Vampire Weekend muito acima dos limites de velocidade

Fecho alucinante de digressão no Coliseu dos Recreios.

27 de novembro de 2019 às 02:00Vampire Weekend muito acima dos limites de velocidade

Em contraste, com a noite molhada e outonal lá fora, a enchente no Coliseu de Lisboa emanava um calor tropical. Mas no palco, esse calor era mais árido e africanado, com a guitarra eléctrica de Ezra Koenig a arranhar na África ocidental desde a música de arranque, Flower Moon.
 
Logo na música a seguir, Holiday, o baixista Chris Baio e o guitarrista Brian Robert Jones ensaiam uma dança entre os dois. Naquele momento os Vampire Weekend eram já uma banda a dançar, como os Talking Heads no filme-concerto "Stop Making Sense" (vejam, revejam!). Nesta azáfama, quando cumpriam a terceira música do alinhamento, Bambina, só o globo gigante do cenário não pulava. Tudo o que era humano na sala parecia ter uma mola. 
 
Também saltitam os acordes de guitarra vivaços de Koenig, que está imparável no seu dedilhar, protagonizando mais uns slides e mais uma transgressões acima dos limites de velocidade. One (Blake's Got a New Face) é mais um momento de comédia, com Ezra Koenig a alternar a frase de ordem "Blake's Got a New Face" com o público em coro. Oxford Comma é a dúvida gráfica mais orelhuda de sempre, que arranca sorrisos de orelha a orelha na sala e alguns camarotes são naquele momento pistas de dança atrofiadas por cadeiras.
 
Ezra Koenig congratula-se por poderem dar um concerto em nome próprio em Portugal, ao fim de nove anos, podendo tocar músicas que normalmente não conseguem, como esta, Jonathan Low, para a série de filmes de Twilight. O vocalista mantém a voz de garoto, e os teclados preservam os seus encadeamentos barrocos. O Jardim do Éden dos Vampire Weekend continua bem verde ao fim destes anos todos.
 
No tema Sunflower, os Vmpire Weekend tiram proveito de serem hoje um septeto ao vivo, atirando-se ao rock sinfónico e ao jazz-rock, em especial o seu guitarrista convidado Brian Robert Jones, possuído por taras de solista naqueles minutos. É um momento "headbangers ball" na montanha russa dos Vampire Weekend, onde a seguir sentem a meiguice de This Life, tão fofinha como o algodão doce. 
 
Os Vampire Weekend têm mais do que tempo para se enfiarem campo adentro, como ocorre no dueto country com a sua instrumentista Greta Morgan, em Married in a Gold Rush. Já Harmony Hall é um mais country mais miscigenado, nesta expansão de felicidade n°15 
 
A partir de Diane Young, os Vampire Weekend voltam a engatar a velocidade sónica, O público continua a dançar o corridinho rock da arena às galerias de pé em Cousins e em A-Punk. 2021é de uma ternura romântica resistentemente inocente. Mas Giving Up the Gun aumenta o frémito, de um tema que já foi mais electrónico. Um piano convenientemente desafinado fecha o concerto quase em modo fade out, através de 'Jerusalem, New York, Berlin'.
 
O regresso a palco faz-se através de Manfard Roof, ou mais um TGV a passar por África. Num encore marcado pelos pedidos para tocarem a que o grupo acedeu, o fecho tem como canção Walcott, o punk e o barroco numa so canção e uma energia juvenil contagiante que ainda não se perdeu, enquanto rebolavam dois globos por cima da assistência.
 
Os elogios a Portugal de Ezra Koenig são tão sentidos, que não soam estafados ou redundantes, repetindo que Lisboa é "o melhor sítio para acabarmos uma digressão".
 

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