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O português que passa férias com Kim Jong-un

João Micaelo foi colega de escola e o melhor amigo do atual líder da Coreia do Norte.

Paulo Alexandre Santos

Este sábado a Coreia do Norte vai acertar os seus relógios com os da Coreia do Sul. Depois de em 2015 ter criado o "tempo de Pyongyang", atrasando os ponteiros 30 minutos em relação a Seul, Kim Jong-un decidiu reunificar o horário, num sinal de reconciliação. A decisão do líder norte-coreano foi anunciada na recente cimeira histórica com o presidente da vizinha Coreia do Sul.

A boa vontade de Kim Jong-un é vista com desconfiança por muitos, depois da tensão criada nos últimos anos com vários ensaios nucleares e balísticos. Mas há um português que acredita no ditador: João Micaelo. O português que durante anos foi o melhor amigo de Kim Jong-Un e que já foi passar férias à Coreia do Norte, mais do que uma vez, a convite do líder norte-coreano.

 

 

Uma amizade que começou, de forma improvável, numa escola suiça, explica João Micaelo. "Os meus pais emigraram para a Suiça, para Berna, e eu vim com eles. Um dia, na escola, no final dos anos 90, chegou um rapaz da Coreia do Norte para a nossa turma e sentou-se na carteira ao meu lado. Na altura ainda não havia muitos estrangeiros na Suiça como há hoje. Nós eramos dos poucos e, então, como eu falava mal alemão e ele também, automaticamente ficámos amigos até ele se ir embora. Ele na altura era chamava-se Un Pak e foi-nos apresentado como o filho do embaixador da Coreia do Norte aqui em Berna. Nunca duvidámos. Na altura também ninguém tinha muita informação e a Coreia do Norte era um país como os outros, lá longe..." 

 

João Micaelo (à esquerda) e Kim Jong-un (ao centro)

 

João recorda que apesar da dificuldade inicial, por causa da língua, "sempre fomos os melhores amigos enquanto ele esteve aqui. Ele gostava de jogar basquetebol e... tinha interesses de miúdos naquela altura. Eu tinha 14 anos e ele também, saíamos, íamos andar de bicicleta, jogávamos PlayStation, víamos uns filmes, mas a maior parte do tempo era a jogar basquetebol. Saíamos à noite de vez em quando mas nunca para discotecas. Ainda não havia aquela coisa de ir à discoteca. Íamos à piscina, ele ía a minha casa fazer os deveres da escola e eu para casa dele. Às vezes almoçava lá outras vezes ele em minha casa, com os meus pais."

 

 

Confessa que nunca desconfiou quem era na verdade Un Pak. Quando o amigo estava de partida da Suiça confidenciou-lhe que era filho do presidente da Coreia do Norte, mas João Micaelo não o levou a sério. Só passados dez anos desde que se separaram descobriu que era verdade, quando jornalistas japoneses o procuraram para lhe falar de "um tal Kim Jong-un. Aí é que comecei a pensar... queres ver que ele estava a falar a sério? Depois fui pesquisar e vi que era verdade."

Mais surpreendido ficou quando em 2012, já com Kim Jong-un líder da Coreia do Norte, recebeu o convite para o ir visitar. "Foi uma coisa muito especial. Primeiro fui lá um fim de semana, em 2012, e no ano seguinte fui uma semana e meia. Mostraram-me a cidade, o país, fui muito bem recebido. Tinha convites para ir jantar e almoçar com o Kim ao palácio residencial, um guia e um tradutor sempre comigo."

 

 

Só não falaram de política, garante. "É mais uma coisa de amigos, falamos dos tempos que passámos juntos, o resto não me diz respeito."

Ainda assim, sobre a recente mudança de atitude de Kim Jong-un, João Micaelo acredita que seja sincera. "Ele já está no poder há algum tempo, primeiro tinha que seguir o que o país e o povo esperava dele. Agora talvez queira pôr em prática as suas ideias, ele estudou na Suiça, esteve noutros países, viu outras coisas e pode agora querer algo diferente para o seu país. O mundo mudou e acho que ele também mudou."

Por diversos motivos, nos últimos anos o contato "arrefeceu um pouco", diz João. No entanto, mantém o desejo de reencontrar o amigo e poder lever o filho a conhecer a filha de Kim Jong-un... ou Un Pak, o colega de carteira na escola pública Suíça.

A história aqui contada pelo próprio: