Luísa Sobral: "interessou-me a velhice"

Novo álbum "Rosa" já nas lojas. Entrevista à cantora portuguesa.

09 de novembro de 2018 às 14:18Luísa Sobral: "interessou-me a velhice"

A maternidade recente de Luísa Sobral parece ter aprimorado a ternura das suas novas canções, 11 ao todo, embaladas neste álbum "Rosa", o quinto longo da cantora que sai hoje - e que motiva uma entrevista à nossa rádio.  

Neste disco concebido entre fraldas e aleitamento, Luísa Sobral reforçou o olhar de cancioneira sobre as extremidades da vida: os seres humanos que gatinham e os veteranos que não queremos que nos deixem. "Comecei a explorar um assunto que me começou a interessar que é a velhice. Há muitas coisas a dizer sobre essa fase da vida. Uma pessoa não deixa de existir. Não só não deixa de existir como tem uma vida toda para trás, tão sábia de vivência. É uma fase muito interessante, com muito sumo para canções. O amor na terceira idade fascinou-me [ainda] mais. A canção dos 'Dois Namorados' é uma canção verdadeira. É a história que me contaram de uma mãe de uma amiga minha que achei tão bonita que decidi pô-la em canção. E há outra que fala também da velhice que é a 'Mesma Rua Mesmo Lado'. As pessoas até acham que são os mesmos velhinhos mas não são”.

 

"Rosa" soa a um disco muito lá de casa, de escassos instrumentos (apenas os essenciais) que caberiam num quarto, com canções com intimidade de embalo. "Não vou forçar uma canção para [se tornar] mais divertida só para ter uma. Se estou a passar por esta fase em que me saem coisas assim, vou fazer um disco mais melancólico", mas não necessariamente triste, com uns apontamentos almofadados de uma trompa, de uma tuba ou do fliscorne, que fintam a aparência volumosa e dão leveza ao disco. 

 

Neste disco, que se aconchega a gente de todas as idades, há uma lindíssima imagem, a da capa da autoria de Camila Beirão dos Reis, com as várias fases, do broto à florescência magnânima, que merece moldura e a posteridade numa parede. "Ao princípio pensei pôr uma fotografia". Mas "de repente pensei, 'não quero saber'. Estou a fazer este disco exatamente como eu quero, por isso vou fazer a capa como eu quero. Não tenho que fazer uma fotografia só porque normalmente os cantores aparecem nas capas. Não quero saber. Não quero aparecer na capa. Eu quero que apareça uma ilustração. Então falei com a Camila Beirão dos Reis e disse-lhe: 'esta é a minha ideia, queria uma flor no meio do disco, mas uma rosa que não seja muito rosa, mesmo no centro. Claro que ficou uma ideia dela, não ficou a minha, porque eu sei que cada um tem a sua arte. Já sabia que preferia dar-lhe toda a liberdade", a bem da ilustração criativa e sensível de todo um processo da maternidade da cantora, que tem na rosa o pedido de metáfora.

 

 

 

Mas o trabalho de Camila Beirão dos Reis não se ficou pela capa. A ilustração iria ter o desafio de um scrapbook, de base para o vídeo de Filipe Cunha Monteiro (com Ricardo Magalhães na direção de fotografia) para a canção 'O Melhor Presente'. Melhor que um lyric vídeo, só mesmo um scrap video. "Um dia acordei e tive aquela ideia porque eu queria fazer um videoclipe que fosse muito pessoal e verdadeiro mas não queria pôr os meus filhos. Não gosto de expor os meus filhos. Estava a pensar: 'como é que vou fazer isto? Não quero convidar duas crianças que não me dizem nada, não quero aparecer'. Um dia acordei às seis da manhã com esta ideia. E até tive que acordar o meu marido porque queria contar-lhe a ideia de ser um livro que fosse publicado e que pessoas possam contar aos seus filhos. Liguei à Camila, ‘quero fazer isto’, e ela: ‘acho que sim’. Obviamente, eu só tinha a ideia, o resto era só ela que fazia. Encontrámo-nos para combinar que palavras teriam imagens. Não podiam ser todas as palavras, se não dava. Queria que fosse uma coisa calma a passar as páginas. Ninguém está a contar uma história a uma criança com as páginas e os bonecos a passarem a correr. Queria mesmo que parecesse que eu estava a contar ao meu filho. E no dia antes de gravar, fiz a mudança de páginas para o meu filho a ver se ele continuava interessado e se ele gostava e ele adorou. Ou seja, percebi que funcionava".

 

Neste álbum de família, tão lá de casa, aparece o irmão, Salvador Sobral, numa amorosa justaposição de vozes em 'Só um Beijo'. Como o mundo bem sabe, não é a primeira vez que o par mostra a sua irmandade na música. Mas um álbum de duetos entre irmãos pertence ainda a uma ficção futurista. Luísa Sobral dá-nos a atualidade. "Para mim, este já é o meu quinto disco. Mas para o meu irmão é o segundo que na verdade vai ser como um primeiro depois do sucesso que teve. Acho que é bastante importante que ele siga a carreira dele e que se estabeleça com a sua música. Depois, um dia mais tarde, decidimos se queremos fazer alguma coisa juntos. Acho que é muito importante ele ter agora o som dele. Sinto que a mim já me conhecem mais ou menos. Mas acho que é importante as pessoas perceberem o caminho dele". O impacto da vitória em 2017 na Eurovisão, graças a 'Amar pelos Dois', testou à séria a personalidade dos irmãos Sobral: "Depois da Eurovisão, havia uma pressão para fazermos coisas juntos e dissemos não a tudo". 

 

Será que a vitória da Eurovisão deu mais autoestima a Luísa Sobral enquanto compositora? Terá aumentado o destemor à aventura depois deste forte sinal internacional? "O que me deu de melhor foi ter mais gente a pedir-me canções. Adoro escrever para outras pessoas. Já o fazia antes mas menos. Agora, de repente, tenho muito mais convites. É uma das coisas que mais gosto: escrever para outras pessoas. Isso foi muito positivo. Se tenho mais confiança enquanto compositora? Talvez, porque percebi que os meus colegas músicos já me valorizam mais. Não estou nada ressabiada com isso. Mas o facto de escrever letras em português e às vezes as pessoas acharem que só escrevia em inglês" trouxe à consciência coletiva o seu talento para a escrita na língua de Camões.

 

O campo de recrutamento de composições de Luísa Sobral transpõe, e muito, a área da sua interpretação. "Escrevo bastante para fado. Adoro escrever para fado, é um estilo que nunca cantarei. É muito interessante ouvir naquelas vozes tão diferentes da minha, as minhas palavras. É mesmo especial".

 

Graduada no Berklee College of Music e bem sintonizada com o jazz, Luísa Sobral é focada instrumentalmente na guitarra, sobretudo a acústica. Mas nos sonhos, a sua alma cresce para outros instrumentos. Em especial o "violoncelo". "Gostava mesmo de tocar bem piano por ser mais fácil acompanhar-me. Acho um instrumento lindíssimo, o piano, um dos instrumentos mais bonitos que há. Mas o violoncelo faz-me chorar. No outro dia estava a dizer que um dia vou decidir que a minha filha vai tocar violoncelo. Coitada, ela se calhar não vai gostar nada. Acho que vou tentar que ela goste do violoncelo". 

 

Para quem usou tão poucos meios instrumentais neste novo disco "Rosa", não deixa de ser curioso que Luísa Sobral mantenha bem viva uma agenda ao vivo integrada em big bands e em orquestras. "Vou ter essa experiência outra vez em dezembro. Vou ao Uruguai cantar com a Big Band de Montevideu. Vou tendo essas experiências. Fui à Holanda e cantei com uma orquestra. Às vezes tenho estas coisas, o que é ótimo", onde interpreta não só standards, como até temas seus. "Talvez este seja o meu disco menos jazzístico. E nesses momentos, acabo por voltar àquilo que estudei e que gosto de fazer”. 


 

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