Daniel Johnston (1961-2019): um génio fora da escala

Qualquer coisa de Brian Wilson brilhava dentro dele. Nunca coube dentro das convenções.

12 de setembro de 2019 às 10:51Daniel Johnston (1961-2019): um génio fora da escala

A noite de ontem estremeceu com amargura com a notícia da morte de Daniel Johnston, com 58 anos, na sua casa, em Waller, Texas. Ele foi um anti-herói indie, de uma imaginação fértil, com uma facilidade tamanha de produção, que sobrecarregava o quarto de ilustrações e de cassetes das numerosas canções que Daniel Johnston gravava.

Essa imensa produção artística não era apenas fruto dos seus distúrbios psíquicos relacionados com bipolaridade e esquizofrenia. Era porque Daniel Johnston tinha um dom de génio que não cabia nas convenções.

Para Johnston, produção em série de cassetes significava gravar as canções mais uma e outra vez, e não simplesmente copiá-las como as pessoas normais faziam. E contentou-se apenas com uma musa, uma bibliotecária chamada Laurie Allen, que inspirou grande parte das suas músicas.

As gravações eram rudimentares, tão domésticas que se ouve a mãe a ralhar com o filho, nos interlúdios. As capas eram os seus desenhos, que se tornaram conhecidos numa t-shirt do fã Kurt Cobain, com umas das espécies monstruosas saídas da cabeça de Daniel Johnston e o cumprimento "Hi, How Are You" - a capa e o título de uma das muitas cassetes dos anos 80 do recém-falecido cantor.

 

Foi idolatrado e mesmo cortejado por outros músicos, como os Sonic Youth, através dos quais apareceu no circuito ao vivo de dimensão nacional, nos Estados Unidos. A companhia dos Butthole Surfers em estrada não lhe fez tão bem, quando alguém lhe passou um ácido que despoletou todos os seus problemas psíquicos. O jovem romântico tornou-se uma fera ameaçadora e perigosamente errática, chegando ao ponto de desligar a ignição da avioneta pilotada pelo pai em pleno voo, quando não havia nenhum terreno plano para uma aterragem de emergência. Salvaram-se as vidas do pai Bill e de Daniel Johnston mas não o do aparelho, todo destruído, tudo por causa de uma alucinação do músico que se achou possuído pela personagem de Casper the Friendly Ghost, a quem tinha dedicado algumas das suas mais famosas músicas.

O monstro criativo do quarto apequenou-se quando convertido às obrigações normais de outros músicos, quando lhe arranjaram uma banda para os seus concertos ou quando lhe arrumaram uma série de arranjos e orquestrações, numa produção toda profissional, em "Fear Yourself". O ser frágil, apaparicado em regime de babysitting por uma banda no Parque da Cidade, no Porto, na edição 2013 do NOS Primavera Sound, parecia longe do seu habitat doméstico onde era gigante.

 

Quando o entrevistei em 2003, era o pai Bill que tinha passado a assumir a gestão de carreira de Daniel Johnston. Foi o pai Bill que me atendeu o telefone e que me passou para o filho, numa conversa onde o músico achava que o diabo lhe estava a tramar alguma, numa altura em que os grandes festivais europeus o aguardavam e o sucesso parecia sorrir-lhe. Mas para Daniel Johnston, não era o sucesso que lhe estava a sorrir, mas sim o demónio. Foi uma conversa de quase meia-hora demasiado intensa para ser passada a escrito apenas de memória. E eu precisava dessa memória porque tinha reparado praticamente no final da entrevista que o auricular que registava a chamada estava desligado do gravador. Ainda hoje não me perdoo.

Um dos melhores rockumentários de sempre é sobre ele, "The Devil and Daniel Johnston", um biopic de vida real que compila as filmagens do próprio músico. O homem que desenhava e tocava sem parar, também filmava. Daniel Johnston respirava a criar. Esse documentário diz muito sobre a personalidade do artista, o homem fã de Beatles que só com mais de 40 anos descobre, por indicação dos seus colegas de banda, que havia uma banda chamada Beach Boys que ele era capaz de gostar. De repente, Daniel Johnston  passava a conhecer a sua alma gémea, uma alma de génio: Brian Wilson, o compositor principal dos Beach Boys. Daniel Johnston tinha qualquer coisa de Brian Wilson dentro dele.

Artigo de opinião.    


 

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