Noble: a nobreza dos bons sentimentos

O músico lança hoje o disco de estreia 'Honey'. No dia 22 de novembro, vai apresentá-lo na Casa da Música, no Porto. Conversámos com Noble sobre música, o novo disco, a vida, o amor, a família e sobre a força criativa das emoções.

Noble: a nobreza dos bons sentimentosFoto Promocional
Silvia Mendes


"Honey" é o disco de estreia de Noble que, a partir de hoje (15 de novembro), já pode ser ouvido de uma ponta à outra.
 
Na descrição do jovem músico Pedro Fidalgo, de 23 anos, chegou-nos que "correm-lhe nas veias os sons de toda uma vida, a sua e a de muitos que o rodeiam, sonoridades simples que o inspiram a compor temas inéditos e especiais. Do borbulhar da água ao chilrear dos pássaros, passando pelas vozes, o murmúrio do mar ou as ondas do vento, tudo lhe desperta a atenção".

Aos 14 anos, a avó ofereceu-lhe uma guitarra que começou a dedilhar desde logo, tal como Bruce Springsteen que também pediu uma guitarra à mãe quando os grandes palcos eram apenas uma miragem. Sabemos que a história é comum a muitos músicos, sim, mas importa ressalvar que Bruce é uma das inspirações de Noble e que, a bem da verdade, há mais pontos em comum entre ambos do que apenas uma guitarra. A relação de honestidade e entrega com a música, por exemplo.  

"Honey" é o nome do disco e também do single que apresentou o álbum ao mundo. Sim, ao mundo. Para sabermos isso, basta estarmos atentos aos comentários feitos ao vídeo no YouTube. 'Honey' está, claramente, a atravessar fronteiras. Noble escreveu-a durante a luta que travou contra um carcinoma pulmonar, uma fase mais complicada que apurou ainda mais a forma de olhar e sentir do músico de Amarante.

Na conversa que tivemos, falámos sobre a música, o amor, a família, as canções/histórias do disco e, claro, sobre o concerto, mais a norte, que vai "dar vida" a 'Honey' no palco. Foi um verdadeiro prazer ouvi-lo.
 

Vamos começar com uma viagem temporal até à tua infância. Sei que a música acompanhou o teu crescimento, não foi? O teu avô tocava vários instrumentos…

O meu avô tocava muito…

Em que medida é que a dedicação do teu avô à música foi uma inspiração para ti?

O meu avô tocava muito, tocava muitos instrumentos. Lembro-me que, durante grande parte da minha infância, vivi mais as histórias [que se contavam] do que propriamente [a experiência] de vê-lo tocar. O meu avô teve uma trombose. Infelizmente, teve de deixar de tocar, mas ficaram as cassetes que gravava. Ele tinha um rádio gravador. (risos) Era muito engraçado. O meu avô tem onze filhos, dez ainda vivos, e muitos estão no estrangeiro. No Natal - e porque os meus avós não sabiam escrever - costumavam gravar cassetes como se fossem cartas de Natal. O meu avô sentava-se à volta do rádio gravador, com a minha avó e os netos mais pequeninos, filhos dos meus tios que estão no estrangeiro, e "falava com eles", a desejar bom Natal e boas entradas. O meu avô pegava na viola e dizia, 'esta música é para a tua avó!'. Pegava no cavaquinho, 'agora, vão ouvir o cavaquinho do avô'. E era assim. No fundo, era uma carta em áudio (risos), porque não tinham outras possibilidades. Era incrível. Essas cassetes ainda estão lá e já foram passadas para CDs. Contam histórias que nos ultrapassam, são bem maiores que nós.

Isso é muito engraçado, no teu disco também tens algumas "cartas" musicadas. Não sei se recebeste esse legado consciente ou inconscientemente, mas já lá vamos… 


É verdade... (risos)

Antes disso, tiveste formação musical ou foste explorando sozinho as possibilidades da música?

Comecei a aprender tocar guitarra sozinho. Queria explorar um bocadinho mais [a guitarra], o meu sonho era ser guitarrista solo. Lembro-me que, quando ouvi, pela primeira vez, o 'Sultans of Swing', dos Dire Straits, disse: 'eu quero tocar isto, eu quero ser assim’. Só conseguia imaginar-me de fato, em cima do palco, a tocar aquilo... (risos). Na altura, tinha 14 anos. Então, tive aulas com o professor Rui, em Amarante. Foram 4 meses de aulas. Posso vir a ser crucificado com o que vou dizer (risos), mas, para mim, a música começou como uma distração, era algo que me retirava do dia a dia, misturar isso com a escola já não era tão fixe, principalmente porque só tinha 14 anos.

E depois tiveste uma banda de tributo aos Nirvana. Como é que isso aconteceu?

Sim, a minha primeira banda era de tributo aos Nirvana. Tocávamos o "Unplugged" [gravado em Nova Iorque pela MTV, em 1993] inteiro dos Nirvana. Eu era "chavalo", tinha para aí uns 15 anos. Entretanto, fui crescendo e tive de deixar de fazer isso, ninguém tem voz para aquilo (risos). (...) Como era uma banda de tributo, tentava ser o mais "accurate" [aproximado] possível. Na brincadeira, até dizia à malta, 'faço um concerto, depois tenho de descansar três dias. (risos).
 



Essa ligação aos Dire Straits, aos Nirvana, ao rock n' roll…

Ai, é o meu pai!

E também está em ti…

Está muito presente, desde miúdo. Lembro-me das grandes viagens de carro que fazia com o meu pai. Eu adorava ir trabalhar com ele. Saíamos às cinco e meia da manhã de casa. O meu pai tem uma empresa na área da construção, há já muitos anos, e eu gostava de acompanhá-lo. Estava sempre a pedir-lhe para ir com ele aos fins de semana. Tenho essa imagem muito presente. Nós, a sairmos de casa às cinco e meia, seis da manhã, entrarmos na autoestrada - ainda sem sol - e depois ver o sol a nascer, enquanto ouvíamos Bruce Springsteen, o Bruce que é A paixão. Tive uma infância muito feliz a nível musical, foi uma escola muito boa. O meu pai foi uma grande influência. Dou muitas graças por isso. Foi o que me tornou no que sou hoje.

Tornou-te num músico e compositor de peito aberto e com uma clara honestidade na composição. Quando estás sozinho, no teu momento de criação, como é que começas a dar forma às canções?


Muitas das minhas canções começam à guitarra, mas depende. A 'Honey' começou à guitarra, mas é com o que tiver mais à mão. Se estiver em casa, é com a guitarra. Às vezes, vou para o piano, para treinar um bocadinho, e, sem querer, começo a tocar qualquer coisa. Nessa altura, penso, 'vou desenvolver isto'. É mais por aí. Não tiro tempo específico do meu dia para compor ou escrever, acho que isso tira a componente de alívio [à música] e passa a ser um trabalho. É óbvio que a música é o meu trabalho, mas também é uma arte, um escape. Não pode ser tão pesada.

É nesses momentos mais íntimos de composição que escoas aquilo que sentes, o que observas?
 

É. É a minha forma de libertar. No meu caso é a música, mas é o que acontece com qualquer outro artista, com um pintor, por exemplo. É um alívio emocional. (...) A música ajuda muito nessa libertação. Às vezes, pode ser apenas um pensamento negativo, alguma coisa que correu mal. Como é algo que flui, torna-se mais fácil do que falar do problema. (...) A música ajuda-me muito nisso, deixa-me falar dos meus problemas sem falar neles.

Há pouco falaste no Bruce Springsteen. Aproveito para "puxá-lo" para a nossa conversa, acho que não te vais importar…

Não, nada. O Bruce é o maior!

Na autobiografia "Born To Run", há uma parte em que o Bruce Springsteen escreve sobre a partilha da música que cria com os outros: "As nossas primeiras canções surgem no momento em que as escrevemos sem termos a certeza de alguma vez sermos ouvidos. Até então somos só nós e a nossa música. Isso só acontece uma vez." Pegando nas palavras de alguém que admiras tanto, o que é que sentes quando as pessoas entram nas tuas canções?

Eu costumo dizer uma frase que vai muito ao encontro disso. Depois das canções saírem, digo: 'esta música era minha e agora é nossa'. (...) Há sempre aquele medo, porque estamos a dar de nós. (...) Cada música é um pensamento nosso. Quando dás isso às pessoas, tens sempre aquele receio. Será que alguém se vai identificar? Será que não? Será que vai ser bom para as outras pessoas, será que se vão identificar com o mesmo problema que eu estou a atravessar? Ou não, não precisa de ser um problema, pode ser uma canção de amor, seja o que for. Temos sempre aquele receio, mas é sempre bom entregar às outras pessoas. Principalmente, porque há sempre alguém que se encontra nas nossas palavras. 'Olha, estou a passar exatamente pelo mesmo' ou 'eu precisava mesmo de ouvir isso'. Isso limpa qualquer coisa negativa, qualquer mau comentário. Um bom limpa tudo. 

 



'Honey' não é uma música qualquer. Tem uma carga emocional muito forte. Pelo que sei, foi escrita quando te foi diagnosticado um problema de saúde grave. A canção é descrita como uma "carta de despedida" para a tua namorada. Escreveste-a com angústia, certamente, com uma carga pesada e, ao mesmo tempo, falas de luz e de um final feliz...


Na altura em que atravessei essa fase mais complicada da minha vida, e sei isto do fundo do coração, sei que foi bem mais difícil para ela e para a minha família do que para mim. Era eu que estava a atravessar o problema, mas quando estamos a passar por algo assim, como nos conhecemos, arranjamos forma de lidar com as coisas. As outras pessoas não estão dentro da nossa cabeça, não sabem o que estamos a pensar, não sabem se estamos a lidar bem com a situação ou não. (...) Escrevi a 'Honey' no dia em que fizeram o diagnóstico cancerígeno. (...) Lembro-me que a minha namorada e a minha mãe, que estavam comigo no consultório, choraram muito, choraram a alma pelos olhos. Quando cheguei a casa, tive de escrever, 'se eu partir amanhã, não chores. O teu amor é a minha luz'. É a ideia de que vai ficar tudo bem, de que se eu morrer a amá-la [a namorada], vai ficar tudo bem. Tem uma carga emocional pesada, mas era o que estava a sentir quando escrevi a canção.
 


'Coming Back' é outro single do disco...


'Coming Back', sim, que estreou no sábado passado. (...) No fundo, é uma continuação da 'Honey'. Retrata o afastamento emocional de um casal (...), neste caso devido a um problema de saúde. Eu apercebo-me que estou a retrair-me um bocadinho. Às vezes, afastas-te para não magoar, não é por não queres estar com a pessoa, é mesmo porque não queres magoá-la. É perceberes que estás a afastar-te e dizer, 'não, eu quero voltar a casa'. Quero voltar a sentir. I'm coming back.    

 



Isso transmite outra mensagem, a maturidade emocional que já tens aos 23 anos. Agora que está tudo bem com a tua saúde, sentes que essa experiência alterou a forma como olhas e observas a vida?


Olhas para as coisas pequeninas e [começas] a vê-las grandes. Dás mais valor a cinco minutos de contacto físico do que a uma hora de telemóvel, a falar, numa chamada com alguém, seja com quem for. Cinco minutos ali, a olhar para a pessoa, a cheirar a pessoa. Estar ali, sentir (...). É bem mais importante do que qualquer queixa que está encostada ao teu ouvido.

 



Transmites isso também na tua música, claro.

Sim. Por exemplo, as pessoas vão achar-me um bocado mórbido (risos), posso contar a história de uma música do meu disco que se chama 'Sorry'. A minha bisavó morreu há relativamente pouco tempo. Antes, vivia em casa da minha avó, era a minha avó que tomava conta dela há já alguns anos. Quando [a bisavó] estava no hospital quase a morrer, chamaram a minha avó que ficou destroçada. A minha bisavó só olhou para ela, sorriu e ficou. Não conseguiu falar, não disse nada. A minha avó guardou a almofada dela durante meses, meses e meses. A 'Sorry' é o que a minha bisavó diria à minha avó. 'Sorry if I died, sorry if I cried. I never meant to hurt you. I never meant to fall, but I heard my call. I'll be here for you, If you need me too'. É a minha bisavó a dizer, 'eu continuo aqui. Sempre que precisares de mim, estarei aqui'. A minha avó não entende inglês, mas eu traduzi [a letra]. Escrever sobre emoções é muito bom, essa música também tem uma forte carga emocional. O meu produtor, o Rui Saraiva, que se tornou um grande amigo, é um grande músico e também toca comigo ao vivo, fez um riff de guitarra que torna a canção muito poderosa ao vivo. Ganha uma abertura espiritual. Quando a oiço, lembra-me o gospel, uma oração. Estamos a tocá-la e só dá vontade de chorar, chorar de limpeza. Tem sido mesmo bom poder pôr esses sentimentos em papel, eventualmente passá-los para uma gravação e agora partilhá-los com as pessoas.

 



E, às vezes, todos nós precisamos de orações que podem ser apenas uma canção.

Sim, é verdade.

Que outros temas destacas neste álbum? 

Sou suspeito, os temas são meus, mas acho que o meu tema favorito é o 'Higher'. Foi um dos primeiros que escrevi, quando comecei a trabalhar na Metrosonic [Records], começámos as gravações em Viseu e eu moro em Amarante. Parece que não, mas quando estamos longe de casa, a dormir fora de casa, qualquer distância parece "a million miles away". A letra é sobre isso, 'a million miles away, but all I see is you'. Sou eu a falar com a minha namorada, claro! (...) Acho que é um disco emocional, muito cru. Estou praticamente nu neste disco. (...) É uma alma despida. Estou muito ansioso por poder entregá-lo às pessoas e perceber o que é que as pessoas vão retirar dali. A parte boa da música é que cada um dá-lhe a interpretação que quiser, no momento que quiser.

 



Daqui a trinta anos, imaginas-te a escrever sobre o quê? Já pareces tão amadurecido nas tuas perceções, na tua compreensão das emoções e dos sentimentos…

De amor... eu adoro falar de amor. É tão incrível. Há sentimento melhor? Se houvesse mais amor, não haveria tantos problemas, tantas desgraças. 

Vais levar esse amor todo e vais estar de alma despida no próximo dia 22, na Casa da Música, no Porto. Vai ser o concerto de apresentação de "Honey". O que é que podes contar sobre o concerto?

É a primeira vez que vamos tocar o disco na íntegra, até porque só acabámos de gravar a última música há duas semanas. Sinto que vai ser um concerto poderoso, tanto a nível emocional, como de espetáculo. Estamos a preparar um cenário muito engraçado, mas não posso desvendar muito mais. A banda que está comigo é formidável. O meu baterista (o João Costa), o Rui Saraiva, que é a cola disto tudo (é o produtor e toca piano). Vamos ter duas meninas nas cordas para tocar a 'Honey' e ainda outro tema ['Stay'] que tem uma introdução só de cordas. É uma canção que também gosto muito. Vamos ter muitas surpresas, mais do que isto não posso dizer (risos). O melhor é estarem lá.