Diogo Piçarra: "tento que as palavras fiquem e perdurem"

O músico acabou de lançar um disco novo. "South Side Boy" foi a desculpa (de doze faixas) perfeita para uma boa conversa nos estúdios da rádio.

02 de dezembro de 2019 às 11:08Diogo Piçarra: "tento que as palavras fiquem e perdurem"



"South Side Boy" é o nome do novo álbum do músico de Faro, o terceiro da discografia que assina. O disco, composto por doze faixas, foi lançado no final da semana passada e conta com a colaboração de Carolina Deslandes, Lhast, Charlie Beats e Holly.

A vida anda a correr bem a Diogo Piçarra que será pai de uma menina no próximo ano. O "rapaz do sul" vai começar a digressão de apresentação de "South Side Boy" na Altice Arena, em Lisboa, a 28 de março. Será a primeira vez que Diogo Piçarra vai subir a um dos maiores e mais prestigiados palcos portugueses, concerto que está a ser pensado ao pormenor.


Há uns dias estiveste numa sessão de audição do disco com seguidores teus, fizeste uma surpresa e tudo. Como é que foram as primeiras reações ao álbum?

As primeiras coisas que ouvi tocaram no ponto certo. Perguntei-lhes o que é que tinham achado e disseram logo: "está muito mais introspetivo". Na altura, pensei que tinha conseguido atingir esse objetivo. O disco está realmente mais introspetivo. Também concordaram comigo quando digo que o disco está mais escuro. As temáticas das canções, a produção de uma ou outra música. Está um bocadinho mais escuro, mais intenso, sim. Acho que consegui esse objetivo. Só não consegui reunir um consenso sobre a música preferida, o que é bom...

Tens alguma preferida?

São todas, mas gosto muito da 'Escuro' e da 'Normal', o single que saiu antes do lançamento do álbum. 'Escuro' foi o tema mais unânime nessa pré-listening, nessa tal sessão de escuta do disco. A escolha surpreendeu-me. Não esperava que essa canção fosse escolhida porque é um tema mesmo muito escuro.
 



Antes de falarmos sobre as tonalidades do álbum, vamos ao título. "South Side Boy" é uma referência às tuas origens, ao rapaz do sul. Essa ligação com o lugar onde cresceste continua a ser o teu resguardo?

É. E está cada vez mais forte. Sinto que essa ligação não se perde, fica cada vez mais forte. À medida que o tempo vai passando, vou descobrindo onde é que pertenço, quem é que está à minha volta com sinceridade e honestidade. O mundo das artes e da música pode ser um mundo cão, também encontras pessoas más. O bom é que também há pessoas muito boas. Tenho feito amigos para a vida que estão na área da música. Os amigos de infância, da escola e a própria família são os que vão ficar para sempre. Tenho percebido isso ao longo do tempo. Este disco é mais uma homenagem que presto às minhas origens.  

Sobre as tonalidades mais escuras do álbum. As letras mais pesadas são inquietações tuas? É o que observas? Ou ambas?

É uma mistura das duas. São coisas que eu já senti, quando era mais novo, e ainda não tinha tido oportunidade de escrever, de colocar em papel, numa canção. Mas também é o que observo. É sobre o que tenho vindo a reparar que acontece sobretudo nas camadas mais jovens. Há muitos miúdos inseguros, com receio, com problemas, a sofrer de depressão. Há crianças e jovens, dos catorze aos dezoito anos, por exemplo, que já passaram por mais do que nós que estamos nos trinta ou acima. Há miúdos que já tiveram muitos problemas e, ao mesmo tempo, ainda não viveram nada. Tentei meter isso no papel. Coisas que observo no dia a dia. A interpretação que faço do tema 'Normal', e o que coloquei na escrita, é a perspetiva de um miúdo (ou miúda) de dezasseis anos que não se sente normal, que sente que não está incluído na sociedade e que ninguém o percebe. Escrevi com essa perspetiva que também era a minha quando tinha essa idade.

 



Sentes que quando as pessoas ouvirem o disco vão sentir, no que queres transmitir, uma espécie de abrigo?


Acho que isso já acontece e espero que continue a acontecer. O objetivo da minha música não é só para fazer uma carreira, ganhar dinheiro ou ter muitos concertos. Sinto que sirvo, de alguma maneira, para ajudar os outros e fazer parte da vida e do dia a dia das pessoas, nem que seja ajudar num momento menos bom, mais difícil. Sinto que já fazia isso antes com algumas canções. Com este disco sinto que fui mais ao centro da questão. Nos outros álbuns, as canções eram um pouco mais leves, mais centradas no amor. As pessoas levavam mais para esse lado. Neste disco, abordei questões que estão fora dessa ideia de amor [romântico]. São questões de vida. Seja no tema 'Normal', com a interpretação que lhe dei, seja na canção 'Escuro' que é sobre alguém que possa ter tido uma depressão ou que possa ter feito uma escolha errada na vida. O tema 'Água Turva' é sobre uma pessoa que está meio perdida no rumo da vida, mas que acaba por encontrar um porto de abrigo na família, nos irmãos ou nos amigos. Tentei dar essa tonalidade ao disco. Não queria ter apenas canções de amor, apesar de ser um tema constante na minha vida. E vai continuar a ser. Quando começo a escrever uma canção, o que escrevo e as minhas melodias vão automaticamente para aí, mas desta vez tentei desviar-me e acabei por filtrar muitas canções de amor.  

 

 

É engraçado. Essa tonalidade contrasta com uma luz muito forte que se atravessa na vida das pessoas, a experiência da paternidade...
 
Sim. Fogo! (risos) Eu sou uma pessoa feliz. Sou um palhaço. Sou divertido. Já nos primeiros discos, as pessoas deviam pensar que era uma pessoa muito sofrida e que já tinha sofrido muito na vida, mas não é nada disso. Sou uma pessoa normalíssima. Estou de bem com a vida. E agora vou atravessar uma fase também muito boa.  

 



E há pontos de luz neste disco. Não é tudo escuro. 


Claro. O 'Anjos', por exemplo. É uma música em que fazemos uma homenagem a alguém que está ali, à nossa frente, mas que, na verdade, é o nosso anjo da guarda. Pode não ter asas e pode não voar, embora merecesse ter esse atributo. É uma homenagem a todas as pessoas que estão aqui para mudar a nossa vida, para torná-la melhor. A canção 'Noites' é quase uma declaração de amor, "as noites não são noites sem ti ao meu lado". Há uma mistura [de tonalidades] nas canções. A primeira canção do disco, a 'South Side Boy', é uma homenagem às minhas origens. "Isto é o que eu sou" é uma introdução ao disco, não é negativo nem positivo, é o cartão de visita do álbum. O tema 'Cedo', que tem a colaboração do Lhast, é uma canção mais leve e que eu adoro. É uma música que interpreto como sendo uma música da noite.
 


O tema 'Anjos' tem a voz e a criatividade da Carolina Deslandes. Quando estavas a compor esta música, já estavas a pensar em partilhá-la com a Carolina?


Sim, sem dúvida. Já pensava nesta colaboração há mais de um ano. Já conheço a Carolina há coisa de cinco ou seis anos. Viemos do mesmo mundo [ambos participaram no programa de televisão Ídolos]. Admiro a Carolina há muito tempo. Já a via como uma boa amiga, mas também a vejo como uma excelente compositora. Queria muito trabalhar com ela. O bichinho ficou desde a altura em que fizemos uma música com o Agir, o 'Respirar'. A Carolina cantou comigo no concerto do Capitólio, mas, nessa altura, só tínhamos essa canção. (...) Não estava o Agir, mas estava a Carolina. No final, olhei para ela e pensei, "agora faltava uma canção nossa". A 'Respirar' não era só nossa, também era do Agir. Quanto ao tema 'Anjos', tinha apenas um refrão e um verso guardados. Chamei-a para o estúdio e, numa tarde, acabámos a música. A Carolina deu as suas ideias, fez o verso dela e fizemos o pré-refrão juntos. A magia fez-se em poucas horas

Neste disco, tens outras colaborações (Charlie Beats, Lhast, Holly). Já sabias como compor o elenco para este trabalho? São pessoas em que tu confias, artisticamente também…

Sim, claro. São pessoas com quem já tenho uma história. 'História'... (risos) que, curiosamente, é o nome da música que fiz antes com o Lhast. Na altura, fiquei a gostar muito dele. Fiz questão de convidá-lo para disco. Estive uma temporada em Los Angeles. Estive lá duas semanas, a trabalhar com muita gente, mas guardei dois dias só para trabalhar com o Lhast. Queria mesmo trabalhar com alguém português. Aproveitei que ele estava lá, fui até casa dele para trabalharmos juntos e surgiu a canção. [No processo criativo], surgiram outras ideias, mas senti que a ideia que ficou foi a melhor. Passados uns meses, quando ainda não tinha a colaboração [para a segunda voz] fechada, ouvi a música e percebi que só fazia sentido ser ele, até porque já muita gente o conhece como rapper, como artista e não só como produtor. Lancei o desafio. 

Estás sempre bem rodeado, mas há sempre momentos mais solitários na criação, na composição. Esses momentos são também um resguardo? São cada vez mais valiosos?

Sempre valorizei a solidão na parte da composição. Não sei se é bom ou mau. Se calhar, em alguns momentos, poderia trocar mais ideias com outras pessoas e não demoraria tanto tempo a compor uma canção. A solidão faz com que o processo de composição seja mais demorado. As ideias vão saindo lentamente e quando não saem não há ninguém ao teu lado a dar um input diferente. Estão na minha cabeça, mas quando não saem tenho de "fechar a loja". Arrumo a música e, se calhar, só passado um ano é que volto a pegar nela. É só nessa altura que desbloqueia. O meu processo criativo é um pouco assim. Solitário, no bom sentido da palavra, e mais demorado porque fico muitas vezes a maturar as ideias. Depois, há ideias que saem automaticamente, como aconteceu com 'Paraíso' ou 'Noites'. São dois exemplos de canções que surgiram automaticamente. Houve outras que demoraram mais tempo. Para mim, a solidão foi sempre importante. O facto de ser mais caseiro ajuda. Tenho o meu espaço, o meu tempo, as minhas horas. Às vezes, fico até às cinco da manhã, até de madrugada, de manhã. Não tenho a pressão do horário de um estúdio. (...) O que acontecer, acontece.

Essas composições vão chegar às pessoas, vão ter efeito na vida dos outros. Sentes alguma responsabilidade por estares a criar algo que vai ser de tanta gente?

Sim, sinto. Sinto muita responsabilidade. Penso muito bem nas palavras que estou a escrever. Além da melodia, o mais importante é ter as palavras certas. Tento não escrever só por escrever. Tento que as palavras fiquem e perdurem. (...) Eu sei que a música pode ser eterna. As pessoas que ouvem agora podem ouvir daqui a muitos anos. Podem ouvir da mesma maneira, com a mesma saudade, com o mesmo sentimento. Quando estou a escrever, tento fazê-lo da maneira mais genérica possível. (...) Penso muito nas palavras que vou usar, quero que sejam o mais intemporais possível.

E depois tens de criar a atmosfera certa para envolver essas palavras… 

Sim, a produção.

Que tu gostas muito de fazer, certo?

Adoro. Adoro inventar, colorir. É quase como se fosse uma brincadeira, embora séria. Tenho vindo a desenvolver o meu trabalho de produtor, não só para mim mas também para os outros. Até tenho trabalhado mais para outros artistas do que para mim. Sou mais esquisito com os outros do que quando estou a produzir para mim. Quando o faço para mim, tenho cada vez mais tendência a perder os filtros. Tenho sido cada vez menos esquisito, tanto com a produção como com a mistura final. Antes, chegava a fazer umas sete ou oito versões. Agora, não. Aceito logo a visão da pessoa que vai misturar o álbum. Sou mais esquisito com o trabalho que faço para os outros. É um trabalho que vou entregar. O meu nome vai ficar lá. Quero que seja um sucesso, que as pessoas me tenham em boa conta. Comigo estou um bocadinho mais solto, até invento umas coisas. Tento sempre criar ambientes diferentes, cores diferentes, produções diferentes. Tanto vou para o pop como para o DnB. Tenho uma música a roçar mais o trap, tenho outras mais acústicas. Gosto de mostrar versatilidade.

O que é que colocaste neste álbum que não tenhas colocado nos outros?

Talvez um pouco mais de honestidade e sinceridade nas letras. Não é que não tenha sido honesto antes, mas talvez tenha sido mais platónico, mais leve nos álbuns anteriores. Se ouvir cada uma das canções deste disco, sei que aquilo aconteceu. Nos outros, cheguei a imaginar histórias de amor que podem ou não ter acontecido. O que canto neste aconteceu comigo ou com pessoas próximas.
 



És um dos jurados do programa The Voice Portugal. Sendo que há uns bons anos participaste no Ídolos, o que é que o Diogo de hoje diria a esse Diogo do passado?


Diria para ter calma. (risos) "Tem calma, vai acontecer" é o que diria. "Não te preocupes se fores eliminado". Agora percebo melhor aquela frase, "cantas bem, mas não é disso que estamos à procura". É uma frase cliché que os jurados usam, mas agora percebo perfeitamente o que querem dizer. Percebo a questão do timing certo. Na altura, queria tudo muito rápido, mas agora sei que as coisas têm de ter um tempo. (...) Se estivesse à frente do Diogo mais jovem, diria: "é na boa, puto. Está tudo bem. Vai acontecer, continua a fazer o que estás a fazer".

É na boa e um dia vais tocar na Altice Arena…

(risos) Vais tocar na Altice Arena e vai correr tudo bem.

A Altice Arena. Uma das maiores salas do país...

É enorme. Fui lá há alguns dias e percebi o tamanho daquela sala. É gigante. Eu já sou pequenino, mas assim que entrei lá dentro, senti-me minúsculo.                   

Também já tens uma família de seguidores grande para encher a sala. E muitos amigos.

Sim, já tenho uma família grande. (risos) Também ainda há tempo para comprar os bilhetes, para encher a sala. É só em março. Agora vem aí o Natal... é uma altura ótima para comprar bilhetes para oferecer à família (risos). Mas, sim. Quando entrei lá dentro, senti mesmo o peso da responsabilidade. Pensei, "isto é gigante, tenho de encher esta sala". Tenho de encher no sentido de encher com a minha voz e com as minhas músicas

E também com o elo que tens com as pessoas que ouvem, com a tal "família". É uma relação muito bonita, genuína e muito descontraída. Já podes adiantar alguma coisa sobre o concerto?

Posso dizer já o nome de alguns convidados. Vou ter a Carolina Deslandes e o Lhast. Não sei se estarão reservadas mais surpresas para esse dia. Vai ser o concerto onde vou apostar mais na produção, nos conteúdos de vídeo, de luz. Já penso muito no concerto e no espetáculo que quero criar. Quem já esteve nas digressões anteriores sabe que há sempre um conceito. Também há um conceito neste disco.. Acho que na Altice Arena esse conceito vai estar a cem por cento. Se calhar, no resto do país e na tour de verão, vai ser um pouco mais difícil. Há sempre limitações, seja o tamanho do palco, limitações da vila ou da cidade. Acho que seria bom irem à Altice Arena para sentirem o "South Side Boy" a cem por cento.  
 


    

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