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Dino D' Santiago: "as pessoas são únicas, não números"

Álbum novo, "Badiu", sai hoje. Entrevista àquele que é um dos nomes cimeiros da música deste tempo.

Dino D' Santiago: "as pessoas são únicas, não números" Daryan Dornelles (cortesia Everything Is New)
Gonçalo Palma

Dino D' Santiago tem sido uma das figuras maiores a empurrar a tradição musical de Cabo Verde para o futuro que, no fundo, sempre mirou. O músico algarvio de vivência lisboeta é perspicaz na compreensão da música dos seus antepassados cabo-verdianos, através de uma mescla crioula com as várias eletrónicas.   
 
A partir de hoje, há mais um álbum de Dino D' Santiago, de nome Badiu (termo que surgiu para definir os escravos foragidos nas montanhas de Cabo Verde), que é mais uma viagem mental profunda ao arquipélago da África Ocidental, em especial à ilha de Santiago, com as impressões digitais muito próprias do cantor.

Dino D' Santiago tem também o espírito livre e limpo para ser um mensageiro social e humano. Ouvi-lo é como um livro a ser lido. Foi o que voltou a acontecer, nesta entrevista mobilizada pelo álbum Badiu. 
 
O berço deste novo álbum é o do teu filho? Nascendo o teu filho, nasceu este álbum? 
Vou ser muito franco: não teria nascido este álbum. ?O berço deste novo álbum é o do? meu ?filho?. Não poderia haver melhor maneira forma de introduzir. Se ele não tivesse nascido, eu não teria feito este disco. Se calhar, teria ido para estúdio, mas com outras músicas. Estou sempre em estúdio, nunca paro, mas talvez não tivesse feito um álbum tão emergente e tão urgente. Enquanto estás a ver lá para fora um mundo a ruir por causa do aquecimento global e de países em contantes guerras. Há situações que me tocam muito e que marcam o disco como a fome das crianças no Iémen, o êxodo gigante do Afeganistão, as vítimas de flagelos sociais que continuam a fugir do norte de África. E depois olha-se para o outro lado, para países como o Brasil, a Venezuela ou a fronteira entre o México e os Estados Unidos. Tudo isso está refletido nesta minha forma de olhar. Em contraste tenho no berço o meu filho, que é a esperança de um mundo regenerado e novo. É o foco que me faz estar quatro semanas numa casa, com músicos, escritores e produtores, e criar 37 canções, das quais tiramos 12 que fazem este Badiu.   
 
Se "Mundu Nôbu" era ligado ao passado de Cabo Verde e às memórias e "Kriola" ao presente, será que "Badiu" é mais virado para o futuro, inspirado no teu filho? 
Nunca tinha pensado nessa trilogia de passado, presente e futuro, como bem descreveste. Há alguém que está no presente, a nação crioula que o Kriola trouxe. Alguém que resgatou do seu passado os seus ritmos e as suas raízes, mas que já está a olhar para um mundo novo. Agora, do "Krioula" vai para o "Badiu", que é realmente um olhar para o futuro, muito consciente do presente em que vivemos, mas do que realmente precisamos de mudar na génese comportamental, para quando chegarmos lá, todos nós sermos agentes de mudança. Nós somos a única geração da história em que os filhos estão a ensinar mais aos pais do que o inverso. São os nossos filhos a terem a sensibilidade de fazerem a reciclagem dentro de nossa casa. São os nossos filhos a olharem para o mundo e para os animais, para a destruição massiva das nossas floras naturais. São as crianças a sensibilizarem-nos para tudo isto. Estamos a dar um peso enorme à criança, que só tem que ser livre e feliz. Somos nós a condicionar-lhes a felicidade e hoje são elas a alertar-nos para isso, mesmo sem terem essa consciência da destruição do planeta que nós temos.   

 


 
Sentes-te um etnógrafo?  
Sinto-me um etnógrafo musical. Há um gosto genuíno pela antropologia e pela história da humanidade. O resgatar, o perceber de onde vêm as coisas, o perceber o sentido daquelas palavras. Há um gosto genuíno pela história, mas que já vem desde a minha infância. Nas minhas canções, eu não conseguiria ser diferente, porque são o reflexo do que eu penso e sinto, do que as pessoas trazem até mim e do que eu tento levar às pessoas. Estes discos são o reflexo dessa etnografia audiovisual.  
 
Alguns dos membros dos Buraka, como o Kalaf ou o Branko, têm estado próximos de ti. Quão importantes têm sido eles para ti? 
A importância que o Kalaf tem tido na minha vida é o da comunhão pelo mesmo sonho de ver uma nação crioula realmente assumida. Somos todos fruto de uma nação que nos transforma, traz-nos a responsabilidade de assumirmos o nosso lugar de fala: sabermos ser agregadores e sabermos dar voz a quem tem propriedade para falar do assunto. O Kalaf trouxe esse espírito de responsabilidade. No início, antes de fazermos o "Mundu Nôbu", antes mesmo de começarmos, a pergunta [de Kalaf] foi mesmo: "queres fazer singles e álbuns ou queres deixar um legado? Se for para deixar um legado, eu estou disposto a entrar na viagem. Se for só para fazer singles ou álbuns, estou contigo, mas não a 100%". A pergunta dele foi ao encontro daquilo que sempre senti: um construtor de histórias e um agregador de sonhos que se torna realidade. Eu queria partilhar essa vontade de tudo o que eu queria dizer. Funcionou bem, já vamos no nosso terceiro álbum. [Estamos] felizes porque cumprimos o nosso propósito inicial. Nessa felicidade, conseguimos trazer o Branko desde a nossa primeira viagem. Aceitou logo fazer parte desta narrativa porque é uma pessoa que vive para criar. Ele dá importância à canção e à força que uma canção tem na história de um povo. Sempre que fui para estúdio com o Branko, conseguimos um hino. [Temos] 'Nova Lisboa', depois de uma pandemia, temos o 'Tudo Certo', na crença que vai dar tudo certo. Mais tarde, temos 'Kriolu', em que "branco com preto formamos uma geração de ouro". E continuamos, no "Badiu", com um tema de desconfinamento, o 'Lokura'. Os temas só ficavam terminados quando estivéssemos satisfeitos. É fruto de duas pessoas que já viajaram à volta do globo. Entendem o que é a sofisticação no que respeita aos instrumentos que utilizamos nas nossas canções. Entendem o mundo multi-cultural. Cidades que criaram tendência, como Lisboa. Vim somente ajudar a soar este som crioulo que sai da cidade.       
 
Manténs a missão de um álbum por ano? 
Por enquanto, tenho mantido. Foram quatro anos, quatro álbuns. Nunca sabes se vais concretizar esse compromisso, com o que defines para a tua caminhada e para honrar essa caminhada. Esse compromisso depois traz os seus louros e aqui estamos nós a lançar o "Badiu". Em qualquer álbum meu, vais sentir o momento em que viveste. Sempre pensei nisso: como é que alguém vai ouvir um disco de Dino D' Santiago daqui a 50 ou 100 anos? Como é que o meu filho, quando tiver 50 anos, vai falar do pai e do seu tempo e o que é que ele trouxe para a sua cultura? No ano em que nasce, a ONU reconhece-me um dos 100 afrodescendentes mais influentes do mundo. Eu só consegui lembrar-me daquele puto do bairro dos pescadores a olhar para os meus pais e a pensar: "man, valeu a pena o vosso esforço".  
 
Sentes-te um ícone?  
Não me metas essa responsabilidade, é o que já me chamam. Só que acredito no que estou a fazer, que é um reflexo de outros ícones que me inspiraram. Prefiro que esse título venha depois. Não sei aceitar bem esses elogios e distinções. Mas é por formação pessoal e agora ando a aprender a ser merecedor.  
 
A pandemia não parece ter afetado negativamente o teu trabalho em termos de produtividade. 
Não. Às vezes, eu até tinha receio de manifestar o quão enriquecedor foi esse período de recolhimento pessoal para mim. Aí é que vês a importância de olhares para a vida como um todo e perceberes que quando és obrigado a parar, não quer dizer que tenhas que estar parado. O confinamento serviu para me reestruturar enquanto ser, para me resgatar e investir no autoconhecimento e no autoapoderamento, nos valores pessoais e não no que me venderam nestes anos de vida. A pandemia ajudou-me nesse reencontro de mim para mim. Escrevi muito, li muito, vi muitos documentários, fiz dois discos. Tenho um filho, que foi o meu maior sonho que pude viver cada segundo, desde o período de gestação até ao nascimento dele. Pude observar a beleza que é a entrega de uma mãe a um filho. Não fui aquele pai que deixou o filho em casa com a mãe para ir trabalhar. Fiquei em casa a assistir e a ajudar no máximo que pudesse, mas aceitando a nossa limitação enquanto género masculino. E percebi o quão preconceituosos nós somos quando achamos que o dever da mãe é tudo aquilo que elas fazem. Assisti a tudo o que ela fazia e chega a ser desumano, tendo em conta que ela não fez o filho sozinha. 
 
Identificas-te com este tempo? 
Sinto-me abençoado e privilegiado por viver neste tempo em que realmente posso falar com propriedade e sem o receio da opressão, do julgamento e da condenação. É um privilégio que o meu pai não teve. Sinto que faço parte deste tempo, porque observo de verdade, mas sempre com a posição de que também eu tenho de ser um agente de mudança. Esse mundo permite-me isso, no acesso que tenho a qualquer história de qualquer país à distância de um clique. Se eu me quiser informar, se eu me quiser instruir, já não tenho que pagar por um curso caríssimo, porque tens toda essa liberdade na internet. Felizmente, sou das pessoas que tem uma editora, e reconheço a importância que é ter uma estrutura multinacional como a minha, que não limita a projeção da tua ambição. Se tivesse que acontecer sem essa estrutura, também iria acontecer, independentemente dos resultados. Identifico-me com este tempo em que a liberdade de expressão acontece, apesar dos muitos países condicionados. Temos que ser conscientes disso, mas nós podemos falar por essas pessoas também. Podemos ser o megafone dessas pessoas que são silenciadas há décadas. A única coisa que me pode identificar com este tempo é o facto de eu poder ter voz neste mundo. Ao mesmo tempo, não me identifico com as políticas castradoras, o capitalismo acima de tudo e de qualquer coisa. Não me identifico com a ascensão da extrema-direita em todos os países. Não compactuo com essas ideologias, em que os números estão à frente de tudo. Nunca as pessoas foram tanto um número como agora. Não me identifico com o facto de sermos um número. Identifico-me em sermos únicos. Não podemos ser considerados só mais um número.

 

Dino D? Santiago atua no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 2 de abril do próximo ano.