Marés Vivas: não há limites para este bem receber e bem actuar

O pôr-do-sol faz companhia a um festival que hoje tem mais jovens e que voltou a esgotar.

Daniela Azevedo
16 julho 2016, 01:55
A energia que se despende a trabalhar num festival como o Meo Marés Vivas é muita e, com frequência, achamos que o nosso corpo vai entrar num estado de exaustão sem regresso possível mas a energia que se ganha suplanta tudo e revigora corpos e almas.

No arranque deste segundo dia do festival da praia do Cabedelo já não temos quaisquer dúvidas de que este é um festival diferente. Quando se diz que tem vista para o Douro não é aquela vistazinha esforçada, que conseguimos ver se fecharmos bem um olho e nos pusermos em bicos de pés; não. A vista para o Douro está aqui mesmo do lado esquerdo do palco principal, o palco Meo, e confere-lhe um ar bastante distinto.

Os bilhetes para o dia de hoje esgotaram e coube à Rádio Comercial oferecer um dos últimos, e já difícil de conseguir, à jovem ouvinte Joana, de 18 anos, que tal como milhares de outras, estava excitada com a oportunidade de ver James Bay e os Kodaline, principalmente.

Depois do sound check pelas 17h00, Jimmy P mostrou-se tranquilo em abrir o palco Meo do festival. Já no ano passado o cantor esteve no palco Santa Casa, deste mesmo festival, e agora veio apresentar o mais recente álbum, "Essência", mas não só. 'Storytellers', de 2013, foi ouvida debaixo de um sol escaldante enquanto mais e mais fãs iam enchendo a parte frontal do palco. O cantor conseguiu manter o público entusiasmado mesmo com o mais recente 'Não Tás a Ver'. Um dos momentos mais emocionantes aconteceu com a solicitação ao público de uma espécie de vénia a que chama de "onda" e que serve precisamente para apelar ao espírito de união. Como se já não bastasse, eis que chega o convidado da tarde: Diogo Piçarra que com ele fez um dueto em 'Entre as Estrelas'.

Ainda em português, e com o sol a beijar o Douro num cor-de-laranja digno de filme, Dengaz assume "a cena" com o recinto do Marés Vivas sempre a encher. Os fãs que estão num balançar de corpo (não fosse o ritmo hip-hop e poderia ser cante alentejano), aplaudem ainda mais com as mãos festivaleiras oferecidas pela Meo a canção 'Rainha' seguida de 'Eu Consigo' e 'Donde Vim', assim, sem pausas para respirar.

Sempre a puxar pelo público e bem simpático para com os seus muitos fãs, Dengaz recheou o seu concerto com a talentosa voz de Denise, e a sempre mediática presença de António Zambujo que abrilhantou a recta final da sua actuação em 'Nada Errado'. 'Tudo Muda' já se ouviu em jeito de encore. De referir que este foi o tema que o cantor fez para a compilação de solidariedade da Rádio Comercial "Passa a Outro e Não Ao Mesmo" - 11 Artistas, 11 Canções, 11 Causas. Toda a gente aplaude e conhece a letra. O concerto acaba com o ponto alto de euforia que 'Dizer Que Não' causa, ainda para mais quando Ruben Matay se junta à festa.

James Bay é outro dos concertos muito esperados neste segundo dia de festival mas antes dele ainda vem a equipa das manhãs da Rádio Comercial para cantar ao vivo. Com o álbum "Chaos and Calm" a levá-lo a dar inúmeros concertos (é incrível que seja só um), a parte inicial é muito constituída por músicas mais calmas e instrospectivas. O artista londrino, sempre com o chapéu com que começou a tocar em bares, escolheu precisamente os contornos dessa sua imagem pessoal para criar um logotipo, exibido no palco durante o tempo todo. 

Depois de uma curta pausa, regressa ao palco debaixo de uma chuva de aplausos e entra numa atitude mais rock. A big surprise estava ainda guardada na algibeira - uma poderosissíma versão de 'Proud Mary' que, ainda que nos devolva de imediato a imagem das ágeis pernas de Tina Turner, é um original de John Fogerty a que os Creedence Clearwater Revival deram voz pela primeira vez. Escusado será dizer que ninguém arredou nem pé nem braço até ouvir 'Hold Back The River' interpretada com um James Bay vestido com a camisola do F.C. Porto e quando mal se distingue a voz de cantor e cantantes entre o público. É também o momento em que há tanta luz em palco como nos ecrãs de telemóvel acesos.

Pela terceira vez em Portugal, os Kodaline estreiam-se em terras do norte com a lição bem estudada. Entre gritos de "Portugal, Portugal", garantem a moçada rendida a seus pés com 'Ready', a primeira, saída do álbum do ano passado, "Coming Up For Air". A balada 'Lost' é a que se ouve precisamente antes da música que, durante a tarde, foi tão pedida: 'High Hopes'. Seguiu-se 'Autopilot', também do disco mais recente. Os irlandeses já têm dois álbuns editados e, no que toca à popularidade por terras lusas, não se nota qualquer diferença entre um e outro. Nota-se é, claro, a vontade de retribuir tantos aplausos o que, agora, não é difícil; basta felicitar Portugal pela vitória no campeonato europeu de futebol.

'The One' é apresentada como tendo sido a canção feita para um amigo que casou e que fala nos altos e baixos das relações amorosas que, quando movidas por um forte sentimento, saem reforçadas e resultam, como foi o caso, em casamento. A seguir, em 'Love Like This', do álbum "In a Perfect World", Steve Garrigan mostra mais um talento: tocar harmónica. «De cada vez que vimos a Portugal vocês são sempre incríveis!», exclamou o vocalista para delírio dos fãs. 

A madrugada conta com o jovem DJ belga (tem 22 anos) Lost Frequencies no palco principal (ainda cheio de gente), e Wilson Honrado e Nuno Luz feat. 4C no Moche Room. Hoje ninguém dorme em Vila Nova de Gaia.

Fotos: Joana Baptista