Elton John no Meo Marés Vivas: Swarovsky fica-lhe tão bem

Elton John e a transversalidade de um artista com mais de 50 anos de carreira.

Daniela Azevedo
15 julho 2016, 00:35
Depois de ter passado a tarde a descansar num sofá branco com cristais Swarovsky, uma das suas exigências de camarim, segundo a organização do festival, Elton John recuperou mas gastou as suas energias por completo para conseguir (e levar!) tudo dos cerca de 25 mil fãs que nesta primeira noite de Meo Marés Vivas encheram o palco principal. Ao longo da tarde a Rádio Comercial foi recolhendo vários testemunhos que demonstraram claramente que Elton John é um artista querido por, pelo menos, duas gerações.

A abertura do espectáculo foi com um tema já de 1974, do álbum "Caribou", 'The Bitch is Back', que chegou a ser proibido nas rádios dos Estados Unidos e que Tina Turner também escolheu gravar. Seguiu-se 'Bennie and the Jets', ainda mais antiga, e 'I Guess That's Why They Call It The Blues', lançada em 1983. Vá tentem resistir a tremer o queixo.

Elton John tem vivido uma vida como poucos. Da repressão em início de juventude pela sua homossexualidade, ao show man que conseguiu já encher mais de 3500 concertos, a exuberância doida desses primeiros tempos transformou-se numa maturidade e elegância absolutamente incríveis. Ele de sapatos integralmente vermelhos. O baterista de luvas brancas. Pois, elegância é a palavra de ordem. Este mais recente álbum, "Wonderful Crazy Nights", já lançado este ano, vem assim: repleto de boa energia, de cores, de pensamentos otimistas. As letras, ah as letras... essas são as que nos trespassam a alma qual espada afiada. 'Sorry' e 'Your Song' são exemplo disso.

Claro que nem só de luzes e cores fluorescentes se fez o concerto que abrandou e se tornou mais intimista (apesar de não ser, de todo, esta a nota dominante do mais recente álbum, "Wonderful Crazy Nights") com o desfilar dos slows 'Rocket Man' - que é acompanhado pela imagem de planetas coloridos nos ecrãs - 'Daniel' e 'Goodbye Yellow Brick Road'. Há fãs a tirarem selfie atrás de selfie e adivinham-se as dedicatórias a serem enviadas às pessoas especiais que cada um de nós tem na vida.

Claro que a banda que o acompanha também tem um forte peso no balanço extremamente positivo que se faz ao concerto e é-nos apresentada a seguir a 'Sad Songs (Say So Much)' do álbum de 1984 "Breaking Hearts". Entusiasta de futebol, o artista inglês saudou o título de campeã europeia que a nossa selecção de futebol alcançou, exibindo uma grande e esvoaçante bandeira de Portugal (ainda que de pernas para o ar). Ninguém lhe leva a mal.

'Burn Down The Mission' é a prova inequívoca de que Elton John está longe da idade da reforma apesar dos seus 69 anos. Com os ecrãs em chamas a banda dá-nos rockalhada até ao tutano e não faz "stop" nem para deixar as cordas das guitarras arrefecerem. Depois de uma breve ausência, o palco volta a iluminar-se e eis uma das músicas mais esperadas e pedidas durante a tarde: 'Candle in the Wind' com 'Crocodile Rock' a fechar e muita gente a dançar. Não se consegue evitar e para quê fazê-lo?

Com o trânsito humano a fluir, criam-se mais alguns espaços entre a multidão que se estendia desde a frente de palco até ao Santa Casa mas o volume do som aumenta e eis 15 artistas em palco depois da já famosa contagem decrescente que antecipa o concerto dos D.A.M.A. Com 'Calma' e 'Sente a Minha Magia' os rapazes agarram de imediato os mais jovens que não deixam os pais irem embora, nem que tenham que lhes pegar pelo braço ou até arriscar uma birra pueril.

Sempre cheios de energia e aquela atitude à D.A.M.A. a que já nos habituaram, Francisco Pereira, Miguel Coimbra e Miguel Cristovinho não deixam os créditos por mãos alheias e as centenas de concertos que têm dado não os tornaram repetitivos; apenas mais sabedores dos segredos para um grande espectáculo. 'Às Vezes', 'Luísa' e 'Não Dá' são cantadas e dançadas, acima de tudo pelo público feminino, que "não dá" pelo tempo passar. E que noite invulgarmente quente temos hoje no Porto.

Ainda esperamos por Gabriel O Pensador mas antes disso há saxofone. Sim, o mágico saxofone no concerto dos D.A.M.A. 'Não Faço Questão' já é cantada a meias pelo público, não é a grave a ausência do artista brasileiro (que está presente virtualmente com excertos do vídeo a serem exibidos nos ecrãs).

Em encore, 'Torn', de Natalie Imbruglia, brinda a audiência e percebemos que, para eles, 1997 já é "sooo yesterday".

Meo Marés Vivas. O festival que também queremos levar na memória "em casa, no carro, em todo o lado".

Fotos: Joana Baptista