Syro: "sou mais sensível que romântico"

Álbum de estreia, "Genesis", sai nesta sexta-feira. Entrevista ao cantor.

Syro: "sou mais sensível que romântico"DR - capa do single 'Casa' (cortesia da Sony Music)
Gonçalo Palma

A partir de janeiro de 2020, Syro começou a lançar de forma dispersa vários dos singles que integram o álbum de estreia, "Genesis", que sai hoje, depois de tão empatado pela austeridade pandémica da covid-19.

Falámos com Diogo Lopes, o homem por trás do seu alter-ego, Syro.   

Este álbum de estreia a solo foi um sonho difícil de concretizar, atendendo à pandemia?
Na verdade, sim, porque comecei a escrever este disco no final de 2019. Eu estava com intenções de o lançar no final de 2020, o que obviamente não foi possível por causa desta situação pandémica que vivemos e também porque eu achava que não fazia sentido estar a lançar o meu primeiro álbum sem o poder apresentar ao vivo. Faz agora dois anos que eu decidi fazer este disco. Vivi um misto de emoções: muita ansiedade para pôr o disco cá fora e uma saturação por estar muito tempo a consumir estas obras. Mas felizmente está cá fora e as pessoas podem ouvir. É o meu primeiro bebé.

Estou a reparar que "Genesis" é também a tua tatuagem no pescoço. Vejo que o álbum teria que ter esse título.
Acho que sim. "Genesis" teria que ser o título por dois motivos, primeiro porque vem da palavra origem, é o meu primeiro disco. E também porque a minha origem na música vem da banda Genesis. O meu pai levou-me a vê-los ao vivo e então decidi ser baterista por causa do Phil Collins, que é uma referência para mim. Para quem não sabe, tive vários anos como baterista, depois é que comecei a cantar e a pôr músicas cá fora como intérprete. Por esses dois motivos, faria todo o sentido apresentar a minha primeira obra como "Genesis".     

 

Como te sentiste ao puxar a Gisela João para fora do território do fado?
A Gisela João é considerada uma fadista, mas eu na verdade não a vejo como uma fadista pura. Ela tem um timbre único, bastante distinto, que era o que eu procurava para o 'Rio D'Água', que é o mais recente single. Aí tinha duas pessoas em mente, a Gisela João e a Simone de Oliveira. A Simone de Oliveira tinha anunciado que tinha abandonado os palcos e que iria acalmar a sua carreira profissional. Felizmente, [a Gisel João] aceitou o meu convite. Eu fiquei muito feliz com o resultado e por ela ter participado .

 

Nesse tema, 'Rio D'Água', usas uma espécie de coro gospel. Este tema deu-te vontade de voltares a usar um forte coro feminino novamente?
Sim, sem dúvida, sempre fui fã de música gospel. Sinto que essa linguagem está muito presente no meu ADN. Sempre gostei de ter vozes por trás. Sem dúvida que vou continuar a explorar esta linguagem. 

Porque é que um dos teus temas se torna bilingue, o "Lágrimas"?
Quando componho canções sem letra, porque começo sempre sem letras, os rascunhos são sempre feitos em inglês. Depois é que tento perceber o que a canção me está a dizer, depois de criada a melodia. Tento perceber a disposição da canção, o que é que ela me está a passar. Aí é que vou escrever as letras em português. Os rascunhos, mesmo sem significado nenhum, começam em inglês. Com esta canção, nasceu o refrão "I wanna fly, just you and I, and believe your eyes". Achei lindíssimo e não quis mudar. "Vou escrever a canção em português mas o refrão vai manter-se em inglês". Acho que esse é o motivo. Um dos meus sonhos é internacionalizar-me e sinto que aos poucos vou dando alguns passos de propósito para ir tentando.

Vais arranhando...
Sim, vou arranhando já num primeiro disco para as pessoas não me possam dizer: "passaste de 100% português para 100% em inglês". 

 

‘Caminho’ é o tema de estado civil solteiro do disco?
O 'Caminho' é do ponto vista pessoal o tema mais relevante para mim, porque conta a história de todo o meu trajeto até então: todas as adversidades até então que fazem parte do início de carreira. É nesta faixa que nasce uma segunda persona, uma espécie de alter-ego ou heterónimo do Syro que vou continuar a explorar ao longo da minha carreira. 

Todo os outros temas parecem procurar o acasalamento. Consideras-te um cantor romântico?
Não sei. Às vezes, as pessoas perguntam-me se sou romântico e eu respondo que não, sou sensível. O que procuro nas minhas canções não é ser romântico mas expor a minha sensibilidade. Por exemplo, o 'Perto de Mim', que é o meu maior êxito até agora, há muita gente que o associa ao romantismo entre um casal. Mas não foi o mote que me fez escrever essa canção. Eu vejo as pessoas que são importantes para mim como pilares de um edifício que somos nós. E fala do medo de se perder um desses pilares. Seja por que motivo, eu vou ruir. É giro ver que o que me levou a escrever a canção não tenha necessariamente a ver com a maneira como se ouve. Às vezes, recebo mensagens de pessoas que estão prestes a casar: "olha, essa é a nossa canção de relação e só para que saibas, é a que vai passar no nosso casamento". "É a minha canção de entrada na igreja".  

Gostas de fazer pequenos enclaves entre as faixas - como acontece com o final ao piano de 'Anjo x Diabo' ou o momento de rap em 'Caminho'? 
Sim, isso é uma parte de mim que faço questão que as pessoas conheçam. Desde que escrevo canções, não só para mim como para outros artistas, gosto de fazer várias sonoridades. Faz todo o sentido mostrar as várias facetas que o Syro tem logo no primeiro álbum. 

Está em aberto o uso de outros alter-egos, incluindo o teu próprio nome?
O meu nome próprio, não diria. Mas sim, é o que digo no tema 'Caminho'. Lembro-me de ser uma criança muito tímida, refugiava-me muito no meu mundo próprio e nos livros. E eu tinha um amigo imaginário, que era o Tobias, que tinham nome de gato mas era o nome dele. Decidi dar vida a esse Tobias no tema 'Caminho', de dar a conhecer a persona que existiu e que eu faço questão de manter viva. Não sei se o Tobias é uma outra face minha, se é um heterónimo, mas sem dúvida que é uma parte de mim que eu quis mostrar nesta canção. 

 

Os concertos de apresentação do álbum "Genesis" decorrem a 27 de novembro no Hard Club, no Porto, e a 3 de dezembro no Capitólio, em Lisboa. Os convidados de "Genesis", os fadistas Marco Rodrigues e Gisela João, participam em ambos os espetáculos. Também Jimmy P, que convida Syro para o seu tema 'Volta para Ti', estará presente. Outros convidados subirão também a palco.