Na sala de estar de Eddie Vedder

A noite de emoções fortes na repleta Altice Arena foi mais do que a glorificação intimista dos Pearl Jam.

21 de junho de 2019 às 03:20Na sala de estar de Eddie Vedder

A grande sala de espectáculos de Lisboa, a Altice Arena, lotou na sua dimensão máxima, mas espiritualmente comprimiu para uma salinha, a sala de estar de Eddie Vedder, em que cada um dos quase 20 mil espetadores pôde estar com ele, como se tivesse estado num longo serão caseiro com o ídolo. O tapete redondo, onde estão arrumados um banco, uma cadeira e uns microfones e pouco mais, era o primeiro convite para o convívio doméstico com Edward Louis Severson III - para cada um de todos nós, Eddie, que é como quer que o tratemos desde que apareceu nos nossos televisores e nas nossas rádios em 1991-92. 

Tal como Kurt Cobain, Eddie Vedder rejeitou o estrelato. Mas ao contrário do malogrado líder dos Nirvana, que se refugiou na autodestruição, o frontman dos Pearl Jam fez a fuga pela via mais positiva, tirando partido das coisas boas da vida como um cidadão comum infiltrado no nosso quotidiano. A qualquer momento, pode pedir-nos emprestada a prancha de surf, sentar-se na mesa ao lado do restaurante onde comemos ou cruzar-se connosco num centro comercial. Eddie Vedder não foge de nós, nem do imprevisto. Por isso, atrai magníficas histórias com fãs. Não é preciso um longo testamento técnico para explicar a diferença entre a pop e o rock. Basta constatar que as estrelas pop isolam-se etereamente num castelo inacessível, enquanto as estrelas rock (Bruce Springsteen, Michael Stipe) são feitas de carne e osso e andam nas nossas ruas. Eddie Vedder é táctil e pode estar a dois metros de nós quando menos esperarmos. Até pode ser na Altice Arena, onde nesta noite, voltou a mostrar que gosta de olhar bem para cada cara dos fãs, tentando saber o seu nome ao mínimo contacto visual. 

O homem está disponível para cada um de nós. Estamos de facto na sua sala de estar, onde cantou os parabéns para a menina Inês,  murcha de sono numa das filas da frente ao lado do que parecia ser o seu pai. Lá atrás, rodam imagens no ecrã grande, como se fossem telas grandes de pintura. É neste ambiente intimista que Eddie Vedder pega em muitas das canções dos Pearl Jam, como que devolvendo-as ao seu berço solitário, despidas à sua essência tal como nasceram.

Quando às 21h45 Eddie Vedder entra em palco com um grande caderno, é com um tema a solo, Far Behind, que inicia o concerto de mais de duas horas, dedilhando com toda a genica a sua guitarra acústica.

"Boa noite", diz Eddie Vedder num português esforçado... A sala ilumina-se toda e o cantor norte-americano recebe uma ovação daquelas bem grandes, carregadas de saudades de quase um ano sem o ver em palco (ou, para alguns espectadores, até mais). 

Just Breathe é a primeira balada digna do nome e a primeira repescagem ao reportório dos Pearl Jam, agigantada por uma voz cheia, cheia de beleza, que conforta qualquer alma e cabe em qualquer ouvido. 

No meio daquela confusão de folhas soltas do seu caderno, Vedder lá encontra o texto do seu discurso em português que é lido com um empenho que secundariza qualquer trapalhice fonética. Siga! “Já vim 11 vezes a Portugal e ainda falo muito mal português", num lamento que valeu risos, seguido de aplausos, da multidão.

Em Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town e I Am Mine, o refrão e a voz grandiosa de Vedder voltam a ser preciosos aliados. Mas a glorificação intimista do repertório dos Pearl Jam continua, desta vez em Immortality, que pede candelabros ligados. 
 
A plateia sentada torna-se a plateia de pé em Wishlist, com a guitarra elétrica de Eddie Vedder a ser arranhada asperamente. No falatório para a multidão, a beleza radiofónica da sua voz contrasta com a fluidez ziguezagueante do discurso, como se o que dissesse precisasse de tropeçar em breves silêncios no que já é um estilo. Nesses discursos, os concertos de estreia em Portugal no Pavilhão Dramático de Cascais (ocorridos em 1996) vieram à memória mais do que uma vez. E como é habitual sempre que vem a Portugal, fez referências aos surfistas - classe desportiva a que pertence como amador e amante.   

Os roadies vestiam uma bata branca, mais parecendo um corpo médico de volta de Eddie Vedder, que tinha mais companhia em palco, como o Red Limo String Quartet ou o guitarrista folk Glen Hansard - autor da primeira parte do espectáculo em Lisboa. Em dedicatória a um sobrevivente da pena de morte, Eddie Vedder cantou o tema em nome individual Satellite, munido do seu ukulele, o parente havaiano do cavaquinho.

Seguidamente, o cantor abre no centro do palco uma caixa de madeira de onde sai uma garrafa de vinho tinto, que seria bebida por Vedder e partilhada com Glen, e, em formato de copo, com uma fã da fila da frente, de nome Laura. 

Segue-se o pico emocional com Black dos Pearl Jam.  O magnetismo da canção levanta todos das cadeiras e faz fechar os olhos a muita gente. Em Betterman, os únicos sentados na sala voltam a ser apenas os músicos em palco, com o tal coro futebolístico no final, parecendo mesmo estarmos num concerto de rock, com o Red Limo String Quartet a formar uma secção rítmica com o bombo que Vedder bate com o pedal. 

No grunge unplugged de Porch, as garras de rock de Vedder estão bem assanhadas, e as cordas da guitarra acústica sentem-no, antes da versão em cordas de Jeremy, aproveitado por Eddie Vedder para descansar. 

Depois de uma interpretação ao órgão da versão dos Fugazi de I'm so Tired, fez da alusão aos problemas políticos atuais uma rampa para uns segundos de People Have The Power de Patti Smith e para a versão de Imagine de John Lennon. A Altice arena, a tal nau invertida, torna-se então um céu estrelado invertido, com tantos telemóveis no ar nas várias plateias e balcões. 

Os seguranças são também os garçons das boas graças de Eddie Vedder, que os usa para dar copos de vinho a fãs, pelos mais diversos motivos, como a exibição de cartazes como "Your Music Saved My Sanity", ou até a quem lhe faça pedidos de casamento.
 
A tal sala de estar de Eddie Vedder tem vista para a paisagem natural, sobretudo canções da banda sonora que gravou para o filme de Sean Penn, "Into the Wild", e que foram sendo tocadas. É o caso de Society, um dueto tocante com Glenn Hansard e até, de certa maneira, com o público que bem o cantou, e, logo a seguir, Hard Sun. Antes de sair de palco, Eddie Vedder faz o gesto circular do braço à volta da guitarra elétrica, certamente numa homenagem a Pete Townshend dos Who. 

Foi tudo tão acalorado que foi fácil de pressentir que haveria novo encore. E Ei-lo com a já habitual versão de Rockin in the Free World de Neil Young, num rock de intervenção com eletricidade mais na alma que na amplificação 

Eddie Vedder sai comovido com a ovação final, com uma bebedeira de felicidade que o leva a uma dança ao par com o barbudo Glen Hansard. O público também sai contente com uma sova de mais de duas horas de música, com outra vez a certeza de que por trás do ídolo e do óptimo cantor, está um excelente homem. Como se fosse um de nós. 

 

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