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Dá para viver para sempre na casa do Harry Styles?

A glória na estreia do músico britânico a solo em Portugal. O pedido de casamento do João à Mariana e a Altice Arena cheia de gente feliz.

Dá para viver para sempre na casa do Harry Styles? Harry Styles atua no programa "Today" da NBC, 2022 Charles Sykes/Invision/Associated Press
Silvia Mendes

Um par de horas antes do início do concerto, às portas da Altice Arena, centenas de pessoas esperavam, em linha, para entrar. Vimos umas quantas envolvidas em plumas - cada uma com a sua cor preferida, e outras que, à falta de adereços, apostaram nas purpurinas à volta dos olhos ou em peças de roupa que luziam debaixo do sol a escaldar. O tempo ia passando e a azáfama ia sendo cada vez maior. Já não faltava muito para a abertura de portas que hoje eram as portas da casa do Harry. Abriram-se, poucos minutos depois das seis da tarde, para uma festa que tão cedo não vai arredar pé da memória dos que lá estiveram. 

Casa cheia de gente e de amor, ali ao pé do Tejo, para receber, finalmente, Harry Styles, que terminou em Lisboa a fatia europeia da aguardada "Love On Tour", adiada duas vezes pelos constrangimentos pandémicos. 

Harry Styles, homem que está a fazer história na cultura pop, sabe receber. Chegou e deu a festa para milhares, sem que, por um segundo, se tivesse perdido a sensação de genuína proximidade. É um anfitrião afável, energético e tremendamente carismático. Não admira que tenha sido recebido por uma multidão de fãs eufóricos, devotos e felizes por antecipação. E felizes no final. 

Harry sabe o que anda a fazer com o talento multifacetado que transborda de si. Compõe, canta, dança à Harry Styles, toca guitarra e entrega-se. Entrega-se no palco e entrega-se aos fãs. Além de ser um artista inteiro, também é o rapaz porreiro que, se nos desse boleia, esperaria que entrássemos em casa antes de arrancar com o carro. Harry, que anda em digressão com amor, é um showman e preocupa-se.

O músico, esta noite vestido em tons rosa, levou consigo uma banda de cinco elementos, que ficou posicionada no centro do palco, em cima de uma plataforma multicolorida. O alinhamento do concerto passou pelos três álbuns que o britânico assina a solo, com incidência natural em "Harry's House", que editou em maio, e em "Fine Line" que, por causa dos sucessivos adiamentos, não teve direito a respirar, como merecia, numa digressão.

A dada altura, houve uma piscadela de olho à fase dos One Direction (que trouxe Harry Styles a Portugal pela primeira vez), um dueto com Ellie Rowsell, vocalista dos também britânicos Wolf Alice que fizeram a primeira parte do espetáculo, e algumas canções, resgatadas do disco homónimo de estreia com o qual o músico se atirou para a carreira mais solitária. Para os românticos houve um pedido de casamento, dos agora noivos João e Mariana, e - para os gulosos - houve uma ode ao pastel de natal, que Styles levantou, a meio do concerto, como se fosse um troféu. 

A funky 'Music for a Sushi Restaurant' - que abre o disco mais recente - foi a primeira a testar a forte estrutura da Altice Arena, com praticamente toda a gente aos saltos, a acompanhar Styles na cantoria e ovacionar os movimentos styleanos - já icónicos - que lhe saem organicamente do corpo. Momentos depois, com a guitarra nos braços, Harry Styles atirou-se a 'Golden', de "Fine Line", para a seguir ir buscar 'Adore You', do mesmo álbum, e que o propulsionou pela primeira vez para a língua do palco.

Styles mantém a vibração do público nos píncaros ao longo de todo o concerto. Vai saudando, com simpatia natural, os milhares que tem aos pés. Acena, sorri, olha com profundidade, agradece, com a mão encostada ao peito, e manda beijinhos pelo ar na expectativa que cheguem a quem os apanhar. "Boa noite, Lisboa", disse, com entusiasmo, ao público. "É o último concerto", acrescentou antes de começar a fazer um exercício coletivo de conexão. Pediu a todos que se declarassem à pessoa que estava ao lado, fosse um estranho ou alguém do círculo próximo de afetos. "Agora, digam 'amo-te' a vocês próprios e divirtam-se", concluiu, arrancando mais uma leva de gritos e aplausos.     

'Daylight', nova passagem pelo disco mais recente, devolveu Harry Styles à guitarra e 'Cinema', também de "Harry's House", devolveu-o à língua de palco - onde podia ficar mais perto das pessoas que estavam na plateia e que se moviam, agitadas, sempre que este se aproximava.

'Keep Driving' antecedeu à preciosa balada 'Matilda' que transformou a arena lisboeta numa sala cintilante, com as luzes dos telemóveis erguidas e a balançar, enquanto Harry cantava aquela beleza acústica ajudado por duas vozes femininas. Seguiu-se 'Boyfriends' - mais uma acalmia à guitarra na frente do palco. Na sua versão acústica, Harry Styles emociona e fá-lo sem truques. Ou talvez use um truque infalível: o de ter substância. Mais do que uma substância até. A substância artística e a substância humana, mas quando a humanidade está nos seus melhores dias.  

'Lights Up' e 'Satellite' voltaram a meter Harry Styles a correr, aos saltos, e a rodopiar sobre si próprio. 'Canyon Moon' foi a que veio antes do tal pedido de casamento que, além de impressionar a namorada, impressionou toda a gente (Harry Styles incluído que ficou a olhar para aquilo tão expectante quanto nós). É que pedido não se esgotou no simples atrevimento romântico que, só por si, seria uma coisa bonita de se ver. O noivo - o João - não se limitou a fazer a pergunta, a segurar o microfone, que entretanto Styles lhe tinha passado para mão, e à frente de milhares de testemunhas que seguiam o momento pelo ecrã. Não. O João foi mais longe. Homem afinado e convicto cantou o clássico 'Can't Help Falling In Love', do rei Elvis, para a noiva. Cantou à frente do Harry Styles, da banda do Harry Styles, do público e dos Wolf Alice (que estavam na plateia a ver o concerto). João, mereces tudo. Que sejam muito felizes. 

'Treat People With Kindness', que mereceu a formação espontânea do popular comboio na plateia - com os Wolf Alice lá metidos - foi ouvida antes de uma passagem por 'What Makes You Beautiful' (dos One Direction). 'Late Night Talking', 'Love Of My Life' e 'Fine Line' ficaram para antes do encore que, talvez por ser a última data da tour europeia, chegou com uma sensação honesta de missão cumprida e com uma lista de agradecimentos. Harry Styles agradeceu a todos os que suaram para levar para a frente a digressão, com reforço no papel dos técnicos que trabalham nos bastidores, e aos que o têm seguido e apoiado no trilho que tem feito. Os fãs. 

O dançável e açucarado 'Watermelon Sugar' e o frenético 'As It Was' - que revisita as glórias da synth pop - não faltaram à chamada. O suave 'No Hard Feelings', versão dos Wolf Alice, foi cantada em dueto com Ellie Rowsell também como forma de agradecimento pela partilha na estrada.  

A assombrosa 'Sign of the Times', que Styles cantou envolvido na bandeira da Ucrânia, e 'Kiwi, esta guardada para o final, destaparam por completo a alma rockeira do artista britânico. Como escreveu um dia a Rolling Stone, Harry Styles está na pop com "rock at heart" - como quem diz com o rock no âmago.

Foi um privilégio estar em casa do Harry. Uma moradia - caiada com cores alegres - que tem tanto de expansiva como de introspetiva. Está bem cimentada, com baldes de talento. É sustentada por uma sensibilidade rara e foi erguida a paredes meias com as melhores influências. A casa do Harry tem vista para um futuro glorioso