The Cure: os mortos-vivaços do Alive

Concerto surpreendentemente de arromba da banda de Robert Smith.

12 de julho de 2019 às 04:19The Cure: os mortos-vivaços do Alive

O Palco NOS do Alive fechou esta noite sob o signo do paraíso lúgubre dos Cure, num concerto deliberadamente virado para o passado da banda, sem quaisquer temas mais recentes.
 
Robert Smith, com esta formação, deu uma volta às músicas. As canções arrebitaram, estão mais vivas, fugindo ao destino bafiento e decadente a que pareciam destinadas há décadas. Robert Smith não deixou morrer as suas velhas músicas. Elas são antigas mas não estão velhas. Definitivamente, não estão velhas em 2019, no Alive. 
 
A presença de Robert Smith está mais imponente e a voz está mais pujante. O homem da grande cabeça mantém aquela palidez maquilhada e uns olhos que estão tão densamente pintados que parecem duas manchas abaixo da testa. Os Cure são mortos-vivos. Pareciam mortos, agora estão bem vivos. 
 
Os Cure são atualmente cinco em palco. O guitarrista Reeves Gabrels é o que tem o ar mais velhinho, ou o que menos esconde a idade, com a sua careca e o seu cabelo grisalho. O histórico baixista Simon Gallup não pára quieto no palco, sempre a percorrê-lo desenfreadamente. 
 
O encadeamento das canções é fortíssimo: arranque com Shake Dog Shake, e continuação com Burn (composto para o filme "The Crow"), Fascination Street, Never Enough, In Between Days ou Just Like Heaven.  

O público canta, com o recato que a música dos Cure pede, em todos os temas da banda, mesmo os mais rebuscados. Muitos espetadores das filas da frente vão aparecendo nos ecrãs laterais. No olhar profundo de cada  fã, sobretudo os mais veteranos, estão as emoções de toda uma vida. Há uma mulher que é filmada a chorar em Pictures of You: esse é o retrato da monumentalidade atmosférica da canção. 
 
Lovesong continua um mimo, pincelado tão delicadamente pelos teclados. A Night Like This é de uma nostalgia longínqua que parece ter um contrato vitalício com a beleza. Em Play for Today, os teclados enigmáticos e etéreos tomam conta do cenário. 'A Forest' é um bosque medonho que esfuma fascínio. O monstro Robert Smith desvia-se ainda um pouco mais neste emaranhado elevando a voz, acima do padrão soturno. É a bela canção e o (seu) monstro, com um baixo pesadão e teimoso na sua linha. 
Primary merece também uma outra versão abananada a que esta formação tirou a poeira. 
 
Muitas das grandes fichas estavam guardadas para o encore. Em Lullaby, aparecem as tais teias com aranhas no ecrã maior. Na versão sem batucada de Caterpillar, Robert Smith ainda parede um miúdo a arranhar a guitarra elétrica para ver o que dá. Walk é synthpop apressado. Mal se reconhecem os primeiros acordes de Friday I'm in Love, há todo um movimento migratório dentro do recinto. Os mortos-vivos afinal estavam também nas margens da arena. Quem estava sentado levantou-se, vários outros começaram mesmo a correr, a namorada ergue-se às cavalitas, todos saltitam, na música dos Cure mais fácil de cantar. 
 
O concerto de mais de duas horas finaliza com Boys Don’t Cry, três minutos em que os Cure voltam a ser a banda de garagem dos primórdios que descobriu aquela melodia inocente e orelhuda. 

Antes de Boys Don’t Cry, Robert Smith mostra uma extroversão que não vinha descrita nas suas biografias. É tal a alegria do momento de Close to Me, que pouco interessa se a voz de Robert Smith some um pouco, enquanto caminha pelo palco, num passeio continuado em Why Can't I Be You?, onde faz uma partida ao teclista Roger O'Donnell, fazendo-lhe cócegas. Robert Smith estava mais feliz e solto que nunca. 
 
 
 

   

 

 


 

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