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Andy Fletcher, o enigma dos Depeche Mode e o seu elo

Ele era o manager em palco e o "paizinho" que cuidava das contas.

Andy Fletcher, o enigma dos Depeche Mode e o seu elo Associated Press - arquivo de 2003
Gonçalo Palma

No final dos anos 80, os Depeche Mode eram uma estrutura altamente profissional que tinha já as tarefas bem demarcadas, entre os quatro membros. Martin Gore escrevia as canções, Dave Gahan cantava-as, Alan Wilder era o verdadeiro músico que se certificava de todos os pormenores técnicos em palco... e Andy Fletcher... O que fazia Andy Fletcher?  
 
Foi essa a interrogação a que se colocaram os Orchestral Manoeuvres in the Dark (OMD), quando abriram para os Depeche Mode na célebre digressão americana de 1988 que culminou no concerto no estádio Rose Bowl, em Pasadena, diante de 100 mil pessoas e que está imortalizada no documentário "101" (e no respectivo álbum ao vivo), de D. A. Pennebaker. 

 
Os OMD já conheciam bem os Depeche Mode desde o início dos anos 80. Ambas as bandas foram nomes fortes da synth britannia do início dos anos 80, empurradas por êxitos como 'Enola Gay' ou 'Souvenir' (no caso dos OMD) ou 'Just Can't Get Enough' (falando dos Depeche Mode). Mas o reencontro no final dos anos 80 na tal digressão americana que durou semanas a fio, colocou-os num contraste entre pólos opostos, entre uma banda bem implantada no mercado americano, que era cabeça-de-cartaz da digressão, que podia viajar de avião privado de cidade para cidade e que fazia cachês chorudos a cada concerto, os cada vez mais ricos Depeche Mode, e outra banda com palmarés mas com pouca visibilidade no outro lado do Atlântico, uma necessidade de percorrer a América num mini-autocarro e um número de custos superior ao cachê de artista de primeira parte, os empobrecidos Orchestral Manoeuvres in the Dark. 
 
O choque de realidades não provocava acrimónia, apenas competição. Os dois membros dos OMD, o baixista e vocalista exuberante Andy McCluskey e o teclista discreto Paul Humphreys, ficavam a ver os espetáculos dos Depeche Mode, depois das suas suadas atuações. Como músicos, topavam tudo melhor que ninguém, com um dilema em crescendo: "o que raio faz Andy Fletcher?" Com os teclados à sua frente, Andy Fletcher tinha movimentos robóticos e kraftwerkianos em palco, dando pequenas voltas e agitando os braços e batendo palmas na direção do público. Não se descobria qualquer intervenção musical relevante sua nos Depeche Mode: as suas vocalizações estavam reduzidas ao mínimo e a sua interferência instrumental era praticamente nula. 
 
A meio dessa digressão americana de 1988, "cai a ficha" na cabeça do intrigado Andy McCluskey que descobre qual era a função de Andy Fletcher: ele era o patrão dos Depeche Mode. Era Andy Fletcher que se ocupava dos assuntos empresariais da milionária banda. Tal como lembra num vídeo dos OMD, para Andy McCluskey, o que Fletcher tinha à sua frente em palco não eram sintetizadores, mas sim "uma caixa registadora", cada gesto seu a bater palmas para o público era no fundo a celebração de mais um encaixe financeiro naquela noite para os Depeche Mode.     
 
O próprio Andrew Fletcher brincava com as suas funções. Como dizia no documentário "101", "sou o que anda a cirandar" nos Depeche Mode. Fletch, como lhe chamavam os seus companheiros de banda, podia ser gozão e o brincalhão nas entrevistas. Mas fora delas, era o homem do escritório dos Depeche Mode, o telefone era a sua máquina, não os sintetizadores. Andrew Fletcher era o empresário em palco, próximo da ação de glória, revirando os padrões funcionais numa banda de rock.  
 
Andy Fletcher podia ser o único membro dos Depeche Mode (dos cinco efectivos na história da banda) sem créditos autorais nas canções e o único que não cantava nas gravações, salvo raríssimas canções como a grande música de gospel da banda, 'Condemnation'. Mas era ele o porta-voz dos Depeche Mode, o que dava as notícias em primeira mão à imprensa e ao público. E era ele (mais como empresário do que como músico) quem perguntava por vezes aos jornalistas que tema deveria ser o próximo single do álbum que estavam a lançar. 
 
Andrew Fletcher faz parte dos fundadores dos Depeche Mode, tratando da retaguarda que permitiu a formação inglesa tornar-se pioneira em chegar ao estatuto de banda de estádio sem usar uma única guitarra elétrica. A sua morte aos 60 anos é das mais inesperadas este ano.