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Tiago Nacarato: a felicidade andou à solta no Capitólio

O músico portuense convidou MARO para a festa. Mimi Froes esteve ao leme na primeira parte.

Tiago Nacarato: a felicidade andou à solta no Capitólio Rúben Viegas
Silvia Mendes

Noite de sexta-feira e a cidade de Lisboa, bem quente, a borbulhar de vida. Vida essa que também borbulhou numa das ruas mais escondidas que circundam a Avenida da Liberdade. A vida - ou talvez o melhor que esta tem - borbulhou no Capitólio - a sala privilegiada que acolheu a festa de Tiago Nacarato e dos seus seis músicos. MARO foi convidada e levou 'Saudade, Saudade', a canção com a qual representou Portugal há uma semana na final da Eurovisão. Mimi Froes encantou na abertura.

Foi então uma sensação de vida em festa que se soltou esta noite. Entre ritmos quentes e mais arrebitados, momentos de dança ondulante ou proezas nos solos à guitarra ou ao saxofone, a vida também se soltou nas confidências feitas pelo músico, em português desdobrado em dois sotaques, e nos sorrisos largos dos que estiveram no palco e na plateia. E houve vida, embora mais quieta, no sossego introspetivo das baladas acústicas. 

A cantora Mimi Froes, dona de uma sensibilidade vocal e expressiva a lembrar as grandes senhoras da folk, fez a primeira parte, com passagem por um punhado de canções que o público, timidamente, ia entoando. Acompanhada ao piano pelo cúmplice Manuel Oliveira, a cantora e compositora entregou a voz a uma série de cantigas suas, que só pecaram por serem poucas. Como nos contou, estava ali para fazer o aquecimento do rapaz que viria a seguir. "Viemos aquecer o trono", disse, com graça, ao público que conquistou, sem esforço e de uma assentada, assim que encetou o primeiro tema, com a guitarra nos braços. Cantou 'E a Cantar', 'Sonhar', 'Declarações de Meia Noite', 'Outono', 'Multidão' e 'Não Faz Mal Não Estar Bem'.   

 

Cerca de dez minutos depois das dez da noite, Tiago Nacarato subiu ao palco para se entregar, ao vivo e - como disse - num mundo que prefere que seja a cores, ao disco "Peito Aberto" que editou a 13 de maio. Acabadinho de chegar do Brasil, onde se revigorou junto das origens para um novo ciclo no palco, o músico portuense mostrou as novas canções numa atmosfera de festa auspiciosa para algo que está por chegar. Não sabemos bem o que será, mas parece ser bom.

'Andorinha', a canção que abre o novo álbum, também abriu o concerto com a solenidade do registo a capella a entrelaçar-se com as reminiscências do patrimonial cante alentejano. Seguiram-se as também frescas 'Aprendiz' e 'Preparar o Carnaval', ambas do disco mais recente, com Tiago Nacarato no centro do palco rodeado por uma mão-cheia de músicos e instrumentos: dois sets de percussão, duas guitarras, um baixo e as teclas.

"Façam barulhoooooo", gritou à plateia antes de se demorar - com pompa, circunstância e excitação - a apresentar os agitados companheiros de palco. 'Grão' e as recentes 'Paz Interior' e 'Cantando Eu Sou' ouviram-se depois. O alinhamento, embora tenha sido feito para apresentar "Peito Aberto", não ficou fechado na novidade. As canções mais rodadas também saltaram para o palco. 

"Vocês estão demais hoje", exclamou Tiago Nacarato a dada altura. "Vamos acalmar um pouco. O meu coração não aguenta tanta emoção. Obrigado por terem vindo a esta festa. Têm sido tempos complicados. Está na altura de extravasar. É hora recebermos a aprendizagem destes tempos. Temos de viver com mais empatia. Acredito que o mundo é bonito", continuou o músico fortemente embalado pela alegria de estar em cima do palco, com vista para uma casa cheia. "Temos de encontrar as respostas dentro de nós", acrescentou, como que a querer partilhar, com urgência, a fórmula da felicidade com quem ali estava. É que o novo disco - sucessor de "Lugar Comum" (2019) - chegou para ser partilhado sem restrições, em liberdade e sem espaços entre nós. De peito aberto, chegou, em boa hora, para ser celebrado como um ponto de encontro de ritmos e culturas mas também como um exercício de reflexão. Com ponderação no pensamento e balanço na anca.


 
'Onde Anda Você', que se consagrou na voz de Vinicius de Moraes e Toquinho, veio a seguir - nesta altura com Tiago Nacarato sozinho no palco mas suportado pelo coro maior da sala - o do público. "Adoro a minha banda mas também é bom tocar sozinho", confidenciou. 'O Mundo É um Moinho' foi dedicada ao Rio de Janeiro e 'Areia Fina' foi tocada com a banda de volta à roda da festa. A declaração de amor 'Matriz' - dedicada por um Nacarato apaixonado à namorada Sandra - antecedeu 'Filosofia' que mereceu uma desforra de guitarras e um solo bem elaborado de saxofone.

"Chegou o clímax do concerto", avisou o músico. Tiago Nacarato só precisou de dizer isto para se começar a ouvir na sala o refrão de 'Saudade, Saudade', a canção que MARO levou a Turim. Foi nessa altura que a cantora, que estava algures escondida atrás das cortinas, entrou no palco. MARO entrou - doce, saltitante e grata - e, sem surpresa, foi recebida debaixo de uma chuvada de aplausos.

Os dois músicos, acompanhados ao piano, entregaram a voz a uma versão dos brasileiros 5 a Seco, amigos de ambos. 'Pensando Bem' foi escutada em silêncio absoluto e foi a ponte para as emoções de 'Peito Aberto' também cantada pelos dois. É claro que MARO não se foi embora sem cantar 'Saudade, Saudade' - uma das mais aguardadas ou não estivesse ainda a palpitar no coração nacional. O Capitólio transformou-se no céu estrelado que vimos em Turim e MARO abraçou-nos outra vez com a serenidade e o cuidado que transporta na voz.

'On My Own' - que o músico fez questão de apresentar com um tutorial prévio para que ninguém se enganasse na letra - acabou com uma revolta final dos instrumentos e esticou-se para honrar o infalível som do rock & roll que fez a passagem para o encore. 

A balada 'Tempo' - com o piano a abrir caminho à voz de Nacarato - foi a primeira das três que ficaram guardadas para a despedida. 'Só Me Apetece Dançar' e uma reprise de 'Grão' fecharam a festa que foi digna de se estender pela noite inteira - se isso fosse possível. "Estou mesmo muito feliz", exclamou Tiago Nacarato antes do agradecimento final, com todos os músicos no palco a fazer a vénia do costume.