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A leveza de Mallu Magalhães, a festa dos Jungle e a boleia sónica dos War On Drugs

O palco principal da 14ª edição do NOS Alive abriu com um sopro de bonança, uma festarola funk e uma viagem pelas paisagens sonoras da América.

A leveza de Mallu Magalhães, a festa dos Jungle e a boleia sónica dos War On Drugs Rúben Viegas
Silvia Mendes

O palco principal foi inaugurado com a leveza e o sotaque adocicado da brasileira Mallu Magalhães, que chegou, em boa hora, com o luminoso "Esperança", disco cheio de bons sentimentos e no qual a artista cruza uma série influências que vão desde a inevitável música popular brasileira ao jazz ou ao surf rock. É o álbum mais recente da cantora que, durante os intermitentes confinamentos, esteve engavetado, à espera que os ares de bonança soprassem nas nossas vidas então suspensas. O disco, feito antes da pandemia e que esteve para se chamar "Felicidades", saiu em junho de 2021 e com um nome mais ajustado ao recente trauma pandémico. 

Ver Mallu Magalhães ao vivo é, acima de tudo, uma vivência apaziguadora que nos ajuda a exercitar a sensação de esperança. Do início ao fim do concerto, a cantora e compositora entregou-se a cada uma das canções, sete das quais do novo registo, com a mesma plenitude e alegria. Delicada, sorridente e otimista. 

Com a guitarra nos braços e ladeada por uma banda de quatro músicos, com quem ia trocando sorrisos cúmplices, a cantora paulista, que claramente sabe preservar o lado solar da vida, partilhou algum do seu ouro criativo, ao dar um pequeno passeio pelo catálogo discográfico que assina e uma dupla visita ao projeto Banda do Mar que partilha com o companheiro de vida, o músico Marcelo Camelo, e com Fred Pinto Ferreira. 

A "Esperança" foi buscar 'América Latina', 'Deixa Menina', 'Barcelona', 'Cena de Cinema', 'Quero Quero', 'Enjoy the Ride', 'As Coisas' e 'I'm OK'.

Já o álbum "Pitanga", de 2011, foi lembrado com os bem acolhidos 'Sambinha Bom' e 'Velha Louca'. "Vem", que a cantora editou em 2017, mereceu uma passagem com 'Será que Um Dia'.  'Mais Ninguém' e 'Muitos Chocolates', da Banda do Mar, ficaram bem guardadas para o final do concerto que foi tão adocicado com o sotaque de Mallu.

 

Se Mallu Magalhães foi uma lufada de delicadeza, os Jungle foram a festa. Os britânicos entraram no palco por volta das 19h30 para arrastar a multidão para uma pista de dança a céu aberto e com o sol ainda quente. O que se ouviu a partir daí foi uma explosão exuberante de disco, funk e até de laivos de rock que - certamente com pena de muitos que ali estavam - foi concentrada num alinhamento de uma hora.

A festarola foi uma cortesia da dupla Josh Lloyd-Watson e Tom McFarland, os amigalhaços que "comandam" a troupe de cinco músicos. Simpáticos, interventivos e irrequietos encetaram o alinhamento com 'Keep Moving', que se soltou do mais recente "Loving In Stereo" (2021). Soltou-se a música e soltaram-se os falsetes reminiscentes do universo Bee Gees, que foi "oficialmente" lembrado pela dupla quando, mais à frente, tocou o aclamado 'Casio'.  

'All Of The Time', do último disco, foi a segunda a ser oferecida - sucessão que se deu sem grandes demoras. 'The Heat', faixa que abre o álbum homónimo com que os Jungle se estrearam em 2014, 'Beat 54 (All Good Now)', 'Problemz', 'Bonnie Hill' e 'Happy Man' vieram a seguir.

"Ouvi dizer que os portugueses são os melhores dançarinos do mundo", disse às tantas Josh Lloyd-Watson que esteve permanentemente a puxar pelo público, embora não precisasse. 'Good Times', 'Time' ou 'What D'You Know About Me' também foram ouvidas (e dançadas) em Algés. O final foi ao som de 'Busy Earnin' - mais uma que saiu disparada do primeiro disco.

 

A pista de dança, criada de improviso pelos energéticos Jungle, voltou à condição de palco para acolher os norte-americanos War On Drugs. A fusão festiva da eletrónica com o disco sound e o funk foi substituída pelo rock intuitivo do grupo de Filadélfia e por uma sensação de viagem, feita ao volante das construções sónicas de Adam Granduciel, o homem, hoje de óculos escuros e sempre meticuloso, que encabeça criativamente o coletivo e que gosta de se demorar no estúdio a esculpir, com cuidado, cada uma das canções.

Passar da euforia para a proposta menos exuberante (mas igualmente rica) dos War On Drugs podia ter arrefecido irremediavelmente o público, mas a verdade é que o rock n' roll dos norte-americanos voltou a aquecer, a uma boa temperatura, a outrora pista de dança.

 

Fomos vendo, absorvendo e fomos indo. Fomos, a diferentes velocidades, pelas paisagens da canção americana e por vários lugares de influência, habitados por entidades como Bob Dylan ou Bruce Springsteen. 'Old Skin', do recente "I Don't Live Here Anymore", abriu o concerto que foi crescendo até culminar numa espécie de apoteose introspetiva. "Olá, pessoal. É um prazer estar aqui", disse Granduciel antes de se atirar a 'Pain' e às proezas na guitarra.

A viagem prosseguiu com uma mudança acima. Os sintetizadores abriram caminho à mais antiga 'Red Eyes', imediatamente reconhecida por quem estava à frente do palco. 'I Don't Wanna Wait' e 'Victim' vieram antes da profunda, longa e bem manobrada 'Strangest Thing', que os War On Drugs foram buscar ao disco "A Deeper Understanding".

'Harmonia's Dream', 'Under The Pressure' e 'I Don't Live Here Anymore' formaram a tríade com a qual o grupo de Adam Granduciel, que não se esqueceu de dizer que adora Lisboa, fechou o concerto. E assim chegámos ao destino. Próxima paragem: The Strokes.