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Viagem ao Gana: dos elefantes aos smocks

É o primeiro adversário de Portugal no Mundial. Será o Gana a seleção mais fraca do Grupo H? Convém desconfiar.

Viagem ao Gana: dos elefantes aos smocksDR/Associated Press/Ghana Museum
Gonçalo Palma

A forma trágica como o Gana não se tornou no primeiro semi-finalista de sempre de um Mundial de Futebol em 2010 parece digna de um drama da recente literatura do país. A seleção ganesa atual está longe de ter o poderio daquela de 2010. Mas a imprevisibilidade do seu futebol pode provocar tropeções aos favoritos do grupo, Portugal e Uruguai.   

Apuramento sofrido com Part(e)y
Escolher o jogador do Gana mais influente da atualidade parece fácil: ele é o médio defensivo Thomas Partey, titular indiscutível do Arsenal, que está a liderar a Premier League. É ele que ajuda a inclinar o campo a favor do Arsenal ou do Gana. Consegue roubar bolas da forma mais inesperada, tem um pé direito dotado que lhe permite ter um jeitão para a bola, sabe muito lançar ataques e fazer passes de longa distância e faz remates de fora da área traiçoeiros. Um deles permitiu ao Gana eliminar a rival Nigéria no play-off, num golo fora que fez a diferença, depois de uma fase de grupos ganha em photo finish à também difícil África do Sul.

Há que contar também com a grande importância na equipa ganesa dos dois irmãos Ayew, curiosamente filhos do maior futebolista de sempre do país, Abedi Pele. O atacante André Ayew é o capitão de equipa e já está ambientado ao país anfitrião do Mundial, por jogar na liga catari de futebol pelo Al-Sadd. Já o avançado Jordan Ayew joga há vários anos na Premier League, com a camisola do Crystal Palace. Ele é um dos principais artilheiros do Gana. O jogador mais jovem da comitiva ganesa que vai ao Catar tem 18 anos, chama-se Issahaku e joga pelo Sporting Clube de Portugal. Ainda sem grande preponderância na equipa leonina, este polivalente do ataque é considerado uma das grandes promessas do futebol africano e já está a assumir a titularidade da seleção ganesa e a marcar golos.

 

Quase, quase, quase a primeira semi-finalista africana de um Mundial
O Gana chegou a ser o país historicamente hegemónico do Campeonato Africano das Nações, com quatro títulos, o último dos quais no distante ano de 1982. No entanto, apesar de potência continental dominadora, nunca conseguiu a qualificação para o Mundial ao longo do século passado, ao contrário de seleções com menor historial, como o antigo Zaire, a Tunísia, a Argélia, Marrocos ou até a Nigéria, que se emanciparam na maior prova da FIFA. O Gana foi tendo grande futebolistas que nunca jogaram um Mundial, como o caso mais gritante de Abedi Pele, premiado como o Melhor Futebolista Africano do Ano por três anos seguidos, entre 1991 e 1993, altura em que foi campeão francês e campeão europeu ao serviço do Olympique de Marseille, clube presidido então pelo controverso e ambicioso Bernard Tapie.   

A estreia num Mundial só aconteceu em 2006, onde as coisas correram bem, com uma campanha até aos oitavos-de-final. E depois, no Mundial de 2010, um ponta-de-lança do clube norueguês Fredrikstad, o jovem ganês de 20 anos Adiyiah, iria entrar na história do futebol mundial como o marcador do golo que iria apurar pela primeira vez uma equipa africana para as meias-finais da maior competição futebolistica planetária. Numa recarga de um livre nos descontos do prolongamento com o Uruguai, a sua cabeçada envia a bola na direção correta das redes, apurando o Gana para as meia-finais do Mundial. Imaginem... o Gana como a primeira equipa africana nas meias-finais de um Mundial, que pela primeira vez estava a decorrer no seu continente. Aqueles frames eram perfeitos: à cabeçada oportuna de Adiyiah junto à baliza, o guarda-redes uruguaio Muslera falha a palmada na bola, e logo atrás de si o próprio defesa (portista) Fucile tenta também em vão fazer de guarda-redes para evitar a eliminação certa da equipa sul-americana. Só que nos frames seguintes, quando a bola estava prestes a ultrapassar a linha de baliza, havia ainda um último malandro uruguaio, o ponta-de-lança Luis Suarez, que afasta a bola não só com uma mão, mas com as duas. Adiah já não seria portanto o herói da proeza africana inédita. Esse encargo ficaria por conta do marcador de penáltis do Gana, Gyan, que normalmente nunca falhava. Muslera nunca conseguiria defender aquele petardo à baliza, só que a bola acerta na barra. Perdia-se o momento histórico. O destroçado já não era o expulso Luis Suarez, mas sim Gyan, que levava as mãos à cabeça e naquele momento enregelava. O estado de espírito mudava por completo para o desempate para as grandes penalidades. Olhando para o alívio eufórico dos uruguaios e para o estado de choque dos ganeses, começou-se a pressentir qual seria o final. Depois de um chuto para as nuvens do (benfiquista) uruguaio Maxi Pereira e de dois penaltis denunciados dos ganeses para as luvas de Muslera, o destino do Uruguai para as meias-finais do Mundial estava nos pés de Sebastián Abreu que, em contraste com a tremideira de Gyan aos 120+1, deu-se ao luxo de fazer um panenka. O Uruguai estava nas meias-finais. O Gana vivia um dos finais mais dramáticos da história dos Mundiais de Futebol. Nunca houve outra equipa ganesa tão boa como aquela de 2010. Além de Gyan, a seleção possuía uma linha de médios ofensivos como Asamoah, Boateng e Muntari. O sonho das meias-finais ficou adiado... ou Adiahdo. Esse sonho esteve fisicamente na cabeça dele, e mentalmente na cabeça de qualquer ganês.

 

Festas no campo e nas cidades
Quando o território do Gana integrava ainda o Império Britânico, floresce nos anos 20 um novo género, o palm-wine music, uma música muito harmoniosa, tocada com guitarras acústicas ou com o instrumento ganês seperewa, uma espécie de harpa em miniatura. O palm-wine music era tocado em longas sessões nos matos do sul do Gana, debaixo das árvores. Os músicos iam tocando enquanto lhes ofereceriam vinho de palma, era esse o cachê ao modo daquelas terras. Normalmente, longas sessões ébrias geram uma música festiva fortemente apoiada no ritmo, o que não é o caso da mais melodiosa palm-wine music, que foi também chamada de akan blues, por estar ligada ao grupo étnico dos akan. A II Guerra Mundial determinou o fim da época áurea da palm-wine music, que já gerava um mercado discográfico bastante próspero. 

Com o advento da guitarra elétrica e no período de euforia da independência do Gana em 1957, surge um movimento de bandas de baile das cidades que dão uma nova vida à música do país, que foi sendo categorizada como de highlife. ET Mensah, acompanhado pelos Tempos, lidera esse movimento ligado ao jazz e ao swing, com uma big band e ao mesmo tempo aquele estilo africano de cantar. Nana Ampadu foi outro dos cantores mais reconhecidos do movimento de grupos de guitarras elétricas, com uma abordagem que não era só lúdica, mas também politicamente interventiva.


 
Da palma na mão à boca
A gastronomia do Gana é bem diversa e reproduz a complexidade étnica do país. Muitos pratos e bebidas têm designações diferentes dentro do Estado africano, consoante a etnia. A geografia também determina essa heterogeneidade, em que o sul tem terras agrícolas mais ricas e o norte com os campos mais secos. Mas há vários elos em comum em todo o Gana, como o uso de óleo de palma nos seus cozinhados. Ao pequeno-almoço, come-se muito papas de aveia (ou porridge) com açúcar, gengibre e cravo-da-índia, tal como papas de milho e de trigo. E fazem-se vários tipos de pão, incluindo pão de canela

Embora oriundo do Senegal, tornou-se um prato nacional do Gana o jollof ou a paella ao modo africano, que é um arroz avermelhado pelo molho de tomate e que leva várias carnes e peixes. Outro prato de arroz muito popular no país é o waakye, acompanhado por feijão frade, numa mescla que até pode incluir esparguete. É um prato muito comido na rua, algo que é um hábito consolidado na sociedade ganesa. Serve-se comida em todo o lado, até mesmo em paragens de autocarro. Os chop bars são locais onde se manjam os tais snacks. Mais robusto mas também muito comido na rua é o red-red, uma feijoada acompanhada de banana frita, muita comida também por vegetarianos, tendo em conta que não se usa qualquer carne. Tal como em Angola, também se usa muito o funge, o que os ganeses chamam de fufu, que é uma pasta espessa feita à base de mandioca (e não do milho, no caso do Gana), que acompanha ensopados de cabrito ou de peixe. Parecido com o funge, come-se muito naquela zona de África o kenkey, uma massa de trigo enrolada em plantas e protegida em plásticos (tal como o funge), e que acompanhada peixe grelhado com molho apimentado. O que se vende muito na rua é igualmente o kelewele, pedacinhos de plantas fritos (muitas vezes, em forma de cubo), com o toque extra que faz toda a diferença de gengibre, pimenta e alho. 

A nível de bebidas, é muito apreciado o asana, um refresco de milho caramelizado, muitas vezes feito domesticamente e frequentemente servido em cascas de fruta, sempre com muito gelo. Não faltam bancas de rua a venderem água de coco. Extraído a partir da fibra têxtil das palmeiras, a ráfia, fermenta-se o vinho de palma, que é muito bebido no sul do Gana. Destilado do vinho de palma, vem uma espécie de gin ganês (e naquela região ocidental de África), o akpeteshie.

 

Via do elefante
A cultura do Gana destaca-se pelas roupas, como a omnipresente grafia dos akans dos símbolos adinkra, impressos em tecidos, normalmente em kente (a partir de algodão ou de seda), de cores garridas, que servem para túnicas, vestidos, lenços ou bandanas. Outro artigo muito icónico no modo de vestir dos ganeses são os smocks: camisolas largas que dificilmente passam despercebidas por causa das suas riscas coloridas.

A força da natureza está muito presente no território do país, como as savanas do Mole National Park, bem no interior do Gana, cujo solo abana com as passadas dos elefantes. Nas autorizadas caminhadas a pé ou nos safaris motorizados, os viajantes podem cruzar-se igualmente com javalis-africanos, macacos, antílopes como os cobos e ainda búfalos. A vasta floresta tropical do Kakum National Park, declarado Património da UNESCO, tem uma grande diversidade de aves como os calaus ou os papagaios-cinzentos. Há bicharada mais rara como as pequeninas e manchadas civetas e vários outras espécies de antílopes, além dos elefantes. A beleza do Parque de Kakum é exaltada pelos passadiços estreitos e vertiginosos, que permitem apreciar as vistas acima das copas das árvores. Também no interior, está um dos maiores lagos artificiais do mundo, o Lago Volta, o maior reservatório de água do mundo. Não faltam cascatas no Gana, uma das mais imponentes é a altíssima Wli Waterfalls, no leste, junto à fronteira com o Togo, que permite belíssimos banhos para quem está longe do mar. Junto ao mar, há uma longa costa brindada por praias calmas e por vilarejos piscatórios, longe dos maiores centros urbanos. Essas praias estão protegidas por palmeirais e rodeadas de lindos casebres de madeira. Para quem gosta de fazer surf, há bons spots como Cape Three Points, em ondas desertas de gente e de outras pranchas concorrentes. 

Nos traços de mão humana, encontramos as várias fases da história do Gana. Próximo da fronteira com o Burkina Faso, o Tongo Hills e o Tengzug Shrine, destaca-se uma pequena povoação centrada à volta do chefe da terra e das suas vinte mulheres. É um vilarejo de casas baixas, com os santuários e a delicada composição de pedras rochosas por perto. É também no interior que se situa a mais antiga mesquita da África Ocidental, a Mesquita de Larabanga, construída no século XV, que atrai grandes peregrinações islâmicas e que faz da cidade de Larabanga a apelidada "Meca do África Ocidental". A mesquita é pequena e invulgar, feita de adobe e a necessitar de muitos cuidados de manutenção. De um século depois, há a fortaleza colonial portuguesa de Cape Coast Castle, memória dos tempos em que eram presos os escravos e retrato da fase da exploração de ouro na tal, passe a redundância, Gold Coast. 

Esse Cape Coast Castle é um dos cenários da literatura ganesa recente, como o livro de 2016, "Rumo a Casa" ("Homegoing") de Yaa Gyasi (escritora de residência espiritual no Gana, embora a viver nos Estados Unidos), em que duas meia-irmãs se afastam há mais de duzentos anos (uma é aristocrata, outra uma escrava mandada para a América do Norte), estabelecendo-se depois duas histórias paralelas das descendências familiares de ambas. Da literatura ganesa recente, tida como uma das melhores de África, outros escritores se têm notabillizado internacionalmente, como Taiye Selasi (reconhecida sobretudo pelo livro "Ghana Must Go") e Nii Ayikwei Parkes (chamou a atenção através de "Tail of the Blue Bird"), em viagens narrativas ao âmago da cultura do Gana. Quando o país era ainda novinho, Ayi Kwei Armah torna-se um dos escritores africanos mais referenciais, logo com a ajuda da sua estreia em "The Beautyful Ones Are Not Yet Born" (de 1968) - é precisamente sobre a realidade política pós-independência de que trata essa obra.