Dez grandes atletas nacionais da década

Cristiano Ronaldo, Fernando Pimenta, Inês Henriques ou Telma Monteiro entre os desportistas lembrados.

Gonçalo Palma
18 dezembro 2019, 12:50

No plano desportivo internacional, Portugal deixou de ser apenas um país remetido ao futebol, ao hóquei em patins e ao fundo e meio-fundo do atletismo - tradicionalmente, quase as únicas áreas onde dantes acontecia a glória fora de fronteiras. 

Se não sabemos só dar pontapés na bola e passámos a saber dar pontapés legítimos nos corpos dos adversários (taekwondo), se as redes não têm que estar só ao fundo mas sim a meio (ténis de mesa), se um português que brilha numa corrida pode estar sentado a dar remadas valentes nas águas (canoagem), esta década dos 2010s foi bastante esclarecedora.

Sublinhamos dez dos vários grandes atletas nacionais deste decénio que agora finda.  

Cristiano Ronaldo (futebol)
O seu contributo estatístico para a seleção nacional é indesmentível: tornou-se nesta década no jogador com o maior número de internacionalizações A e o melhor goleador de sempre da equipa das Quinas, já com mais do dobro dos tentos (99) que o 2º, Pauleta (com 47). O desempenho individual do avançado madeirense ajudou decisivamente Portugal para uma década histórica, que inclui o inédito título de campeões europeus em 2016 e a recém-criada Liga das Nações da UEFA em 2019, além de ajudar a normalizar a presença da seleção nas fases finais das maiores competições mundial e continental.
Cristiano Ronaldo tem há mais de 12 anos um nível de rendimento de super-herói incessante, que só tem como par o argentino Lionel Messi. 


Fernando Pimenta (canoagem)
Há também um super-herói português nas pistas aquáticas. Ele é Fernando Pimenta e tem o mesmo apetite insaciável de Cristiano Ronaldo por mais títulos. É campeão do mundo em distâncias tão diferentes como os 5000 metros (que exige mais resistência) ou os 1000 metros (que requer mais velocidade). Aos três títulos de campeão mundial, junta ainda cinco medalhas de ouro nos Europeus, e ainda uma medalha de prata olímpica conquistada em 2012, em K2, com Emanuel Silva (outro grande campeão). Fernando Pimenta sobe aos pódios internacionais como nós bebemos um café. Será ele o primeiro português a ganhar uma medalha de ouro olímpica fora do atletismo? Os 2020s responderão. 


Ricardinho (futsal)
É há anos a fio um génio à solta nos pisos de pavilhão, com fintas que se pensava impossíveis e um pacto com a gravidade em regime de exclusividade que lhe permite só a ele remates certeiros em ângulos impossíveis. Mas este génio tem estado ao serviço do coletivo. Deu o seu cunho ao título de campeão europeu a Portugal (apesar da lesão grave durante a final) em 2018, ele que já sabia bem o que era levantar o maior troféu continental de clubes. Hoje, contabiliza três UEFA Futsal Cups, a primeira ganha com a camisola do Benfica em 2010, quando o Pavilhão Atlântico parecia um mini-estádio da Luz. Há cinco anos seguidos que é ele o consagrado como o Melhor Jogador do Mundo de Futsal. Não é deslumbramento ousar pensar que Ricardinho é o melhor jogador de sempre da modalidade.


Marcos Freitas (ténis de mesa)
É a par de Tiago Apolónia o rosto mais visível do grande salto competitivo de Portugal neste desporto de mesa. Fizeram o país sonhar com medalhas nos Jogos Olímpicos de 2012. Em 2014, em pleno Pavilhão Atlântico, alcançaram o inédito título de campeão europeu de equipas. E o cerco aos lugares cimeiros nos anos subsequentes, provaram que aquela não foi uma consagração casuística. Canhoto, sabe responder e resistir longe da mesa aos sucessivos ataques dos adversários. Em individuais, em pares, ou em equipas, Marcos Freitas é visto volta e meia de medalha ao pescoço no plano continental. Falta-lhe só o pódio mundial, que Tiago Apolónia e João Monteiro passaram a conhecer este ano, com o bronze em pares.


Jorge Fonseca (judo) 
A enorme Telma Monteiro bem que tentou (quatro finais perdidas em mundiais) mas foi Jorge Fonseca o primeiro judoca português a sagrar-se campeão mundial - e, logo, na Meca da modalidade, em Tóquio, na sua grande catedral, o Nippon Budokan. O seu feito, em -100kl, é ainda mais assinalável, se tivermos em conta que pouco mais de três anos antes, Jorge Fonseca lutava contra um problema oncológico que também derrubou por ippon. Neste ano de 2019 memorável para o judo português (não esquecer a medalha de prata nos Mundiais de Bárbara Timo), Jorge Fonseca foi ainda parte ativa no segundo título consecutivo de campeão europeu de clubes para o Sporting. Tal como Fernando Pimenta, também Jorge Fonseca pode vir a ser o primeiro campeão olímpico português numa modalidade que não o atletismo. Mais do que fé, há talento para a maior glória olímpica. 


Rui Costa (ciclismo)
O antigo maestro do meio-campo Rui Costa nunca pensou que iria haver outro desportista com o mesmo nome a disputar-lhe as pesquisas do Google. Foi precisamente em Florença, uma cidade afetivamente ligada ao antigo nº10 da seleção depois de longos anos na Fiorentina, que o ciclista Rui Costa teve o seu o pico internacional, quando se tornou o primeiro português a ser campeão do mundo da modalidade, em 2013, numa disputa ibérica ao milésimo de segundo com o espanhol Joaquim Rodríguez. Foi mais a norte, nos Alpes, que Rui Costa provou a sua consistência de ciclista de topo, ao vencer por três vezes seguidas a muito conceituada Volta à Suíça (talvez o mais disputado circuito interno, a seguir ao Tour, à Vuelta e ao Giro), entre 2012 e 2014. Nesse período, cortou a meta por três vezes no Tour de France. Não há grandes dúvidas: Rui Costa é o maior ciclista português depois de Joaquim Agostinho.

  
Inês Henriques (atletismo) 
Que jeitão dava a Portugal que os 50km de marcha feminina se tornassem uma disciplina olímpica! Teríamos em Inês Henriques uma forte candidata a medalhas e mesmo ao ouro. Depois de mais 20 anos de um percurso internacional discreto, Inês Henriques torna-se campeã do mundo aos 37 anos, em 2017, na prova mais longa do atletismo. A marchadora ribatejana tomou o gosto ao lugar mais alto do pódio e no ano seguinte conquistou a medalha de ouro nos Europeus de Berlim, novamente nos 50km marcha.

 

Telma Monteiro (judo)
Muito poucos judocas podem esticar a mão com os cinco dedos para dizerem que são pentacampeões europeus. Foi o que Telma Monteiro fez em 2015, nos Jogos Europeus de Baku (simultaneamente, o campeonato europeu de judo) quando derrotou a sua rival húngara. Essa mão esticada traçava em poucos segundos o percurso biográfico da atleta de Almada: os cinco dedos que traduziam os cinco títulos europeus, a ligadura e os pensos nos dedos que refletiam o pesado passado de lesões da judoca do Benfica. Mas se quisesse mostrar gestualmente o número de vezes que subiu ao pódio das três maiores competições ? Jogos Olímpicos, Mundial e Europeu -, Telma Monteiro teria que mostrar os dez dedos das mãos e os dez dedos dos pés. São vinte as medalhas conquistadas pela judoca dos -57kl! Quando, ao fim de vários calvários, conquistou por fim a sua primeira medalha olímpica, o bronze, no Rio de Janeiro, em 2016, comoveu o país. A elasticidade, a atitude permanentemente ofensiva e a tenacidade fazem de Telma Monteiro uma atleta muito especial que, ao fim de 15 anos de alta competição, ainda não se ficou por aqui.


Ângelo Girão (hóquei em patins)
É raro olharmos para um guarda-redes como um dos melhores do mundo num desporto coletivo mas esse é o caso de Ângelo Girão no hóquei em patins. Foi absolutamente decisivo este ano nas duas mais importantes finais do hóquei, que valeram o título de campeão europeu ao Sporting 42 anos depois, e o título de campeões de mundo para Portugal 16 anos depois. Em ambas as finais, teve muito trabalho e muitos livres diretos para defender, quebrando, graças às suas numerosas defesas, longos jejuns para os leões e para a equipa das Quinas. Foi um ano fenomenal de Ângelo Girão que fechou uma década em que outros hoquistas nacionais, como o benfiquista Diogo Rafael (bicampeão europeu de clubes, campeão europeu das nações), mostraram a sua enorme categoria nos grandes palcos.

 

Rui Bragança (taekwondo) 
Merece mais projeção mediática do que a que tem tido. O palmarés impõe respeito e conta com duas medalhas de ouro nos campeonatos europeus de taekwondo e uma medalha de ouro nos Jogos Europeus de Baku de 2015, na categoria de -58kl. Agora que está dedicado 100% à sua especialidade desportiva, com a sua função de médico em pousio, é muito provável que mais altos voos se verifiquem.


Artigo de opinião.