Kodaline: o regresso emotivo à beira do Douro

A 13ª edição do MEO Marés Vivas arrancou hoje na Antiga Seca do Bacalhau, em Vila Nova de Gaia. Os Kodaline e os Keane voltaram ao Douro para matar saudades. Mishlawi e Os Quatro e Meia aqueceram a tarde nublada no recinto.

Rúben Viegas
20 de julho de 2019 às 02:41Kodaline: o regresso emotivo à beira do Douro

 

Há qualquer coisa nos Kodaline que remexe os corações. Talvez seja a delicadeza com que Steve Garrigan trata as canções no palco, muitas vezes de mão ao peito quando não está entretido com um dos muitos instrumentos que domina. Vai na volta são os coros emocionados do público que enchem ainda mais as canções. Parece que há sempre uma urgência em acompanhá-los também de mão ao peito. É coisa para mexer connosco, sim. 

Os gritos entusiastas no recinto sinalizaram a entrada do grupo irlandês num palco simples, pensado ao pormenor para criar uma atmosfera, em cada uma das canções, que tinha tanto de íntima como de solene. O grupo de Dublin não precisa de grandes ostentações cénicas. Cada canção vive num ambiente próprio e a passagem entre cada uma é delicada, como se cada tema precisasse de assentar para respirar com relativa demora antes de começar a crescer. 

Olhando da relva para Steve Garrigan, Mark Prendergast, Jason Boland e Vinny May temos a sensação de que podíamos ter andado com eles no liceu. É fácil imaginar uma saída com os quatro ou até passar uma tarde descontraída algures de viola numa mão, bandolim noutra, a ver o sol a descer devagar. Já que estamos aqui até podia ser aos pés do Douro. 

Uma ode refinada ao core das emoções foi que o sentimos esta noite, enquanto os Kodaline iam passando de canção em canção, revisitando os vários discos que já conseguem arrumar na bagagem. Com os Kodaline, sabemos que temos de acionar o alerta vermelho no que toca desarrumo de emoções.

'Follow Your Fire', 'Brand New Day' e 'Ready' foram as primeiras do alinhamento, com o mais recente disco "Politics of Living" a ter as honras de abertura. Ao longo do concerto, Steve Garrigan foi saltitando de instrumento em instrumento (da guitarra ao bandolim ou do piano à harmónica). Quando demos por nós, já estava debruçado nas teclas para a melódica 'Honest', ficando no mesmo sítio para cantar 'Brother', a balada fraternal que cresce no refrão para um lugar de aconchego.

'The One', que confessou ter sido feita como presente de casamento para um amigo, foi tocada com um Garrigan emocionado a dedilhar a guitarra acústica. O momento intimista provocou uma autêntica maré viva de lanternas no ar a acompanhá-lo. O rapaz já tinha avisado que ia ser um momento romântico. E foi. Já com o vocalista no bandolim, ouviu-se 'Love Like This' do disco "In a Perfect World". O rodopio folk meteu toda a gente a dançar. A noite era de contemplação das emoções, mas também de festa.

Pelo meio do concerto ouviram-se duas versões. A primeira passou mais ao lado do público do que a segunda. 'Wicked Game' de Chris Isaak foi bem acolhida, mas não provocou uma onda de comoção como 'Chasing Cars' dos Snow Patrol que os Kodaline substituíram à última hora no Palco MEO. A gentileza do gesto dos irlandeses provocou sorrisos em série e uma comunhão de vozes de arrepiar a espinha. O momento de homenagem aos amigos Snow Patrol foi decorada com as lanternas dos telemóveis no ar que formaram um segundo céu, este cheio de estrelas. O momento abriu caminho para um final à altura do afeto e da entrega que existe entre os Kodaline e o público português. A beleza magoada de All I Want, que deu ordem de soltura às lágrimas na frente de palco, e os papelinhos coloridos de High Hopes ficaram bem guardadas para o fim. 


Antes dos Kodaline, o Palco MEO foi chão para o regresso dos Keane que chegaram a Vila Nova de Gaia com um disco novo bem arrumado na mala. Deram-lhe o nome de "Cause and Effect". Dez anos depois de terem passado pelo festival nortenho, podemos dizer que o regresso da banda britânica ao MEO Marés Vivas assinala mais do que um simples regresso a um lugar no mundo. Simboliza o renascer dos Keane esta noite com vista para o Douro

Muitos terão chegado a pensar que já não seria possível ver a banda de Tom Chaplin ao vivo mas foi. Tendo em conta que os Keane estiveram à beira da separação, deu gosto vê-los em cima do palco, de volta à estrada e com um álbum ainda por estrear. Foram seis anos de silêncio, estava na altura de ligar as colunas. Pela forma calorosa como foram acolhidos, percebeu-se porque é que público português teria de estar na rota desta digressão. Houve uma troca genuína de afetos, entre a banda e a plateia, desdobrada em vários momentos. O vocalista britânico, sempre bem-disposto, chegou a hastear a bandeira portuguesa no microfone, tendo dito, em jeito de brincadeira, que ainda teve de espreitar outra vez para ver se não era a bandeira espanhola. 

'Bend and Break' foi o primeiro êxito a ser tocado. 'Alright', disse Chaplin antes de se atirar a mais uma volta no refrão. Ainda agora o concerto tinha começado e já havia flores no palco mandadas por alguém do público.

'Silenced by the Night' e 'On the Road' empolou as memórias do disco "Strangeland" (o último antes da "separação"), mas também houve tempo para resgatar as emoções antigas de temas como 'We Might As Well Be Strangers', 'Bedshaped' ou 'Is It Any Wonder'. Com entusiasmo de recém regressados aos palcos e aos discos, os Keane arriscaram alguns temas novos do novo álbum. 'The Way I Feel', 'Love To Much' e 'Chase The Night Away' passaram pelos pingos da chuva, bem entrelaçados com as canções que toda a gente sabia de cor. 'Somewhere Only We Know' e 'Everybody's Changing' foram os pontos mais altos de um concerto que comoveu a banda britânica. Tom Chaplin agradeceu "mil e uma vezes" pela forma como foram recebidos a norte e elogiou alguns encantos da cidade. "A cada um de vocês, obrigada. Por cantarem do coração, por nos receberem tão bem no Porto", disse.


O anoitecer na Antiga Seca do Bacalhau foi em português com Os Quatro e Meia. A música popular portuguesa dos doutores e engenheiros animou o recinto do festival de Vila Nova de Gaia com temas como 'Não Respondo Por Mim', 'O Tempo Vai Esperar', 'Sabes Bem', 'Sentir o Sol', 'A Terra Gira' e 'Pra Frente é Que é Lisboa'. Foi uma autêntica festa académica... de instrumentos de boa disposição. As vozes envolventes de Mário Ferreira e Ricardo Liz Almeida também passaram com distinção no difícil exame de conseguir manter o público na mão.

Já sabíamos que Mishlawi ia ter coros de serviço para acompanhá-lo nas canções que levou ao MEO Marés Vivas. Norte-americano de origem, do Arizona, e a viver em Portugal desde os dez anos, o rapper tem chegado a multidões daqui à Rússia. Sim, Rússia. Mishlawi é popular por aquelas bandas e, pelo que vimos hoje, também conquistou a Invicta num final de tarde nublado e bem frescote.

A mistura entre o hip-hop, R&B e trap abriu o Palco MEO com Mishlawi a entrar em cena com o passo corrido, de boné vermelho e sorriso aberto. Uma mão cheia de músicos (baixo, guitarra, teclas, bateria e sintetizadores) acompanhou-o na missão de aquecer o público que começava a ocupar a relva em frente ao palco principal. No final, o músico, que ia comunicando ora em português ora em inglês, deixou a promessa de que  "vai ficar a viver na 'Tuga" e assim dissipar as dúvidas da terra onde pertence Mishlawi passou pelos vários temas que já soma na bagagem. Uber Driver, All Night e Ignore não faltaram no primeiro alinhamento a ser tocado este ano no palco principal.
 

 

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