada, eram preciso muitos recursos para usarmos uma iluminação rudimentar de concerto. Pareceu-nos óbvio que elementos móveis que têm a sua própria energia, como são os carros ou os veículos de construção - e que no Melides Artes estão à disposição, acabaram por ser canalizados. 
Por outro lado, o filme tem uma vertente do isolamento e de procura da verdade. Pareceu-me que o Ricardo procurou um elemento natural e intacto a contrastar com um elemento de intervenção humana forte. No final da tarde, estamos a céu aberto num terraço de uma casa em construção onde estamos a tocar. Na noite, estamos numa clareira de um bosque e o único elemento anti-natural são as máquinas que iluminam e que permitem que aquilo aconteça ali. Sem luz, não se conseguiria filmar. Na manhã, estamos num pinhal cerrado onde existe um marco geodésico e que é a única fonte de presença humana.

    
Em muitos dos documentários de música, o melómano não é desafiado para a condição de cinéfilo. Mas aqui, em “Sol Posto”, quiseram fazer deste filme-concerto um produto de cinema, em que o melómano é simultaneamente um cinéfilo, concordas?   
TW - Concordo e foi a nossa intenção também. A partir do momento em que está anulado o paradigma básico de um concerto onde há o contacto visual entre quem toca e quem vê, a partir do momento em que a coisa é transferida para um ecrã, sentimos que não havia outra maneira de olharmos para a coisa que não fosse como um produto de cinema. Não podia ser filmado de uma forma neutra e direta. Acho que teria que ter sempre o filtro de um realizador, neste caso, do Ricardo - não havia outra pessoa em que pudéssemos pensar de repente. Dissemos-lhe diretamente para ele olhar para isto como um filme e para que a narrativa fosse um concerto a acontecer. Tentámos intervir pouco na parte estética. Tudo o que é musical e de cenário, acaba por ser nosso. Mas a linguagem, os cortes, a montagem e os planos são vistos como se fossem um filme, porque é, aliás. Acho que é uma oportunidade para o público se aproximar de uma realidade mais cinéfila e também para saltar para dentro do palco, o que é uma coisa rara. Existe sempre uma barreira física entre a parte da frente do palco e a plateia que o público não consegue transpor e mesmo que esteja a ser filmado, a câmara nunca está só a um metro, porque atrapalha quem está a vê-lo. Houve a intenção de aproximar a câmara o máximo possível, tentando dar aspectos mais íntimos e cúmplices do que está a acontecer no concerto do que é normalmente possível num concerto normal. 
RO - Poder ter uma câmara que está a dois metros do músico e filmá-lo a atuar ou estar num concerto numa sala de espetáculos com não sei quantas mil pessoas e ter uma câmara a 200 metros com uma teleobjetiva, são coisas absolutamente diferentes.

   

 


Foi complicado instalar o vosso estaminé nos vários sítios? 
TW - Fomos com uma grande preparação e calculámos o local. Fizemos várias visitas técnicas para ver como é que a coisa se iria processar. Iria ser muito trabalhoso porque os instrumentos não poderiam ser montados de um dia para o outro porque as condições climatéricas são altamente variáveis e as janelas de tempo eram muito curtas. Tínhamos períodos de trabalho muito intensos, entre montar e desmontar, carregar e descarregar, guardar os instrumentos, voltar a fazer. Era uma repetição diária deste processo. A logística estava toda planeada para conseguirmos fazer chegar a energia a todos os instrumentos e conseguirmos que a iluminação estivesse no sítio quando íamos filmar. Todo este encadeamento foi complexo.        

 


 
Apesar de ser um produto de cinema, que continuidade vai ter noutros formatos? 
TW - Para já, estamos focados nessa exibição única em salas. Apesar das condições adversas, acreditamos que é seguro ir a uma sala de cinema ver um filme, da mesma maneira que é seguro ir a uma sala de espetáculos ver um concerto.