Amália morreu há 20 anos

Camané, Mariza, Carminho, Aldina Duarte, Raquel Tavares e Ricardo Ribeiro recordam-nos a importância do seu legado.

Gonçalo Palma
06 outubro 2019, 07:00

6 de outubro de 1999. Mal tinha passado um ano sobre a Expo '98. Guterres era o primeiro-ministro e estava quase a iniciar o seu segundo mandato. Jorge Sampaio era o Presidente da República. E os portugueses tinham ido para a rua de roupas brancas no mês anterior, em solidariedade com o massacrado povo de Timor-Leste que tinha votado no referendo pela independência. Mas voltemos a 6 de outubro. Era quarta-feira, a semana já ia a meio, o dia também, quando irrompe a pesada notícia da morte de Amália Rodrigues, ocorrida há 20 anos

Falámos com Camané, Mariza, Carminho, Ricardo Ribeiro, Raquel Tavares e Aldina Duarte, a propósito desta data. Amalianos ou não, todos reconhecem que o fado nunca mais voltou a ser o mesmo com a passagem terrena deste enorme vulto.

Camané conheceu Amália Rodrigues quanto tinha dez anos, numa casa de fados em Cascais, durante uma festa de homenagem a Alfredo Marceneiro. Não teve vergonha de falar com a Amália e há uma foto com esse encontro. Sempre que sabia que atuava com Amália na assistência, ficava com "a voz embargada" por ter na assistência “a pessoa que mais admirava”. Amália foi a madrinha que abençoou o arranque da sua discografia´, com "Uma Noite de Fados", de 1995. "Foi a Amália que teve muita influência no meu primeiro disco na EMI. Ela é que falou com o [editor] David Ferreira numa noite de Natal, a dizer que me deviam contratar. Passados seis ou sete dias, eu assinava o meu primeiro contrato com a EMI”. Camané ainda viu muitas vezes Amália ao vivo, incluindo em algumas ocasiões históricas no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, uma sala que demorou tempo a tê-la em palco. “A primeira vez que a vi a cantar no Coliseu foi em 1977, na Grande Noite do Fado, em que foi convidada para cantar. Só que ninguém sabia que ia cantar 17 fados. Ninguém estava à espera que cantasse tanto tempo. Foi uma coisa espetacular. Normalmente, cada um cantava um fado. A Amália cantou 17. Foi uma coisa fenomenal, ela estava ótima a cantar. Quando começou, notava-se que a voz não tinha aquecido, mas cada vez cantava melhor à medida que o tempo foi passando”.


Os 20 anos da morte da Amália são quase mesmos que a carreira de Mariza, que canta fados desde os cinco anos, mas que arrancou o seu percurso público há praticamente duas décadas, numa caminhada internacional que só tem paralelo em... Amália. Mariza descobriu a Amália tarde, quando tinha 16 anos, ao ouvir 'Barco Negro', um dos temas ligados à Rainha do Fado que mais cantou. Para Mariza, Amália iniciou uma nova era. "No tango existe antes Piazzolla e depois de Piazzolla, no flamenco existe antes de Paco de Lucía e depois de Paco de Lucía, no fado existe antes de Amália e depois de Amália". Em 1999, o fado perdia a sua maior embaixadora mas tem estado bem avivado, tal como enquadra Mariza. "20 anos depois, existe um Museu do Fado em Lisboa. 20 anos depois, o fado é Património Imaterial da Humanidade. 20 anos depois a guitarra portuguesa é Património Material da Humanidade pela UNESCO. 20 anos depois temos o fado a percorrer o mercado internacional. 20 anos depois temos toda uma geração que tenta estudar, preservar, cuidar, cantar. Acho que 20 anos depois o fado está de boa saúde e recomenda-se e a Amália ficaria muito orgulhosa”.

 


Carminho cantou para Amália quando ainda era criança, na casa de fados dos seus pais. "Foi aterrador esse momento, eu era ainda muito nova, tinha 12 anos. Mas recebeu-me lindamente, foi super-carinhosa comigo, deu-me um autógrafo. Foi uma presença que jamais esquecerei". Para Carminho, "ela era Portugal", numa "ausência de preconceito" que a levou a ser simultaneamente uma "mulher cosmopolita" e "quem mais respeitava a cultura portuguesa".

 

 

Aldina Duarte só aprofundou a sua paixão por Amália em vida adulta, tendo sido mais marcada pessoalmente por outros fadistas como Carlos do Carmo, Beatriz da Conceição ou Camané. Tal como Amália, cantou 'Anjo Inútil', mas usando outra melodia para as mesmas duas quadras. Para Aldina Duarte, "a Amália está para o fado como o Picasso está para a pintura. Entrou numa arte muito antiga que, depois dela, nunca mais foi igual".

 

 

Raquel Tavares não foi "a tipica miúda" que começou a ouvir fado por causa de Amália. A cantora de Alfama assume que não é amaliana, apesar de estar hoje pacificada com a sua memória. Raquel Tavares cresceu no fado amador, foi "lecionada por outros fadistas" da velha guarda e aprendeu cedo "que havia fado além da Amália". Raquel Tavares canta há 28 anos mas foi só quando fez do fado a sua carreira de artista passou a dar mais valor a Amália. "Foi a maior manager de si mesma. Foi uma artista de grande inteligência de mercado, sobre o que era mais preciso, de como furar, de como ser vista, de como se rodear dos melhores, de como interpretar os melhores”, acrescentando que “era um animal de palco”. De Amália, recomenda, entre outras coisas, as marchas. “Ninguém canta as marchas como a dona Amália. Ela tem um disco só de marchas populares, dos bairros todos de Lisboa, e a alegria na voz dela era contagiante. Ela era Lisboa, ela transpirava Lisboa”.

 

 

Ao contrário de Raquel Tavares, Ricardo Ribeiro assume-se como um “amaliano”. "A Amália faz distinguir muito bem o que é nascer com e nascer para. A Amália nasceu com, não nasceu para". Mais importante que inovar, para Ricardo Ribeiro "a Amália criou, e uma das coisas que criou mais importantes e sentidas foi a linguagem amaliana. A Amália deixou plasmada no mundo a sua palavra sagrada que é a sua criação".