Aldina Duarte: "gosto de arriscar locais diferentes"

Fadista atua hoje no Lux, a grande catedral da boémia lisboeta.

Alfredo Cunha
Gonçalo Palma
30 janeiro 2020, 10:17

Aldina Duarte sobe hoje ao palco do Lux-Frágil, em Lisboa, para um concerto assente no seu disco mais recente, "Roubados", onde canta grandes clássicos do fado eternizados pela velha guarda.

O Lux-Frágil, apesar de grande catedral da eletrónica em Lisboa, sempre foi aberto a outras músicas. Mas nunca, como esta noite, o espaço noctívago se abriu tanto, com a bravura de Aldina Duarte e dos seus dois instrumentistas: Paulo Parreira na guitarra portuguesa e Rogério Ferreira na viola. Alfama, ali mesmo em frente, vai atravessar espiritualmente a Avenida Infante D. Henrique, para junto do seu querido rio Tejo.

Antes de ouvirmos Aldina Duarte a cantar no Lux, fomos dar atenção ao que tem para dizer. Silêncio que se vai falar sobre o fado… 

Um concerto no Lux é um desafio interessante? Parece uma carta fora do baralho.
Gosto de arriscar aquilo que faço em locais diferentes, para públicos diferentes, com dimensões diferentes. Não sou mais exigente no meu trabalho que as outras pessoas. Tenho é convicções em relação ao meu trabalho como não deixar para o futuro conteúdos que sei que não vão resultar numa criação artística. É muito difícil pensar que se vai fazer uma boa interpretação do fado às 9 da manhã. No meu caso, seria impossível. É muito difícil pensar que vou fazer uma boa interpretação de um fado fechada numa cabine de rádio. A criação artística deve ser exigente e honesta, sobretudo em relação às condições essenciais para quem ouve e para quem canta para que a criação aconteça. Isto é a introdução ao meu trabalho. E é nesta linha que aceitei o Lux, tendo em conta todos estes factores, porque é um espaço que não é o mais óbvio para se cantar o fado, mas também porque o reportório deste disco não é o reportório que tenho gravado até hoje. Todos os fados têm uma estrutura melódica e uma temática que aguentam melhor com uma plateia que esteja de pé, não sendo muito grande. O outro fado que canto vive muito mais do improviso e pressupõe uma interioridade para ser recebido como deve, é preciso haver condições, se não, não vale a pena. É como quando se está a montar uma exposição de pintura, o trabalho do curador é perceber qual é o espaço que favorece o objetivo máximo daquela obra. 
Acho que o risco não é tão grande como possa parecer. ‘Ah, o Lux é onde se dança e leva uma música alternativa’. Se há música que é alternativa e radical é o fado. Nos dias de hoje, cantar com uma viola e uma guitarra uma música que vive da palavra, não estou a ver o que possa ser mais radical, talvez o rap, porque nem sequer tem tantos instrumentos. Neste momento, tenho um público que já sabe ao que vai, o que me ajuda. E depois, eu vou no mês em que o Lux resolveu dar música clássica. Aquele espaço está a ser preparado para alargar públicos.   

Em quase todas as músicas de "Roubados”, há a ideia da perda amorosa. Foi pensado, ou foi incontornável tratando-se de fado?
É um tema predominante no fado e na grande música - se formos para os blues, para o jazz, para a música francesa, para o tango, até para a pop. Não houve um conceito a partir de um tema. Aqui o conceito foi roubar grandes melodias que servem de cartilha aos novos fadistas. Todos cantamos essas músicas quando não temos reportório. Como foi esse o meu percurso, acabei por selecionar os fados em que poderia fazer uma interpretação diferente do ponto de vista emocional. No disco, a perda amorosa é de somenos importância. Nada está resolvido. Há sempre uma janela aberta, uma pergunta. Se há coisa na vida que me fascina são as perguntas, mais que as respostas. É isso que me identifica: nada é definitivo, nem para o bem, nem para o mal. Acho que este conjunto de fados mostra isso. Tudo vale a pena, mesmo quando dói. É a síntese que faço deste disco.  

O sofrimento não pertence a um só género. É uma coisa que o fado mostra, nâo é? As mesmas letras são sempre legítimas, independentemente do género.
Aliás, fiz questão de nem sequer alterar o género. Quando estou a cantar o 'Arraial' do João Ferreira Rosa, há uma altura do verso em que se diz “sabes, meu amor, que não estou sozinho”. Não alteraria o sentido do poema, nem a rima, se cantasse "sozinha". O género, em termos de sofrimento, vai dar ao mesmo. 

Mesmo no 'Oiça Lá Ó Senhor Vinho', que canta em "Roubados", associa-se mais essa música a um homem.
Mas que foi criado para a Amália, curiosamente. A ideia que é que é a bebedeira de um homem a falar com o vinho. As pessoas ouvem assim mas não há ali nada que diga que é um homem. O problema é que temos uma formatação que acha que o homem nunca estaria naquele estado a falar com o vinho. Acho essa letra espantosa, muito bem construída, muito criativa. O ponto de partida é simples: pôr o bêbedo a falar com o vinho, sobre o vinho e do que é o efeito do vinho. Essa é talvez a música que foge mais tematica e melodicamente ao meu reportório. Mas talvez seja a letra com que mais cresci do ponto de vista interpretativo. Tentar fazer uma conversa a cantar, entre uma figura abstrata e a pessoa que se embebeda, exige uma grande imaginação ao intérprete. Nesse aspeto, foi a melhor [música] para mim. Pego nos fados não pela melodia mas pela letra, que é o meu ponto de partida. Canto há 23 anos no Senhor Vinho, como um emprego de terça à sexta - já estive de terça a sábado. Ontem [na semana passada], a cantar para pouquíssimas pessoas, dei ali um salto artístico que ainda hoje acordei com isso, porque cantei de uma maneira alguns fados que canto há muito tempo, [seguindo] por um caminho que não esperava. Não era minha intenção. Mas a casa de fados tem isso de oficina. De repente, começa-se a mexer na matéria e é ela que nos leva. Isso é muito difícil acontecer num concerto de hora e meia. Há uma altura quando o concerto me está a correr bem, os fados é que me levam, mas tenho que ser eu a agarrá-los outra vez para que não se perca o rumo. Ali [na casa de fados], não. Se calha uma noite como a de ontem em que na primeira música arrisco a ir por um caminho desconhecido durante seis músicas. Deixei-me ir e fiquei espantada com aquilo tudo. Estou ansiosa por ir lá hoje [na semana passada] só para ver se ainda lá estarei em alguma parte do caminho.          

O que a atraiu para o dueto com o António Zambujo em 'Rosa Enjeitada'?
É o fado em que tenho sentimentos mais contraditórios. Aliás, nem cantei a segunda parte da letra. Não gosto daquela abordagem paternalista e daquela vitimização de uma mulher que é uma prostituta. É uma personagem que foi criada num teatro de revista dos anos 30. Uns dias, a Rosa Enjeitada era cantada pela Hermínia Silva, outros dias era cantada pela Berta Cardoso. Porque é que eu ponho como sendo uma criação da Maria Teresa de Noronha? Porque a criação que me chega a mim primeiro é da Maria Teresa de Noronha e fez muito sucesso. É um clássico. As pessoas têm um bocado vergonha para olhar para a história da desgraçadinha. Lamento dizer essa desgraçadinha somos todos nós. Pode ser qualquer um de nós. Também acho impressionante que ao fim de um século que continue a haver crianças abandonadas, mulheres que têm que se prostituir. Pensei: vou pegar neste clássico e vou desconstrui-lo ao limite. Fui buscar um homem que vai vê-la. E ficámos taco-a-taco.  

É sempre a Aldina que propõe as músicas aos seus instrumentistas?
Eu faço tudo. Desta vez, até a produção musical fiz. O Pedro Gonçalves teve um problema de saúde que coincidiu com as datas de estúdio. Desde que tenho o Pedro Gonçalves como produtor musical, defino os conceitos dos discos e ele acha que ninguém pode fazer isso por mim. Ainda que no "Romances", ele tenha tido a brilhante ideia de fazer o segundo disco. Concebi o primeiro disco com a Maria do Rosário Pedreira. Depois, o Pedro lembrou-se de fazer a banda sonora desse romance, ainda que tivesse que o recantar, sem guitarras e sem violas, naquele ambiente sonoro que ele criou. A partir daí, temos trabalhado sempre. E espero ficar com ele até ficarmos velhinhos. Não quero outro produtor para nada. É a pessoa em quem mais confio para pôr toda a minha arte. Sou muito controladora do meu trabalho. Sou a minha própria manager. Tenho uma brilhante equipa comigo, mas houve uma altura em que fiz esse trabalho todo porque não tinha alternativa. Há uma maneira de fazer as coisas no mercado que não me servia. Então inventei uma que resultou. Agora, já tenho as pessoas certas para fazerem aquilo que não sei. 

Gosta mais de trabalhar em trio? Sente-se mais confortável acompanhada por mais dois músicos?
É o que mais gosto porque é o que tem mais silêncio. Adoro o silêncio. As pessoas não têm noção de como o silêncio pode transportar uma palavra. A palavra mais simples do mundo, quando nasce do silêncio certo, pode determinar o sucesso de um tema.