João Gilberto: o homem do mar do Rio

Contra ventos e marés, jamais largou a bossa nova de que foi pioneiro.

07 de julho de 2019 às 08:00João Gilberto: o homem do mar do Rio

Calou-se a voz sussurrada e tão gentil de João Gilberto. Aliás, a história da música brasileira pode dividir-se em duas partes: antes da bossa nova e depois da bossa nova; isto é, antes do João Gilberto e depois do João Gilberto. Músico de origem baiana para sempre marcado pelos ritmos de percussão da sua terra, João Gilberto está no nascimento da bossa nova, quando lançou há precisamente 60 anos o seu álbum de estreia, “Chega de Saudade”.

Nessa altura, no final dos anos 50, o Brasil estava em grande. A selecção canarinha era a campeã do mundo de futebol, já com Pelé no Escrete. A nova capital Brasília estava a ser construída. O país estava em expansão económica. E numa cidade maravilhosa virada para o mar chamada Rio de Janeiro, florescia uma nova música, a bossa nova, que era a banda sonora dessa nova felicidade brasileira. Esse novo estilo surge como um ponto de encontro entre jazz e samba, tão sofisticado e ao mesmo tempo tão simples.

A bossa nova foi nascendo nas tertúlias musicais nas praias cariocas à noite. Ou num apartamento com vista para a Praia da Copacana, onde vivia uma jovem chamada Nara Leão. Junto dessa roda de jovens boémios, mas um bocadinho à parte, estava um trovador tímido, com jeito para o violão, chamado João Gilberto, que criou um ritmo com a mão direita que marcaria para sempre a bossa nova. Atrás de si estava o incontornável arranjador e compositor Tom Jobim, que percebeu logo a originalidade de João Gilberto.

É desse esforço a três, contando com o letrista Vinícius de Moraes, que se faz o histórico álbum de estreia de João Gilberto, "Chega de Saudade", lançado em Março de 1959.

 

Já um ano antes, em 1958, surge o single Chega de Saudade, pela voz de João Gilberto, com arranjo de Tom Jobim. Era uma espécie de samba mais lento, mais intimista, com um trovador tímido que cantava de uma forma muito delicada, quase sussurrada, de olhos quase fechados e com o violão sobre a coxa.

 

Com a inovação do primeiro álbum de João Gilberto, "Chega de Saudade", todos os aspirantes a músicos queriam ser como ele. A bossa nova tornou-se moda no Brasil. João Gilberto deixou de tocar apenas em pequenos clubes do Rio de Janeiro, e passou a figurar em eventos maiores e começa a aparecer com regularidade na TV.

Em 1960, durante esta euforia, João Gilberto gravou o seu segundo álbum, “O Amor, o Sorriso e a Flor”, novamente com o apoio fundamental do pianista Tom Jobim nos arranjos.

Os músicos da bossa nova ouviam o jazz americano. Mas no início dos anos 60, houve o retorno, quando os músicos norte-americanos começaram a interessar-se pelo novo som do Brasil. É do Brasil e da bossa nova que vem a frescura que o jazz estava a precisar. O interesse americano é de tal forma que se organiza em 1962 um espectáculo de artistas de bossa nova no Carnegie Hall, em Nova Iorque. A sala de três mil pessoas torna-se pequena para assistir a esta delegação de músicos brasileiros, de que faz parte João Gilberto, talvez a atração principal da noite. O concerto de lotação esgotada foi um sucesso e teve na assistência gente ilustre como Tony Bennett, Peggy Lee ou Miles Davis.

Os músicos de jazz americanos começam a gravar discos de bossa nova, em especial o saxofonista Stan Getz, como aconteceu com o histórico álbum "Jazz Samba", feito a meias com o guitarrista Charlie Bird.

Em 1963, Stan Getz juntou-se ao homem do violão João Gilberto, para gravar o álbum “Getz/Gilberto”, onde gravaram alguns dos temas maiores da bossa nova como o universal The Girl From Ipanema, que seria premiado com o Grammy de Melhor Gravação do Ano. 

 

A popularidade da bossa nova durou enquanto houve boa vida. Com o agravamento das crises políticas e a repressão da ditadura militar em meados dos anos 60, os músicos brasileiros passaram a contestar mais e deixaram de se rever naquela que era a banda sonora da felicidade: a bossa nova. A MPB passa a ser opção e o movimento do tropicalismo liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil ganha força.

Quem se mantém fiel à simplicidade da bossa nova e a este som de marés calmas é João Gilberto, com o seu violão, a sua voz murmurada e pouco mais. 

Durante o seu longo período de vida nos Estados Unidos, o músico lança em 1973, um dos seus álbuns mais importantes, simplesmente intitulado "João Gilberto".

 

A lenda da música brasileira João Gilberto tinha 88 anos. 
 
  


 

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