Capicua: "Este é o meu disco mais solar"

Rapper fala sobre o próximo álbum "Madrepérola", que sai no início de 2020.

Gonçalo Palma
29 outubro 2019, 17:05

Hoje é o dia em que ficámos a conhecer o tema de Capicua, 'Madrepérola'. O terceiro e novo álbum, também intitulado "Madrepérola", sai no início do próximo ano (em janeiro ou, o mais tardar, em fevereiro), e está contaminado pela recente maternidade da MC nortenha. "Este é o meu disco mais solar e mais dançável. E acho que este primeiro single Madrepérola, que dá o título ao disco, acaba por representar bem esse espírito mais alegre e solar do disco. Senti que dominava aqueles assuntos mais emocionais e sérios, mais politico-sociais. E eu queria fazer uma abordagem diferente, falando de assuntos sérios, mas dando a volta, de forma mais irónica, mais cómica, mais divertida. Tentei fazer isso neste disco", afirma Capicua, em entrevista à nossa rádio. "Há outra coisa que é representativa que é o facto de ter mais colaborações, de artistas brasileiros. Este single tem a participação da Karol Conka, que é a maior diva do rap brasileiro e que acaba por trazer esse espírito lusófono e luso-brasileiro que o disco acaba por ter”.

 

Além de Karol Conka, há mais quatro músicos brasileiros entre os convidados do álbum, incluindo Rael e Emicida, com quem Capicua tinha colaborado do projeto transatlântico Língua Franca (onde também milita Valete). "Sou muito inspirada pela música brasileira. Por ter trabalhado diretamente com eles, percebi que têm uma forma muito intuitiva de escrever e de criar. São muito produtivos e criativos nas melodias e nas expressões. Flirtam com a língua portuguesa de uma forma que às vezes nós não conseguimos fazer porque somos mais rígidos nesse respeitinho que temos às palavras. Sou muito inspirada por eles e senti que as minhas referências culturais bebem muito do que se faz no Brasil e senti que precisava de espelhar isso. Acho que essa marca de alegria que eles têm também está no disco. Costumo dizer que os portugueses têm dificuldades em fazer música alegre, quando tentamos parecemos meio-patetas. Temos tendência fazer coisas mais melancólicas. Os brasileiros e os africanos têm uma facilidade em fazer música alegre com classe. Tentei fazer uma coisa nessa linha e este meu disco é a minha tentativa".

 

Outro convidado ilustre é Camané que canta o refrão no retrabalhado tema 'Flor de Maracujá', primeiramente publicado em nome de Stereossauro, com letra de Capicua. "Ficou desde o primeiro minuto apalavrado que haveria uma segunda versão, em que o Camané regressa com o refrão, o beat é o mesmo do Stereossauro. Mas fiz uma versão diferente com uma letra para eu cantar".

 

O tema-título hoje revelado, 'Madrepérola', é um desfile dos ídolos de Capicua, quase todos femininos, como a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, a artista plástica Frida Kahlo, a filósofa Simone de Beauvoir, ou gente da música como Sade, Nina Simone, Elis Regina, Amália Rodrigues ou Blaya, entre muitas outras. Poderia estar lá também a jovem ecologista Greta Thunberg? "Quase todos os dias me lembro de mulheres que podiam estar lá e não estão. A Greta é uma delas. Há muitos outros ícones que admiro e que têm muita relevância hoje e que não estão lá. Acho que [Madrepérola] é uma música que podia durar 20 minutos, meia-hora, só a falar de mulheres importantes e que têm feito história. A Greta tem feito muito pela sensibilização das camadas mais jovens e de trazer o assunto das alterações climáticas para a ordem do dia, a partir do olhar das gerações mais jovens. Há muito tempo que eu não via essa mobilização das camadas mais jovens naquilo que é o ativismo e a luta política e social. Acho que é super-importante que a ecologia faça esse resgate. Lembro-me que nos anos 90, quando eu fazia esse trabalho associativo, havia mais essa ideia de que as causas eram dos adolescentes. Nos últimos tempos, não temos sentido isso tanto. Parece que os adolescentes estavam distraídos com outras coisas. Esse resgate dos adolescentes para a vontade de mudar o mundo é uma cena super-romântica e acho que devemos muito isso à Greta".

 

O hip hop de intervenção de Capicua vai estar mais disfarçado neste álbum de 2020 da rapper portuense. "Se calhar, falo de temas menos politico-sociais tout court. Acho que vou falando de coisas sérias de forma mais irónica e divertida, sem a coisa tão óbvia do megafone na mão. Acho que já tenho experimentado muito isso nos discos anteriores. Senti que era hora de ir a outros territórios. Acho que o facto de ter tido um bebé e de estar numa fase da vida diferente me dá vontade de trazer alguma luz e cor à minha música".

 

Pela primeira vez na sua carreira, Capicua faz uma antestreia ao vivo de um novo álbum seu. Ou seja, a rapper nunca tinha apresentado em palco um disco que ainda não tinha sido editado. Essa antestreia ao vivo do álbum "Madrepérola" acontece a 17 de dezembro, no Teatro da Trindade, em Lisboa, a 17 de dezembro (bilhetes individuais a oito euros). Com um cenário diferente (ao que tudo indica), Capicua vai ter o apoio vocal de mais “duas cantoras”, num elenco que conta com um DJ, o programador Virtus, a rapper M7, o baterista e percussionista Ricardo Coelho, e os teclistas Sérgio Alves e Luís Montenegro [não, não é o candidato à liderança do Partido Social Democrata].  

 

Também conhecida como ativista da Guerrilha Cor-de-Rosa, Capicua lamenta que a polémica em torno do videoclipe e do tema de Valete, 'BFF', se tenha fulanizado. O rapper, com quem Capicua já colaborou, faz de narrador participante numa música ficcionada sobre um ajuste de contas com arma de fogo entre o marido traído e a mulher e amante. "Sinto que o Valete tem toda a liberdade para fazer a arte que faz. Claro que depois as pessoas têm a liberdade de criticar não só o conteúdo, como o contexto e o sentido de oportunidade. É essa a liberdade que me interessa: a liberdade de criar e a liberdade de criticar. Ele tem todo o direito de fazer a música que quer fazer, abordando os assuntos como entender, e acho que as pessoas têm a liberdade de criticar. Nem ele pode ser perseguido criminalmente pela música que faz, nem a crítica deve ser perseguida. É esse o clima de liberdade que temos que ter em atenção. As pessoas fazem a música que querem e nós também criticamos, tudo dentro de um clima saudável, que é o que acho que não aconteceu aqui. É isso tenho pena".