E-mail faz 50 anos. Mudou o mundo e continua com futuro

Apesar do avanço de tecnologias de mensagens instantâneas, especialistas consideram que o e-mail ainda tem margem de crescimento. O primeiro mail enviado tinha apenas duas letras: LO.

29 de outubro de 2019 às 07:00E-mail faz 50 anos. Mudou o mundo e continua com futuro

O primeiro e-mail entre dois computadores separados fisicamente foi uma palavra sem sentido cortada a meio, mas 50 anos depois a ferramenta é ainda a aplicação mais popular que a Internet trouxe.

Quando hoje praticamente uma em cada três pessoas deve ter um e-mail (haverá cerca de três mil milhões de contas, mas muitas pessoas têm mais de uma conta), há 50 anos a primeira tentativa de comunicar eletronicamente nem sequer correu bem.

No dia 29 de outubro de 1969 Leonard Kleinrock, investigador da Universidade da Califórnia, enviou a mensagem “LO” para um seu colega, Douglas Engelbart. Leonard queria escrever “LOGIN”, mas o sistema foi abaixo a meio.

Antes, no início desse década, já tinham sido feitas algumas experiências de troca de mensagens entre dois terminais do mesmo computador, primeiro em tempo diferido, em 1961, e depois em tempo real, em 1965.

Mas se no princípio era o “LO”, nos anos seguintes o novo tipo de comunicação desenvolveu-se e apenas dois anos depois: em 1971, criaram-se os primeiros programas para envio de e-mail e também o símbolo arroba (@).

Cinco anos depois, em 1976, a rainha de Inglaterra, Isabel II, enviava o seu primeiro e-mail. E dois anos mais tarde o marketing iria descobrir o e-mail. E nunca mais o largaria.

Até à década de 80 do século passado a técnica foi-se aperfeiçoando e começou a ser possível, por exemplo, enviar uma mensagem para mais do que um destinatário, ordenar e salvar mensagens, reencaminhar ou responder automaticamente ou anexar ficheiros.

Foi quando surgiu também o chamado “spam”. O primeiro e-mail não autorizado e com um conteúdo publicitário enviado ao mesmo tempo para milhares de pessoas foi mandado a 01 de maio de 1978, nos Estados Unidos, segundo a página www.livinginternet.com.

Cresceu o “spam”, cresceu a concorrência, apareceu o Gmail (e-mail da Google, com muita capacidade), surgiram outras aplicações de comunicação instantânea, de texto, de áudio, de vídeo, de envio de ficheiros. Foi o Messenger, o Skype, o Twitter, o Facebook, o Instagram, o WhatsApp, para só citar alguns, tudo ferramentas mais apelativas para os jovens, que praticamente não se comunicam por e-mail.

Apesar do “spam” e de outros problemas que possa trazer, o e-mail é ainda a aplicação mais popular que trouxe a Internet. Não implica grande esforço, é rápido e gratuito, não tem de ser necessariamente respondido, pode ser breve e sem formalismos, além de que pode ser enviado a qualquer hora e lido em qualquer momento em quase todos os lugares do mundo.

Em Portugal sensivelmente ao mesmo tempo que no resto do mundo, expandiu-se a partir de meados da década de 1990 e hoje está em todo o lado: é usado pelo Governo, é usado pelos Tribunais e tem para efeitos jurídicos o mesmo valor que outra prova documental.

É recente, por exemplo, o caso dos e-mails do Benfica, envolvendo o clube de Lisboa e o Futebol Clube do Porto, ou o caso Griezmann, relacionado com e-mails também e envolvendo o jogador e dois clubes de futebol espanhóis, o Barcelona e o Atlético de Madrid. Ou o caso de Hillary Clinton, que foi candidata a Presidente dos Estados Unidos e que foi envolvida num caso relacionado com o uso de e-mails oficiais através de uma conta pessoal.

Os e-mails são um caso sério, podem ser fraudulentos, e podem também carregar vírus. Em 1999, foi famoso o “melissa” que se espalhou via e-mail e provocou danos de milhões de euros. E a página “livinginternet” deixa também um conselho: nunca enviar um e-mail quando se está irritado.

É que antes do e-mail uma pessoa irritada tinha de arranjar papel e caneta, escrever uma carta, metê-la num envelope, selá-la e ir ao correio para a enviar. Tinha tempo para ponderar as palavras ou mesmo a pertinência do envio. Hoje um e-mail cheio de irritação escreve-se e manda-se em segundos. E pode ser salvo, impresso, reencaminhado e ficar exposto permanentemente.

Ainda assim, com concorrência, podendo ser demasiado impulsivos, prejudicais, com vírus, com publicidade não solicitada, a verdade é que cada vez mais escasseiam as cartas nas caixas de correio e aumentam as comunicações por e-mail.

E quanto mais longe chega a Internet mais longe chega também uma conta de e-mail, para receber faturas ou extratos bancários, para mandar e receber documentos, para enviar e receber mensagens. Através do e-mail envia-se um currículo, recebe-se uma proposta de emprego, deseja-se bom natal ou um feliz aniversário, faz-se talvez uma declaração de amor.

Mesmo que a música e a poesia não falem de e-mails de amor mas sim de cartas de amor. Ainda que ridículas.
 

E-mail mudou a forma como o mundo comunica

 

O correio eletrónico (e-mail) acabou com metade do correio tradicional, eliminou o fax e mudou a maneira de comunicar no mundo. Faz 50 anos esta terça-feira, enfrentando as mensagens ‘online’ das redes sociais.

Evoluindo em paralelo com a Internet, o e-mail é hoje uma ferramenta essencial e são enviadas a cada minuto quase 200 milhões de mensagens eletrónicas, parte delas importantes.

Em Portugal foi, por exemplo, responsável pela queda para metade do volume de correio tradicional.

Segundo dados fornecidos à Agência Lusa por fonte oficial dos CTT, o volume de correio caiu para metade desde 2001. Nessa altura o volume atingia 1,4 milhões de objetos de correio endereçado, que passaram a 0,7 milhões no ano passado.

“O volume de correio tem vindo por isso a cair, fruto da digitalização e do crescimento do comércio eletrónico”, disse a fonte à Lusa, acrescentando que em compensação o volume de encomendas e pacotes tem vindo a aumentar. No ano passado o volume de encomendas e pacotes com origem no ‘e-commerce’ (comércio eletrónico) cresceu 18%. E cresce a cada trimestre.

Uma parte importante do correio tradicional que está a ser suprimida é a do correio comercial, como as faturas de serviços públicos e outros, substituídas por faturas eletrónicas.

Exemplo disso é a EDP Comercial, de acordo com dados oficiais fornecidos à Lusa. Há 10 anos, em janeiro de 2009, a empresa introduziu a hipótese de os clientes receberem faturas por via eletrónica, tendo enviado nesse ano 300 mil documentos através de e-mail. Uma década depois a empresa envia eletronicamente cerca de 20 milhões de documentos por ano, dos quais 17 milhões são faturas.

Estes números demonstram, segundo fonte oficial, que 40% das comunicações com clientes são feitas em formato digital.

E diz ainda a mesma fonte que, com a aposta no e-mail, foram poupadas, só nos últimos três anos (desde janeiro de 2017), mais de 78 milhões de folhas de papel A4.

“Este investimento da EDP na digitalização não se aplica apenas a Portugal: também as empresas no Brasil e em Espanha têm reduzido o volume de faturas ao cliente emitidas em papel. Entre 2015 e 2018, em Espanha, o número de faturas eletrónicas aumentou de 27% para 38% , e no Brasil, disparou de 1% para 38% no mesmo período de tempo”, disse a fonte oficial.

Se ao e-mail se juntar o uso do envio de SMS (mensagens) a clientes em vez de cartas, a redução no consumo de papel é ainda maior, ao qual se pode acrescentar ainda outra medida no mesmo sentido: desde 2007 que a EDP passou a disponibilizar por e-mail o recibo de vencimento dos trabalhadores. Só no último ano poupou em cada mês 10 mil folhas de papel e 7 000 envelopes.

A Lusa pediu dados sobre a redução do envio de cartas tradicionais aos clientes por parte de outras entidades, a EPAL (água) e as três operadoras de telefone móvel, mas nenhuma disponibilizou informação, por e-mail, em tempo útil.

Poderão ser números reveladores da penetração do e-mail mas nada comparados com os números globais que as páginas especializadas debitam sobre o envio de “emails”.

Segundo esses números (aproximados) haverá mais de três mil milhões de contas de e-mail, apesar das alternativas de comunicação que existem hoje.

Números de 2017 indicam que em cada dia foram enviados e recebidos 269 mil milhões de e-mails, qualquer coisa como 186 milhões de “emails” por minuto.

O portal de estatísticas Statista indica que esse valor subiu este ano para 293,6 mil milhões e que em 2021 os e-mails diários devem chegar aos 320 mil milhões, e aos 347,3 mil milhões em 2023.

Estatísticas consultadas também pela Lusa indicam que um funcionário de escritório recebe em média entre 120 e 200 e-mails por dia e que passa mais de duas horas às voltas com essas mensagens.

Metade delas é correio não solicitado e algumas até podem conter vírus. Ainda assim, contas feitas, a verdade é que mundo até podia viver sem e-mail, mas não seria a mesma coisa.
 

Papel do e-mail no futuro?

O avanço de tecnologias de mensagens instantâneas como o Whatsapp deu prognóstico de morte anunciada ao e-mail, mas a tecnologia criada em 1969 não só não morre próximos anos como se prevê que cresça.

“Há muito anos que preveem que vai acabar, mas ainda não desapareceu”, reconheceu em declarações à agência Lusa o presidente do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira.

“É difícil fazer futurologia, mesmo com o aparecimento de ferramentas de “messaging” com interfaces mais adequadas, mas o e-mail deverá continuar, mesmo com um papel mais complementar”.

Previsões da indústria apontam para um crescimento pelo menos até 2023 de uma forma de comunicação que teve um impacto global na comunicação remota, com reflexos mais visíveis no correio em papel, jocosamente chamado “correio caracol” pelos entusiastas da Internet que descobriram a possibilidade de comunicar instantaneamente com outros internautas, quer estivessem no outro lado do mundo ou no outro lado da rua.

Segundo o portal alemão de estatísticas ‘online’ Statista em 2018 havia cerca 3,8 mil milhões de pessoas a usar o correio eletrónico, que serviu nesse ano para mandar cerca de 281 mil milhões de mensagens por dia.

Na previsão do Statista, em 2023, o número de utilizadores deverá subir para 4,4 mil milhões e a quantidade de mensagens enviadas por dia poderá atingir 347 mil milhões.

Em 2018, 43% dos utilizadores de email consultavam as suas mensagens num telemóvel, 39% em serviços ‘online’ e só 18% baseavam o seu correio eletrónico numa conta localizada no computador pessoal.

Num artigo publicado em 2015 na revista de economia norte-americana Inc., chamava-se ao e-mail “um buraco negro”, enumerando problemas como a falta de respostas ou a circunstância em que uma troca de mensagens com “vários assuntos e várias pessoas” se torna algo “de que ninguém consegue fazer sentido”.

Isso, sem contar com o ‘spam’, que vai das mensagens publicitárias e promocionais às que propagam vírus e outro ‘software’ nocivo, e que em março deste ano constituía 56% de todo o e-mail enviado no mundo, um número que tem vindo a descer ano a ano.

Arlindo Oliveira aponta este tipo de mensagens indesejadas como “uma inevitabilidade”, embora já haja “tecnologia para mudar isso, só que ainda não foi implementada, porque se torna mais exigente na autenticação”, além de ter implicações na liberdade das comunicações.

“É difícil gerir a qualidade do que se recebe no e-mail, mas a verdade é que isso também se tem visto nos serviços de ‘messaging’”, assinalou.

Já em 2010, publicações como a revista Atlantic ou o New York Times dedicavam atenção à maneira como as gerações mais jovens se desligavam do e-mail em favor de serviços de mensagens instantâneas emergentes como o serviço de conversação da rede social Facebook.

“Ter uma conta de e-mail em 2010 é sinal de que se é um ‘bota de elástico’, o tipo de pessoa que ainda vê filmes em VHS, ouve discos de vinil e tira fotografias com rolo”, ilustrava o New York Times.

O crescimento das redes sociais como o Facebook, Instagram ou das aplicações de mensagens como o Whatsapp, a disseminação dos ‘smartphones’ manifesta-se hoje nas mais de 41 milhões de mensagens enviadas por dispositivos móveis por minuto, como regista o Statista.

O Whatsapp é o mais popular, com uma estimativa de 1,6 mil milhões de utilizadores em todo o mundo, seguido do Messenger do Facebook e das aplicações chinesas QQ e WeChat.

De aplicações que permitiam mandar mensagens de graça – evitando os custos dos SMS – passaram a incluir cada vez mais funções, incluindo imagens e vídeo.

“O e-mail poderá ter um papel mais reduzido, reservado para uma comunicação ponto a ponto, mais profissional”, sugeriu Arlindo Oliveira.

“O e-mail está morto. Saiba porquê”, “O e-mail tem os dias contados”, “O e-mail vai estar obsoleto em 2020” são títulos da última década que enxameiam as páginas de jornais de referência ou revistas da especialidade, mas neste momento, o mais adequado talvez seja o de um artigo da revista Forbes em junho deste ano: “É capaz de ser altura de parar de anunciar a morte do e-mail”.

Na página internetlivestats.com, que rastreia em tempo real os números da utilização da Internet, o contador de emails enviados só este ano tem 76 biliões de provas de que as caixas de entrada não terão descanso tão cedo, à razão de mais de um milhão por segundo.
 

  • Partilhar

Caso tenha algum comentário a fazer:

Back to Top