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Era o que Faltava

Temporada 3

2021-12-06

Carla Chambel

“Eu não gosto de sentir o conforto totalmente, gosto de sentir qualquer coisa a fugir-me de debaixo dos pés”

 

É Cristina no novo filme de Diogo Morgado, “Irregular”. É vice-presidente da Academia Portuguesa de Cinema e diretora de arte da SP. Nos últimos anos, fez carreira como atriz no teatro, cinema e televisão. Na ficção nacional entrou em projetos como “Jura”, “Vingança” e “Bem-Vindos a Beirais”. Carla Chambel esteve no Era O Que Faltava com João Paulo Sousa e Ana Martins.

Celebrou recentemente 45 anos e diz que, a partir de uma certa idade, as atrizes têm menos oportunidades no que aos grandes papéis diz respeito: “Na nossa idade, mulheres, para ter papéis para interpretar é cada vez mais difícil, e esse caminho está à minha frente. Eu sei que há cada vez menos papéis para mulheres a partir de uma certa idade. Portanto, a nossa persistência e a nossa busca têm de ser permanente e, continuo a dizer: não temos de ser só uma coisa”.

É de Almada, mas cresceu no Gavião. Define o seu Alentejo como diferente. Em miúda, e muito devido à realidade que vivia no Alentejo, quis ser veterinária, mas se hoje se formasse iria para algo relacionado com as energias renováveis e a reciclagem. Carla Chambel diz que foi quando foi para ao teatro que descobriu, não só o que queria ser, mas também que nada pode ser dado como certo. “Bati coma cabeça no teatro e comecei a pôr as coisas em causa e, desde essa data, nunca tomei nada como decisivo na minha vida. Eu nem sei se vou ser atriz até ao resto da minha vida. Não sei. Passei a deixar essa porta sempre aberta”.

Carla Chambel defende que o ator tem espaço para falhar. Porém, considera que o artista não pode ficar a remoer no erro, no ‘como deveria ter feito’ e no sentimento de culpa por não corresponder ao esperado. No Era O Que Faltava, Carla Chambel contou uma história, que ouviu há uns anos, e que retrata a sua visão sob a falha do ator: “Dois monges iam a caminho de um retiro e, no momento de passarem um rio lamacento, uma prostituta pediu-lhes auxílio para passar esse mesmo rio. Um dos monges ajudou-a, levando-a ao colo. Chegados à outra margem do rio, e já depois de terem deixado a mulher para trás, o monge que não tinha ajudado disse: “como é que tu foste capaz de ajudar aquela mulher, quando sabes que estamos a ir para um retiro, foi um erro”. O monge que ajudou a prostitua respondeu: “eu já me livrei dela, mas tu ainda estás preso a ela”. Com esta história, Carla Chambel quis mostrar que “a falha pode fazer parte do trabalho do ator. Temos é de saber contorná-la, saber absorvê-la e transformá-la noutra coisa qualquer”.

Carla Chambel tem alma de artista. O conforto incomoda-a e o desconforto inspira-a: “eu não gosto de sentir o conforto totalmente, gosto de sentir qualquer coisa a fugir-me de debaixo dos pés”. No “Irregular”, Carla Chambel é Cristina, “o lado menos bom da força”. A filha de Gabriel, a personagem interpretada por Pedro Teixeira, foi raptada. Porém, quando este chega a casa, percebe que a sua mulher também foi levada e que, no lugar dela, está Cristina. Cristina sabe tudo o que se passa, mas mantém-se controlada durante todo o processo.