NOS Alive: uma deusa chamada Grace Jones

Cabeças-de-cartaz Vampire Weekend anunciaram regresso a Lisboa, com concerto a 26 de novembro, no Coliseu dos Recreios.

13 de julho de 2019 às 04:19NOS Alive: uma deusa chamada Grace Jones

Grace Jones deu um espetáculo colossal no Palco Sagres, no NOS Alive. Naquele recheio de pormenores visuais, a figura fortíssima da cantora parecia a de uma robótica exterminadora implacável sem idade, que consegue neutralizar o envelhecimento, com uma forma física e uma voz que não parecem a de uma cantora de mais 70 anos.  
 
A artista jamaicana hipnotiza tanto o nosso olhar que nos esquecemos da sua enorme banda de sete músicos, incluindo o coro de duas cantoras. Tudo é feito à grande e à Grace Jones. 

Coisa se calhar nunca vista naquele palco secundário, uma cortina preta escondia o palco e aumentava o suspense sobre o concerto. Tudo começa com 'Nightclubbing' (de Iggy Pop), com Grace Jones a aparecer lá do alto, em cima de um varandim, com a máscara de um esqueleto que depois eleva acima da testa, vendo-se os seus óculos escuros e as suas pinturas faciais tribais. 
 
Em quase todos os finais de músicas, a cantora recolhe ao camarim, colado ao palco. Enquanto é vestida longe da nossa vista, continua a falar com o público. Muda de roupa com a rapidez com que uma equipa de mecânicos muda de pneus a uma bólide de fórmula 1. A maquilhagem e o guarda-roupa são atividades fundamentais na entourage da cantora. 
 
Já com outra máscara e outro vestido, canta 'Private Life' dos Pretenders, em outra apropriação legítima e bem personalizada de Grace Jones - "Your marriage is a tragedy/but it's not my concern/I'm very superficial/I hate everything oficial". Em 'Warm Leatherette', e com um lenço na cabeça que parecia um capacete de soldado medieval, usa a sua autoridade natural ao gesticular com as baquetas, entre dois pratos de bateria, ao ordenar o público a cantar "Leatherette" enquanto Grace Jones canta "Warm". 
  
No tema nº5 da noite, 'My Jamaican Guy', é tempo de voltar ao varandim onde as ventoinhas levantam a sua capa no ar, com as cores (amarela, preta e verde) da bandeira jamaicana, enquanto leva o reggae para a danceteria de Nova Iorque. "A discoteca é a minha igreja”, anuncia Grace Jones, vestida agora de forma mais feminina, com uma grande saia e um chapéu colorido que parece uma armação de arames, quando canta 'Williams' Blood'. No clássico 'Amazing Grace', está mesmo na verdadeira igreja, num gospel que é um raio x à sua saúde vocal que, revela o exame, está ótima. Já tínhamos percebido. 
 
Nos minutos de 'Love is the Drug' - uma versão de rock mais musculado que o original dos Roxy Music - o chapéu brilhante parece uma bola de espelhos que leva com um foco de luz que provoca efeitos luminosos faiscantes. Já quase no final, em 'Pull Up to the Bumper', aparece finalmente um concorrente à sua ribalta: um dançarino, ou melhor um ginasta, de varão, nu, musculado, de pinturas tribais, a fazer os seus números acrobáticos perante uma Grace Jones embevecida que mostra a sua meiguice quando lhe mima com uma festa com o seu pompom, dizendo: "quem me dera eu conseguir fazer isso". 

Além de forte e imponente, é simpática ao cumprimentar um a um cada espectador da fila da frente. Em oito minutos de 'Slave to The Rhythm', Grace Jones mostra as suas forças de deusa, quando a sua voz aguenta o hula hoop, numa imagem forte, a cantar sobre um palanque enquanto gira à volta da sua cintura um arco. Que concerto memorável.

Se a estrela da noite foi Grace Jones, os cabeças-de-cartaz foram os norte-americanos Vampire Weekend de quem foi guardada uma boa notícia para depois do concerto: a banda de Ezra Koenig regressa já este ano a Portugal, com concerto agendado para 26 de novembro, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Nesta noite, os Vampire Weekend provaram estaleca para ocuparem o palco maior do Alive, com uma banda já de sete elementos, onde os efetivos (três) são já uma minoria. Liderados por um cantor de ar atinado e de miúdo imberbe como é o guitarrista Ezra Koenig, cruzaram bem os vários temas dos seus quatro álbuns, sem uma predileção por nenhum em particular, nem mesmo o último (lançado este ano) "Father of the Bride".

Um concerto de Vampire Weekend já não é apenas o cumprimento formal das canções. Há mais experimentação, mais jazz, mais desvios à geometria pop. O guitarrista de apoio Brian Robert Jones é o que dá mais azo a essa veia de desordem. Há uma maior desarrumação e um maior espaçamento. E as novas canções são desassossegadas, o que prova que a criatividade do grupo está longe de ter arrefecido. Mas o single mais recente 'This Life' é um sinal em 2019 de que os Vampire Weekend ainda não se esqueceram de fazer uma bela e simples canção pop. 

Horas antes, o Palco NOS esteve entregue a lendas do rock & roll dos anos 80 e 90, como os Primal Scream e Perry Farrell (vocalista emblemático dos Jane’s Addiction e dos Porno for Pyros). Os Primal Scream continuam a ter um performer à antiga como Bobby Gillespie que vem mesmo pronto para a festa. De figura magra impecável e fato rosa, nunca parou de bater palmas e de apontar à multidão, sempre a dançar com pinta. A cultura do álcool e dos ácidos foi o combustível para a grande velocidade da banda, seja no garage-rock de 'Can't Go Back' , na eletrónica de 'Miss Lucifer', ou sobretudo na road song 'Kowalski', inspirada no road movie "Vanishing Point" da era pré-radares. Quando subitamente acalmam e desaceleram, pressente-se a sensação de aurora no céu, como na trip mais contemplativa de 'Higher Than the Sun'. O quase-instrumental 'Loaded'  persiste ao fim destes anos todos como a banda sonora da noite mais longa das nossas vidas, que foi tocado antes do arrebatamento rock & roll de tributo aos Rolling Stones nos originais 'Country Girl' (a que Bobby Gillespie chamou de 'Lesbian Girl') e 'Rocks' com que os Primal Scream fecharam a atuação. 

Tal como nas capas dos discos dos Roxy Music, vêem-se sempre mulheres provocantes nos concertos que tenham como protagonista principal Perry Pharrell, que tal como se tinha visto há uns anos neste mesmo palco com os Jane’s Addiction, ou nesta tarde em seu nome individual, mas selado com a designação de Perry Farrell's K.H.O. Mas Perry Pharrell é menos aristocrático que Bryan Ferry, tem mais a cultura de rua e de Red Light District. A sua parceira vocal e, lá atrás, a mulher dos coros têm em comum grandes decotes que deixam bem esclarecida a envergadura dos seus peitos generosos. À medida que o concerto progride, as temperaturas vão aquecendo e os apetrechos de vestuário vão sendo despedidos. Muito se roçaram. Roçaram-se em todos os músicos em palco. Este cenário burlesco com danças muito sensuais tem como hipérbole o tema Spend the Body, tão entregue ao sexo como a obra do artista plástico Robert Mapplethorpe, onde o membro masculino dos coros toma conta do centro do palco com um número explosivo e afeminado. O dono deste circo de músicos em palco é o sempre sorridente e simpático Perry Pharrell, com chapéu de dançarino de flamenco e um colete. Ele continua uma figura excessiva e muito magra, que exibe a garrafa de vinho da praxe. Os seus picos vocais continuam reconhecíveis, sobretudo quando foi pescar ao reportório dos Jane’s Addiction e dos Porno for Pyros (as suas duas grandes bandas), mesmo em versões esventradas como 'Jane's Says'.

O grande palco coberto do Alive, desde o ano passado com o nome de Sagres, mantém o histórico de grandes enchentes. Desta vez, a felizarda com tanta massa humana diante, com muita gente de fora do espaço, foi a jovem australiana de gorro Tash Sultana. Ela não esteve sozinha em palco. Contou com um amigo invisível que são as programações que ondulam automaticamente e mandam na desenvoltura nas canções, enquanto a jovem do gorro vai saltitando de instrumento em instrumento - teclados, guitarra elétrica, bateria digital ou o trompete - sem mostrar uma especial perícia, mas sempre tendo um apoio entusiástico da multidão em tudo o que fazia. Esperava-se pelo menos um maior tapete de samplagem ao vivo, com a habitual soma de gravações de pequenas instrumentações, mas nem isso se viu muito.

De referir que o proclamado "secret show" do Palco Coreto coube a um dos nomes do cartaz, Márcia, que numa intimidade a sós com a guitarra elétrica, interpretou os vários temas do seu último álbum "Vai e Vem", a deixar bem transparente o quão boas são as canções. Não esteve assim tão sozinha. Soube recrutar o público para a missão percussiva das palmas.


 

 
 

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