Sabe o que deve e não deve reciclar? Temos um 'tira dúvidas'

O processo de reciclagem tem vindo a mudar ao longo dos anos.

Sabe o que deve e não deve reciclar? Temos um 'tira dúvidas'ASSOCIATED PRESS (AP) / Fernando Vergara
Ana Lucas

Em Portugal, nove em cada 10 lares fazem separação de resíduos e, desde o início de 2021 até outubro, o país reciclou mais 8% de embalagens do que em igual período de 2020. Os dados são revelados pela Sociedade Ponto Verde (SPV), instituição privada sem fins lucrativos que organiza e gere a retoma e valorização de resíduos de embalagens.

A SPV considera que "Portugal está a evoluir bastante bem, mas ainda há caminho para percorrer, há muita gente que precisa de separar mais e melhor embalagens", refere Teresa Cortes, coordenadora de marketing e comunicação da Sociedade Ponto Verde.

Se há cerca de 25 anos a reciclagem ainda era uma miragem em termos de conhecimentos adquiridos sobre a matéria, números de ecopontos e hábitos de reciclagem, hoje em dia “não há desculpa” para não contribuir para que a reciclagem seja um sucesso. Exemplo disso é a maquinaria que existe atualmente e que permite desfragmentar as embalagens com mais do que um material.

Para reciclar conhecimentos decidimos fazer uma espécie de ‘tira-dúvidas’:

Os camiões misturam o lixo durante a recolha?

SPV – Não, de todo. Podem ocorrer duas situações: ou o camião é bicompartimentado e, quando recolhe mais do que um material, na realidade, ele continua separado dentro do camião; ou as equipas de recolha podem identificar que o ecoponto tem material contaminado no seu interior e, portanto, o camião da recolha indiferenciada recolhe esse contentor.  

 

 

É preciso tirar rótulos das embalagens?

SPV – Não é preciso retirar rótulos. Os processos de reciclagem tratam de separar rótulos e também não é preciso retirar tampas. Depois do ecoponto as embalagens seguem para uma estação de tratamento onde são separados por tipo de materiais. Por exemplo, no ecoponto amarelo os diferentes tipos de plástico são separados, são feitos fardos e cada tipo de plástico segue para o seu reciclador, assim como os vários tipos de papel/cartão e vidro. Cada material tem o seu tratamento específico.

É preciso lavar as embalagens antes de as colocar no ecoponto?

SPV – Não é preciso lavar as embalagens. Falando de um lote de garrafas de óleo alimentar, existe um processo de lavagem dessas embalagens. Os processos de reciclagem lavam, desfragmentam, retiram contaminantes naquilo que é possível. À exceção do ecoponto azul em que não devem ser colocadas embalagens com gordura. Mas quer nos ecopontos amarelo e verde as embalagens podem seguir mesmo que contenham gordura. Ainda assim, a recomendação é sempre escorrer ao máximo o produto, espalmar e colocar no ecoponto.

Os materiais reciclados têm menos qualidade?

SPV – Não necessariamente. A verdade é que quanto melhor for a separação das embalagens melhor qualidade de matéria-prima se consegue obter.  É completamente diferente ter um lote do ecoponto amarelo bem separado do que com contaminantes, por exemplo, misturado com resíduos orgânicos. Quando a separação for bem feita consegue-se obter material reciclado de excelente qualidade.

Os materiais podem ser reciclados várias vezes?

SPV – Varia consoante o tipo de material. No caso do vidro e metal ,podem ser reciclados infinitamente, no caso do papel/cartão há uma estimativa de até sete vezes, porque depois as fibras vão perdendo qualidade ao longo do processo de reciclagem e os plásticos também diferem do tipo de aplicação em que ele depois é utilizado, mas também consegue ter várias vidas.

Embalagens que tenham mais do que um tipo de material, podem ser recicladas?

SPV – No caso das embalagens que tenham mais do que um tipo de material, parte em papel e parte em plástico por exemplo (envelopes, caixas de bolachas ou saco do pão), aquilo que nós recomendamos é, se for possível, separar facilmente, então separe os componentes e coloque cada um no contentor específico desse material, se for muito complicado então coloque no contentor do material predominante. 

 

 

É verdade que o papel vegetal, o papel autocolante, o papel plastificado e os recibos das compras não podem ser reciclados?

SPV – O material plastificado ou encerado não deve ser colocado porque não é possível reciclá-lo, tem a sua reciclagem bastante comprometida exatamente por ter plastificações. Os talões podem ser colocados, porque está relacionado com a evolução dos processos químicos com que são impressos. Em relação ao esferovite, é um tipo de plástico e pode ser colocado no ecoponto amarelo.

Embalagens com químicos, como tintas para o cabelo, podem ir para o ecoponto?

SPV – Podem. Basta escorrer ao máximo o produto e podem ir para o ecoponto amarelo, mesmo latas de aerossol podem ser colocadas.

É verdade que não se deve colocar, por exemplo, copos no ecoponto verde?

SPV – No ecoponto verde só se deve colocar garrafas, frascos e boiões. Materiais que não sejam embalagens, como espelhos, pirex, janelas, chávenas, pratos, loiça e cerâmicas não devem ser colocados no ecoponto verde. Estes materiais têm fusões, componentes diferentes do vidro de embalagem e podem inviabilizar a reciclagem do restante vidro que está dentro do ecoponto verde.

 


Se, no geral, Portugal está no bom caminho, há sempre quem resista à reciclagem e a Sociedade Ponto Verde traça o perfil às várias faixas etárias: “ao longo das faixas etárias, as crianças são bastante influenciadoras, porque trazem a aprendizagem da escola e influenciam os pais, na adolescência desligam um pouco, se têm as condições em casa para o fazer mantêm”, mas o mesmo já não acontece fora de casa devido aos “efeitos de grupo”.

“Depois, quando se começa a vida independente, voltam a abraçar este tema. As faixas mais séniores foram as que acompanharam as transformações climatéricas e preocupam-se com o tema, mas como não cresceram e não foram educados com estes temas ainda têm falta de informação para praticar a reciclagem da melhor forma possível. Depois existem os críticos, que são os adultos que reclamam e dizem que não há condições e que isto não serve para nada. As principais barreiras para reciclar, normalmente, têm a ver com a preguiça, alegando falta de ecopontos ou condições em casa”. Ora, para quem alega que não há um ecoponto próximo, fique a saber “que há mais de 60 mil ecopontos disponíveis, o quádruplo de caixas multibanco”. 

Ao contribuir para a reciclagem, “estamos a poupar recursos naturais, utilizando matéria-prima para produzir novos objetos sem ter de recorrer às matérias-primas virgens, baixamos os níveis de poluição, promovemos o emprego ligado à indústria de reciclagem, promovemos um ambiente melhor para as gerações vindouras e ajudamos a cumprir as metas a que Portugal está obrigado”, conclui Teresa Cortes, da Sociedade Ponto Verde.