Era o que Faltava

Temporada 3

2021-10-14

Lenine Cunha

“Eu quero explicar mais, quero-vos mostrar o que eu senti e não consigo!”

A primeira vez que foi aos jogos Paralímpicos, Lenine Cunha tinha 16 anos, mas foi na segunda vez, 12 anos mais tarde, que sentiu os nervos à flor da pele. Foi nos jogos Paralímpicos de 2012, em Londres, que Lenine sentiu a pressão, mas também o apoio das 80 mil pessoas no estádio. “Começa a prova, eu ponho-me na minha marca e estou muito nervoso. Entretanto eu estou a olhar para o chão para começar a correr, estava pronto, mas penso assim: ‘peço palmas ou não peço?’. Então olhei para cima, estou eu projetado naqueles ecrãs gigantes, só bastou duas palmas, foi o estádio todo, todo, todo, todo, não estão a ver! Eu quero explicar mais, quero-vos mostrar o que eu senti e não consigo!”.

À conversa com o João Paulo Sousa e a Ana Martins, no Era o Que Faltava, o atleta explica as especificidades do jogo: “Eu só compito com atletas com deficiência intelectual. Há muita gente que pensa que por eu ter as duas pernas e os dois braços não tenho deficiência. Na altura, quando o meu treinador sugeriu o desporto paralímpico, eu não sabia de nada, é como se me tivessem a chamar deficiente mental. Eu pensava em miúdos com síndrome de down ou com paralisia porque para mim era isso tudo. Então insultei-o à brava, mandei-o para um sítio porque me estava a chamar de deficiente. Passado um mês tornou-me a abordar, numa competição, e convidou-me para um estágio de uma seleção que ia para um campeonato do mundo de deficiência mental. Eu fui, nunca mais me esqueço, foi no dia do meu aniversário, dia 4 de dezembro de 1999. Quando lá cheguei vi miúdos completamente iguais a mim, com um Q.I baixo, miúdos que ainda estudavam com aulas de apoio e aí é que ele me explicou o que era a deficiência intelectual”.

Lenine Cunha explica também que o desporto o ajudou muito durante a infância: “Foi um refúgio para mim por causa do bullying que eu sofri na escola por ser “burro”. As crianças podem ser maldosas. Aquilo para mim era um refúgio e eu não via a hora de chegarem as seis da tarde. Era a hora para sair e para ir treinar. Na altura fechava-me, depois ia para o treino e parecia que desaparecia tudo”.