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Alive: The Strokes e um vocalista em auto-destruição

Cabeças-de-cartaz deram um concerto estranho. Mas a música ainda faz magia.

Alive: The Strokes e um vocalista em auto-destruição
Gonçalo Palma

Será que os Strokes ainda gostam de si próprios? Ou melhor, será que Julilan Casablancas ainda gosta dos Strokes? Estas são questões que ficam muito à vista logo após a atuação desconfortável e estranha dada na primeira noite da edição deste ano no Alive. Só quanto ao público, essa adoração dos Strokes continua inquestionável. 

Por um conjunto de más práticas repetidas, a atual digressão dos Strokes começa a lembrar uma fatídica turné dos Stone Roses em 1996, uma banda de topo que parecia desfazer-se como um dominó - que os portugueses puderam testemunhar numa frouxa atuação em Vilar de Mouros. 

Tal como no Festival de Roskilde, os Strokes voltam a atrasar-se bastante no início do espetáculo - 19 minutos, desta vez. Há estranhas interrupções de músicas. E o vocalista Julian Casablancas continua um kamikaze social, prejudicando-se com tanto falatório imperceptível, tornando-se um embaraço, sobretudo para os seus colegas de banda.

Julian Casablancas está atrás de uns óculos escuros escuros, de colete militar, de fios prateados e de luva na mão direita. Apoia-se no microfone, canta as suas coisas como tem que cumprir uma obrigação e vira-se para beber mais um pouco. "You guys are great" é dito sem grande convicção. Quando eleva repentinamente a voz, e clama “Lisbôua” como “so beautiful” e que “é um prazer estar aqui”, em tom exclamativo, soa jocoso. Julian Casablancas parece viver num poço sem fundo de contradições, na sua função de estrela de rock & roll, gozando com os seus clichés. Parece não querer não estar ali.

E não se cala. Ora refila que "estamos a tocar a mesma canção há 20 anos", ou se desdobra num estranho pedido de desculpas pelo cancelamento de Clairo e corrige-se - "não foi o concerto que foi cancelado, foi o voo, a culpa não é dela".  

Cada minuto que passa é um embaraço diferente. Fala no meio das músicas e parece um repórter de palco em direto, a fazer pequenas entrevistas aos seus músicos de banda, nomeadamente o guitarrista Albert Hammond Jr, que no final começa a perder paciência, com a insistência em perguntas imperceptíveis e em algumas private jokes

Julian Casablancas não consegue calar-se em cada segundo dos intervalos entre as músicas. Às tantas, só queremos que as guitarras se voltem a ouvir e aí o mundo torna-se logo um paraíso, sobretudo no inferno que os Strokes parecem estar a viver. Às tantas, o próprio Julian Casablancas cansa-se de si próprio: "Prometi não falar. Toquem!" 

Assim que a banda começa a tocar, é um fábrica de riffs contagiosos a operar. A multidão torna-se numa imensa claque de futebol. Julian Casablancas pode ser o patinho feio amuado e desenquadrado, mas tem consigo uma das melhores bandas do mundo, com um pingue-pongue orelhudo de guitarras entre Albert Hammond Jr e Nick Valensi que é uma preciosidade rara no rock deste milénio.

Depois de terem entrado em palco ao som de um breve épico futurista, surpreenderam os fãs com um dos temas que os revelou ao mundo, 'Is This It'. Num alinhamento em regime greatest hits, que deu pouca atenção aos temas do último álbum, "The New Abnormal", os Strokes sacaram de outros clássicos do início do século, como 'New York City Cops', ou a sua forma de fazer punk, mas com uma habilidade instrumental que não dá para esconder, ou 'Automatic Stop'. 
  
Apesar do falatório de Casablancas, a magia musical está lá mal os Strokes vão pela história fora: 'Reptilia', 'Someday', 'What Ever Happened?' ou, no encore, 'You Only Live Once' ou 'Juicebox' encorporaram um concerto que fez sorrir muita gente, apesas dos humores de Julian Casablancas.

 

No outro extremo do recinto, no Palco Heineken, outro quinteto tornou-se um acontecimento: os irlandeses Fontaines D.C. Um nervosinho miudinho agitava a multidão que enchia o hangar, para ver uma banda que nos últimos três anos nos deu três álbuns que renovam a fé no rock. E foi numa divisão salomónica entre essas três obras - "Dogrel", "A Hero's Death" e o recente "Skinty Fia" - que se fez o alinhamento de uma atuação que se tornou gloriosa, numa memorável estreia ao vivo em Portugal.

De camisola de alças largajona e caseira e umas calças mais formais (um contraste giro), o vocalista Grian Chatten é o centro gravitacional da banda, com os outros músicos a remeterem-se a uma discrição de shoegazers. Chatten anda numa azáfama de uma ponta do palco à outra, ansioso pela próxima música, conferindo uma tensão que é bem-vinda a um concerto que pede neura. Gosta de bater com o suporte no microfone no chão do palco, como uma velhota que bate com uma vara quando quer chamar alguém. Mas Grian Chatten, quando bate com o suporte de microfone no chão, está só a avisar que vem aí mais rock durão. 

Quando canta como quem declama, parece um cão zangado, abanando a cabeça e as gotas de suor. Ao se desentender com o auricular, continuou a cantar. Na sua rudeza prática, não tem tempo a perder, e sempre que não precisa da pandeireta atira-a ao chão e cospe mais uma vez, antes de disparar mais um conjunto de versos com a sonoridade irlandesa do sotaque.

A devoção no hangar foi grande, onde estavam muito mais do que 40º. As moshes não estavam para brincadeiras, esvaziaram um dos espaços junto ao palco e quase que desfizeram a harmonia de alguns casais, sobretudo a paciência dos membros femininos, perante aquela energia masculina e bruta.

 

Cuca Roseta deu dois concertos no Fado Café que, como vem acontecendo, deixou muita gente de fora, tão sobrepovoado que fica o espaço. A cantora nacional sublinhou o facto de ser a primeira vez que atua no Fado Café do NOS Alive. Acompanhada por um quarteto que incluía um baterista, Roseta seguiu trilhos pisados já por Amália, ao cantar o seu clássico dos anos 50 'Barco Negro' e temas do folclore nacional que passaram pela voz da rainha do fado, como 'Tiro Liro Liro' ou 'Rosinha da Serra D’Arga'.

Stromae, um dos nomes mais procurados do dia inicial do Alive, fechou de madrugada o Palco NOS (o palco maior). Experimentou algumas palavras em português e seguiu o alinhamento com que se tem apresentado neste digressão, tendo interpretado algumas das suas músicas mais célebres como 'Papaoutai', 'Santé' (com o som do cavaquinho) e, no encore, 'Alors on danse'.