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Rosalía: o flamenco nas pistas da alta velocidade

Com fato de motard, cantora espanhola fez da Altice Arena o seu autódromo emocional.

Rosalía: o flamenco nas pistas da alta velocidade
Gonçalo Palma

As filas desmesuradamente longas de espectadores que ameaçavam contornar a F.I.L. (o grande pavilhão em frente à Altice Arena) foram o sinal exterior da enchente que se aguardava lá dentro, no antigo Pavilhão Atlântico, em Lisboa.
 
Quando passavam dez minutos das 21h00, desligam-se as luzes da Altice Arena e acendem-se as três telas verticais do ecrã do fundo do palco. Aí vinham Rosalía e o seu agregado de dançarinos, que se moviam como um só corpo, como um enxame à volta da rainha daquele palco. Quando Rosalía tira o capacete fluorescente e se vê a sua cara, é a loucura. A argumentação do seu último álbum "Motomami" como um dos acontecimentos discográficos do ano começava logo à primeira música do alinhamento, 'Saoko', com aquela hibridez de eletrónicas de rua (com funk carioca à mistura) e beats que são furacões que empurram as pessoas para dançar imediatamente. Rosalía é a dançarina de flamenco que faz twerk com o seu fato de motard, numa loucura carnal à solta, com ela e o seu staff dançante.

Depois do arranque a alta velocidade, os ânimos tornam-se melosos em 'Candy', com a crew de Rosalía a fazer-lhe a primeira de muitas rodas humanas ao longo do espetáculo de quase duas horas. O som da sala está tramado, mas Rosalía conta consigo mesma e com o público eufórico para uma grande noite. À voz em forma e à raça corporal, Rosalía acrescenta um terceiro elemento de sedução: o olhar forte. É esse olhar forte que mostra em 'Bizcochito', quando de costas para o público vira a cara e nos olha e nos conquista. No tema 'La Fama', esse olhar forte vira-se para a câmara de filmar, começando uma relação de amor correspondido que estrutura todo o espetáculo entre a filmada e o objeto que a filma. É também em 'La Fama' que se conjectura a hipótese de aquele público ter tido um curso avançado de língua castelhana, numa canção em que nenhum verso atrapalha este coro improvisado de quase vinte mil pessoas. 

Num intercâmbio ibérico curioso de aprendizagens, Rosalía parece estar a ter as primeiras aulas de português, a julgar pela forma foi inserindo algumas palavras da língua de Camões nos seus primeiros discursos para o público, como "muito obrigada", quando realçava o facto deste ser o seu primeiro concerto em Lisboa, ou "sozinha", quando relembrava a clausura dos tempos da pandemia, que inspiraria em parte o seu álbum "Motomami". A interpretação de 'Dolerme' por Rosalía foi feita de guitarra acústica nas mãos, mas com a tecnologia do tuning não totalmente hibernada. No misto 'De aquí no sales'/'Bulerías', a artista catalã afasta-se da Babilónia pop em direção à sua Meca sevilhana, numa mostra da raça de flamenco com os gestos de braços no ar como uma toureira e um cante andaluz, batendo com as botas no chão como uma dançarina. Rosalía volta às prateleiras pop em 'G3 N15', a cantar de forma emocionada e com enorme projeção vocal a balada numa roda giratória, enquanto os seus dançarinos se amontoam no chão como se fossem uma rocha. 

O concerto da "Motomami World Tour" não é só mexido fisicamente, também mexe muito de conceito. 'La Noche de Anoche' serve para Rosalía ultrapassar o fosso entre o palco e o público e ir ter com um casal da linha da frente para o pôr a cantar o tema, passando-lhe o microfone sem hesitação. Rosalía senta-se depois no cadeirão da maquilhagem e a sua cara é tratada enquanto vai cantando. Nos instantes seguintes, a estrela espanhola refresca-se encostando uma garrafa de água à cara, sacudindo depois os pingos de H2O com o seu cabelo molhado. É já arranjada, arranjadamente desarranjada com os seus cabelos desgrenhados e humedecidos, que canta ao piano a balada 'Hentai'. Em 'Pienso en tu mirá', o seu rosto sobredimensiona-se, projetado por inteiro nas três telas verticais do fundo do palco. Na sua versão de 'Perdóname', insiste no registo baladeiro mas numa superfície synth-pop, com a voz a ir muito muito longe, tão longe quanto a sua alma. Já em 'De plata', Rosalía volta à sua função de ícone da world music, com hipnóticas flutuações de voz como se fosse uma Lisa Gerrard aciganada, sobre uma guitarra elétrica tão trepidante quanto a câmara que cinefilamente se aproxima da sua face suada e lhe faz grandes planos. 

Cumprido o corridinho lúdico do abecedário com um fã, em que a cantora fez questão de incluir o L de Lisboa e o P de Portugal, a cantora motard faz de 'La Combi Versace' novo ponto de partida para mais uma prova de velocidade, com o flamenco a montar-se nas electrónicas arrojadas. Às tantas, uma multidão se junta em palco à artista catalã, para mais uma mostra de danças rijas só ao alcance dos ágeis. Sossegada a discoteca, Rosalía reentra na pura pop sem world, em 'Blinding Lights', e por lá se mantém em 'Chiri', momento ideal para dramatizar nos falsetes e gesticular o máximo que podia. No tema 'Como um G', a ventoinha de palco continua a fazer ondular fotogenicamente os cabelos de Rosalía, que, noutra imagem forte, encosta a cabeça no ombro de um dos seus dançarinos enquanto canta. 

Quando se ouve 'Malamente', a motard recupera a pose de toureira e o sangue andaluz volta-lhe a correr nas veias e nas cordas vocais nesta pop à espanhola. Com quase hora e meia decorrida do espetáculo, Rosalía dá o recado maternal: “tenho que vos mandar de volta a casa". Com a carrinha pronta para levar a cantora para o hotel, Rosalía tinha que dar tudo antes de se ir embora. 'Com altura' é mais uma prova física de alta competição, a mirar o vizinho kuduro, com Rosália e o seu agregado de dançarinos submetidos ao rigor da perfeição de mais uma coreografia elaborada.  

Rosalía e o seu gangue entram no encore de trotinetas, no frenético 'Chicken Teriyaki'. Nesta intermitência salomónica entre festança e festinhas, Rosalía volta a este último trato dócil, em 'Sakura', que inspira um empolgamento emocional total, só com o apoio do pianista que Rosalía chama para o primeiro plano, referindo os 10 anos que trabalharam juntos. É com os beats pesadões de 'Cuuuuuuuuuute' que termina o espetáculo de duas horas. 

Rosalía mostrou na Altice Arena toda uma gama de sons e de sentimentos, com um ecletismo raro. A cantora espanhola é a mais inovadora estrela pop dos tempos que correm. Por trás da estrela, sentimos a artista. A sua autenticidade não se evapora no meio daquela estrutura gigante.