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Dua Lipa: educação física na Altice Arena

Até a lagosta insuflável dançou. Foi uma noite em que ninguém ficou quieto.

Dua Lipa: educação física na Altice Arena
Gonçalo Palma

Nesta segunda-feira, viveu-se uma noite típica da era pós-covid, com uma Altice Arena cheiíssima e puxada à lotação máxima, para ver o grande espectáculo pop do momento, sob a responsabilidade de Dua Lipa. 
 
"So come on, let's get physical": quando Dua Lipa surgiu no palco a cantar versos como este, essas eram mesmo frases de ordem para todos, sobretudo para ela própria, que nunca esteve menos que extraordinária. O arranque com o tal 'Physical' foi a rampa de lançamento perfeita para um espetáculo de alta cilindrada de hora e meia. Logo depois de uma apresentação dos créditos dos participantes (incluindo os dançarinos) no ecrã semicircular por trás do palco, vemo-nos perante uma coreografia de dez dançarinos com a precisão de uma parada militar de um grande exército, mas que se ondulam com Dua Lipa numa barra horizontal de ballet.    
 
Com luvas de cotovelo à Marilyn Monroe e um vestido espartilhado que reforça o bonito desenho do seu corpo esguio, Dua Lipa é cortejada ao longo do corredor central do palco por seis dançarinas que faziam ginástica rítmica com guarda-chuvas, quando cantava 'New Rules', um dos pouquíssimos temas do concerto que não faz parte do álbum "Future Nostalgia". Os brilharetes físicos horizontalizam-se em 'Love Again', com a cantora inglesa e as suas dançarinas a roçarem-se no chão, enquanto circula em loop o sample do clássico dos anos 1930 'My Woman'. O falso final da canção e a sua ressurreição exacerbam ainda mais as emoções do público, já de si muito elevadas  
 
O ato 1º está qualquer coisa mas Dua Lipa quer mais e, por isso, volta acelerar as almas em 'Cool', a fazer lembrar a pop festiva de Michael Jackson. Poderia dizer-se que só faltou mesmo o moondance, mas isso foi feito por intermédio de rodas, por uma dupla de patinadores que fizeram acrobacias e movimentos giratórios no chão como se fossem b-boys de uma rua do Bronx. Depois de uma estranha forma de se fazer ginástica rítmica, assistia-se em 'Cool' a uma estranha forma de se fazer patinagem artística. Os níveis físicos não paravam de extremar sempre mais um pouco. Quando canta 'Pretty Please', Dua Lipa simula bravamente os movimentos sexuais com o suporte de microfone, como se fosse o seu amante. Em 'Break My Heart', Dua Lipa só cantou porque é uma profissional rigorosa, porque podia ceder à tentação sabática de poupar a voz, tão disponível que o generoso público estava para cantar, a conseguir acompanhar o ritmo alto que o groove impunha. 
 
Dua Lipa faz depois um grande agradecimento ao acolhimento caloroso do público, salientando que aquele era o 60° concerto da Future Nostalgia Tour. Tão feliz que Dua Lipa estava a dizer aquilo, dois anos e três meses depois de ter chorado o pior timing do mundo quando lançou (no fatídico mês de março de 2020, perante o alarme da pandemia) quase em falso o álbum "Future Nostalgia". Mas o quase faz toda a diferença. Impôs-se o quase e depois impôs-se "Future Nostalgia", como se bem notou nesta noite.  
 
A finalizar o 1º ato, Dua Lipa interpreta o mais antigo 'Be the One' enquanto sacode os cabelos para trás das costas com uma pinta glamourosa - Dua Lipa é também princesa da pop nos detalhes.  Depois, sai do palco com a sua dezena de dançarinos bem colados, como se fossem uma centopeia, emprestando a frente de palco ao coro de quatro cantoras para os tais 15 minutos de fama, que na verdade deviam ter sido 15 segundos.  
 
O 2º ato do show teve a excentricidade cliché da pop, com a música a aligeirar, uma lagosta gigante e insuflável a dançar em 'We're Good', uma chuva de cerejas a animar o ecrã central em 'Good In Bed' e nuvens de fumo durante 'Fever', com Dua Lipa a trocar carícias faciais com duas das suas dançarinas. No tema muito bem recebido 'Boys Will Be Boys', forma-se um planeta vermelho atrás de Dua Lipa, enquanto o amontoado de cabeças da plateia e dos balcões se tornava num tapete estrelado de telemóveis no ar.  
 
O segundo intervalo entre atos serviu para mais uns números de dança, incluindo os patinadores, e para outra ida de Dua Lipa ao vestiário para outra muda de roupa tão rápida quanto uma passagem de um bólide de Fórmula 1 pelas boxes.  
 
No início do 3º ato, o regresso faz-se debaixo de uma plataforma de discoteca, no quadrado da pista na ponta da língua de palco, onde Dua Lipa dança e salta com os seus dançarinos como se não houvesse amanhã, formando uma roda giratória de braços dados, enquanto balões são lançados ao ar de forma épica, como se fosse a festa de aniversário de um filho de um milionário.  
 
Agora de mini-saia e top, o ecrã gigante apanha-lhe a face do rosto humedecido de suor, quando canta 'Hallucinate', antes do momento agregador de 'Cold Heart', a versão do tema de Elton John, com Dua Lipa a apertar-se junto das suas cantoras e dançarinos, dando-se uma grandessíssima ovação às bandeiras das cores de arco-íris do LGBT que se erguiam em palco, ou a Elton John a cantar no ecrã central, ou talvez aos dois... Ou talvez por uma razão qualquer mais inexplicável que só a palavra alegria poderá traduzir.  
 
Já no 4º ato, a tal plataforma luminosa que desce do teto vai agora aterrando com a mesma cerimónia vagarosa de um ovni em câmara lenta hollywwodesca. As bolas de espelhos transformam-se em balões luminosos e em candeeiros. E estamos já num mundo metamorfoseado e sci-fi. É a cantar 'Levitating' que Dua Lipa se enfia numa plataforma ainda mais pequena que sobrevoa o público da plateia, com cordas mas sem balão. Além de saber dançar, Dua Lipa não tem medo das alturas. E levita. Ouvir o funk mais apopalhado e eletrónico de 'Levitating' é como se os Daft Punk ainda existissem e tivessem convidado Dua Lipa e Jay Kay dos Jamiroquai.  
 
Dua Lipa começa o encore como uma artista a solo no sentido literal do termo, sozinha na ponta da língua do palco e a fazer headbanging enquanto canta 'Future Nostalgia', antes de terminar o espectáculo com 'Don't Start Now' e com mais um big-bang de alegria e de cores, com Dua Lipa, os seus dançarinos, as suas quatro cantoras e os seus quatro instrumentistas a ocuparem todas as plataformas de palco, avivadas de cores e luzes.   
 
Simpática, enérgica, profissional, engraçada. Dua Lipa esteve numa daquelas noites em que tinha as qualidades todas, com os supremos poderes de uma deusa grega.  
 
Se em 1990 era a altura certa para ver Madonna e a sua 'Vogue', em 2022 a pessoa certa da pop a ver é Dua Lipa. A oportunidade na pop para se ter estado no local e no momento certos foi nesta noite de 6 de junho, na Altice Arena, em Lisboa. Guardemos todas as fotos e vídeos que tirámos, porque foi uma noite inesquecível. Tão cedo não haverá outra igual na pop.