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Viagem à Sérvia: das fanfarras à paprica

Até quando a sombra da velha Jugoslávia vai pesar sobre a sua orfã, a Sérvia? Talvez no Catar a história mude e o novo país passe finalmente à segunda fase de um Mundial.

Viagem à Sérvia: das fanfarras à papricaAssociated Press/DR
Gonçalo Palma

Neste final de outono, pode haver fanfarras à solta pelas ruas da Sérvia, como se estivessem a viver dentro de um filme de Emir Kusturica, se a seleção se encaminhar para uma boa campanha no Catar. As garrafas de rakia já estão preparadas para um brinde.

Os nossos carrascos
Depois da desagregação da Jugoslávia, a nação da sua antiga capital, a Sérvia, tem fracassado nas suas presenças no Mundial. Das quatro edições em que se conseguiu apurar, só por uma vez passou à segunda fase, já no distante ano de 1998. No Catar, a tarefa não é fácil, mas não de todo improvável, no Grupo G, encabeçado pelo poderoso Brasil e que reserva em teoria como adversário direto a Suíça. A seleção sérvia parece cada vez melhor e mais competitiva, numa tática de 3-5-2, sob o comando técnico de uma das grandes lendas do futebol jugoslavo, Dragan Stojkovic. A Sérvia tem poder de fogo para ser fatal, com uma dupla de pontas-de-lança de meter inveja: o jovem de 22 anos Vlahovic (da Juventus) e a fera Aleksandar Mitrovic (do Fulham), o autor do golo decisivo no último minuto que afastou Portugal da qualificação direta para o Mundial e colocou o país eslavo automaticamente no Catar 2022, como 1ª classificado. Junto aos pontas-de-lança está o movediço e traiçoeiro Dušan Tadic (do Ajax), um autêntico rei das assistências. A fazer todas as alas estão o esquerdino Filip Kostic (da Juventus) e o ex-benfiquista destro Andrija Zivkovic que, pela sua atual equipa PAOK de Salónica, afastou o seu antigo clube português no play-off da Liga dos Campeões há dois anos, para desespero de Jorge Jesus. No miolo do meio-campo, está a ganhar peso o promissor Ivan Ilic (no Hellas Verona), acompanhado por dois médios de categoria como Sergej Milinkovic-Savic (da Lazio) e Saša Lukic (da Torino). Na defesa, está em vigilância o bombeiro salvador Strahinja Pavlovic, que joga no eixo central dos austríacos do Red Bull Salzburg. Há um outro Milinkovic-Savic, Vanja Milinkovic-Savic, irmão do médio Sergej Milinkovic-Savic, que parece estar a ganhar à forte concorrência para guarda-redes titular da Sérvia. Há ainda dois médios a jogar na liga portuguesa que vão integrar a comitiva sérvia no Catar: o portista Grujic e o braguista Racic.

 

A farra das fanfarras

Os cinéfilos que conhecem os filmes do realizador sérvio Emir Kusturica habituaram-se às grandes bandas de metais a percorrem as ruas de forma espalhafatosa. A música do compositor bósnio Goran Bregovic é inspirada nestas grandes fanfarras da ex-Jugoslávia, em que muitos destes músicos são ciganos.
 
Mas é o kolo a dança folclórica popular na Sérvia, com vários homens de braços ligados de tal forma que parecem uma barra fixa de bonecos de matraquilhos em movimento no palco. Já o guzla é o instrumento sérvio mais característico, de uma só corda, tocada com arco. O guzla costuma acompanhar a poesia épica cantada da Sérvia.
 
O que nós chamamos de pimba, os sérvios chamam de turbo-folk: música folclórica modernizada pela eletrónica que ganhou maior força na ressaca da guerra.
 
Antes de Salvador Sobral, o último vencedor do Festival da Eurovisão a usar a língua inglesa foi precisamente uma sérvia, Marija Šerifovic, que com a canção 'Molitva' venceu a edição de 2007. Dez anos antes do famoso discurso vencedor de Sobral em que dizia a música "não é só fogo-de-artíficio, é sentimento", Marija Šerifovic parecia pensar da mesma maneira, preferindo um harmonioso coro de cinco mulheres a distrações menos musicais.   

   
Ponha imensa paprica!
Tal como a Filipa Vacondeus caricaturada por Herman (a personagem, não a própria cozinheira), os sérvios também adoram paprica, com que condimentam muitos dos seus pratos. Como no goulash, um refogado húngaro de carne de vaca, também popular na nação ex-jugoslava, e que pode levar caldo e tomar a função de sopa... Ou no cevapi, prato à base de salsichas.
 
Se nos sentarmos a uma mesa sérvia, sentimo-nos num restaurante português quando vemos aquelas entradas com presunto, queijo e azeitonas. À nossa semelhança, os sérvios adoram sopas - a pasulj é uma autêntica feijoada com caldo - e comem sarma, que é uma espécie de salsichas em couve lombarda lá do sítio. E na doçaria comem krofnes, muito semelhantes às nossas bolas de Berlim.
 
Mas também há alguns hábitos que podemos estranhar. Gostam de usar ajvar em vários pratos, que é um condimento picante (ou doce) à base de pimento vermelho. Ou o kaymak, que é um creme de nata que se pode pôr no pão ou ser utilizado para um doce ou para um prato salgado.
 
A rakia, de alto teor alcoólico (40%), é a grande bebida nacional, destilada a partir de várias frutas, sobretudo uvas. Grande parte da produção da rakia é caseira e clandestina e chega aos 50% de teor alcoólico. A rakia é usada como uma bebida de boas-vindas aos visitantes, mas também nos casamentos, onde o pai da noiva oferece um copo a cada um dos convidados, ou até depois dos funerais, em memória do falecido.

 
Ligados à eletricidade
O país de Nikola Tesla (1856-1943), o inventor dos sistemas polifásicos de energia, é também o país de Emir Kusturica, um dos mais aclamados cineastas europeus dos últimos 30 anos. Testemunhou e filmou um país a ir ao fundo, a Jugoslávia, naquela loucura fellinesca de fanfarras e de copos de rakia, como aconteceu com o filme de culto "Underground" (de 1995) que valeu a Kusturica a sua segunda Palma de Ouro de Cannes. Ivo Andric (1892-1975), Nobel da Literatura de 1961, e a poeta Desanka Maksimovic (1898-1993) foram dois dos maiores escritores sérvios do século XX. Os efeitos trágicos das duas Guerras Mundiais no país só engrandeceram a escrita destes dois observadores, cada um ao seu estilo.
 
Finda a Guerra dos Balcãs que massacrou os anos 90, a Sérvia é hoje um país visitável, repleto de estâncias de inverno em zonas montanhosas, boas para esquiar (como Kopaonik ou Zlatar), e estâncias termais, boas para descansar e apanhar ar puro (como Sokobanja). Os mosteiros ortodoxos são imponentes (como a igreja e mausoléu real de Oplenac), e há espaços arqueológicos com esculturas com mais de sete mil anos. Há ainda um vilarejo museu de casotas de madeira, Drvengard, imaginado e edificado pelo cineasta Emir Kusturica para as filmagens de "Life is a Miracle" (de 2004). A terra do imaginário de Kusturica fez a transição para a realidade e é hoje um centro artístico.
 
À semelhança de outros países dos Balcãs, também a Sérvia apresenta resultados competitivos bastantes interessantes no desporto. Novak Djokovic, que já foi nº1 do ranking mundial, é de longe o tenista sérvio com melhor palmarés internacional, tendo já ganho todos os quatro Grands Slams, com 21 troféus ao todo, seis deles do Open da Austrália e três do Wimbledon. Em 2008, a Sérvia chegou a ter também duas tenistas a liderarem o ranking mundial: Ana Ivanovic e Jelena Jankovic. Os sérvios dão-se realmente bem em passar bolas acima da rede. No voleibol, as seleções masculina e feminina têm alguma experiência em subir a pódios. A equipa de homens já foi mesmo campeã olímpica em 2000 e ganhou dois campeonatos europeus. A seleção feminina é bicampeã europeia. Mas a Sérvia tem também pontaria para encestar bolas, com cinco títulos de campeão do mundo de basquetebol, incluindo os três conquistados pela velha Jugoslávia... Os dois títulos mundiais enquanto Sérvia foram ganhos com a ajuda de Dejan Bodiroga, um dos melhores basquetebolistas europeus de sempre. Acrescente-se três títulos europeus e a presença nos pódios olímpicos. Não surpreende que a Sérvia seja o berço de algumas estrelas da NBA como Peja Stojakovic (que se destacou nos Sacramento Kings e foi campeão nos Dallas Mavericks) e Vlade Divac (com vários anos ao serviço dos Los Angeles Lakers e dos Sacramento Kings). Além do jeito para jogar a bola com a mão, os sérvios também nadar muito bem. Juntam-se os dois talentos e temos uma seleção masculina de pólo aquático que é a atual campeão olímpica, e já com três títulos mundiais (excluindo os dois outros conquistados pela Jugoslávia) e sete títulos europeus para ostentar no museu. Os sérvios metem-se bem na água mas "não metem água".