The Roots: o poder da alma que veio de Filadélfia

A celebração das possibilidades infinitas da música a céu aberto marcou a noite de hoje no EDP Cool Jazz. Os Roots levaram alma, groove e experiência ao Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais.

Rúben Viegas
10 de julho de 2019 às 03:29The Roots: o poder da alma que veio de Filadélfia

 

A 16ª edição do EDP Cool Jazz recebeu esta noite o groove experiente da banda oriunda da Filadélfia, os veteranos The Roots

Depois do cancelamento do concerto dos portugueses HMB (que de acordo com a organização prendeu-se com questões técnicas) o Hipódromo Manuel Possolo foi casa para a celebração da amplitude libertadora da música, uma proeza ao alcance de alguns e reconhecida por muitos. O recinto encheu para receber o coletivo norte-americano. Todos entraram a bordo de uma viagem sónica pelos mundos e submundos dos ritmos da música negra. Os Roots são claramente uma banda de palco, tratam uma série de instrumentos por tu e gostam de ostentar, com orgulho, o nome que têm: as raízes.   

A banda residente do "Late Night" de Jimmy Fallon não é uma presença habitual no velho continente. Tem sido esquiva à Europa, mas, como é certo e sabido, tem traquejo e trabalho comprovado para ser uma banda com estatuto de culto em qualquer parte do mundo. Também o é por aqui e os que a seguem não faltaram ao encontro

Sete anos depois do último concerto em Portugal, o coletivo liderado por Questlove (bateria) e Tariq "Black Thought" Trotter (MC) chegou para mostrar como se faz.  Não é à toa que os Roots têm inspirado bandas em série em todo o mundo.

A instituição do hip-hop alternativo norte-americano foi recebida e aclamada, acima de tudo, com aplausos honestos de reconhecimento. E se escrevemos hip-hop, temos de fazer a ressalva que o som do coletivo norte-americano é demasiado vasto e abrangente para ser reduzido a uma eventual intransigência dos rótulos. Hip-hop, soul, jazz, funk, eletrónica até aos solos de guitarra a exaltar a selvajaria do rock n' roll, os Roots são tudo isto. Inquietos na criatividade e com atrevimento para sair da zona de conforto, estamos em crer que até já merecem ser um género: o género The Roots. 

"Black Thought", com a inscrição "Reigning Champ" nas costas foi um mestre de cerimónias mais do que pronto para honrar qualquer título de campeão ou rei. Foi o homem das palavras que "ordenou" um alinhamento emaranhado de versões, samplers, autênticos tesouros da arca discográfica do grupo e até um medley de hip-hop a soar a homenagem. Foi a voz de um poder que não se explica, mas, ao que parece, vem da alma. Não terá sido ao acaso que "Soul power. Power to the people" foram as palavras que todos gritaram no fim do concerto, seguindo as "ordens" do "pregador" de serviço

Só a antecipação da entrada dos músicos em palco teve força suficiente para pôr-nos em sentido, expectantes, a aguardar pela festa de instrumentos com executantes de alto gabarito. Afinal de contas, os Roots são uma história da América que merece ser contada com ritmo e entusiasmo. Sabíamos que iria ser uma noite de proezas instrumentais e de rap à séria. E foi. Bateria, saxofone, teclas, baixo, guitarra, tuba, flauta transversal e até uma modernice chamada "finger-drumming", nada faltou. 

No alinhamento houve uma mão cheia de versões, como 'Lookin' at the Front Door' (Main Sorce), 'Dance Girl' (Rimshots), 'Rock Creek Park' (Blackbyrds), 'In the Jungle Groove' (James Brown) e até um medley que passou, com o passo acelerado, por diversos momentos da linhagem do hip-hop sem grande tempo de intervalo para qualquer tentativa de respiração.

O que foi também de tirar o fôlego a qualquer um, menos ao homem da guitarra, Captain Kirk Douglas, foi a passagem épica pelo icónico 'You Got Me' do revolucionário "Things Fall Apart" - disco que este ano celebra 20 anos e que meteu os Roots na rota da mescla musical que são hoje. Aqui, perdoem-nos os outros músicos, sobretudo o virtuoso Damon "Tuba Gooding Jr." Bryson que carregou aos saltos uma tuba durante a noite toda, mas temos de dizer: Oh Captain! My Captain! Kirk Douglas levou-nos na viagem pelos seus impressionantes improvisos vocais e brindou-nos com um solo de guitarra que foi de Cascais aos céus a lembrar os mais afortunados concertos de rock n' roll. Claro que para o momento estava guardada uma das maiores ovações da noite.

'The Seed 2.0' foi outro momento digno de nota ( não fosse este um dos temas que andou pelas rádios do mundo inteiro) e 'Move On Up' rematou a noite em jeito de celebração. A coreografia do coletivo norte-americano lembrou a dança da vitória. Faz sentido, houve festa em Cascais. 

Veja aqui as imagens captadas pelo nosso repórter de imagem, Rúben Viegas:
 

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