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ONG ambientais e oposição acusam Jair Bolsonaro de "mentir" em discurso na ONU

Organizações apontam as contradições do presidente brasileiro.

EPA
Agência Lusa

Organizações não-governamentais (ONG) ambientais e parlamentares da oposição ao Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, criticaram o seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, acusando-o de "mentir" e de "retratar um país que não existe".

Nas redes sociais e no seu 'site', a Greenpeace Brasil apontou as contradições de Bolsonaro no seu discurso e indicou que "o mesmo Presidente que negligencia a crise climática, as queimadas no Cerrado e na Amazónia, hoje tentou vender a imagem de um bom mandatário e retratou um país que não existe".

"Além de afirmar que a desflorestação diminuiu, o Presidente declarou que o país possui áreas florestais intactas desde a época da colonização, 66% de acordo com ele, e que a demarcação de terras indígenas é suficiente para os povos originários", explicou a ONG.

"No entanto, hoje as terras indígenas demarcadas somam apenas 13,8% do território brasileiro e a desflorestação na Amazónia bate recordes sucessivos em seu mandato. Já a área florestal brasileira é de menos de 60%, e é formada também por florestas plantadas", analisou a entidade, frisando que o Brasil não é atualmente um "país com florestas primárias e intactas, mas sim, com uma política conivente com as altas taxas de desmatamento e com grilagem".

A Greenpeace Brasil acusou também o Presidente de fazer um discurso "fantasioso e antidemocrático", "além de avesso ao mundo necessário pós-covid que os principais líderes globais buscam construir".

A organização destacou ainda que Bolsonaro foi o único chefe de Estado a discursar sem estar vacinado e insistiu em defender o tratamento inicial para a covid-19, "ignorando, mais uma vez, o que diz a ciência e as autoridades da saúde".

Já a World Wide Fund for Nature (WWF) Brasil apontou que Bolsonaro utiliza espaços internacionais "com um discurso que não condiz com a realidade do país ou com a atuação esperada de um chefe de Estado".

Para o secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, a única maneira do Presidente "ajudar a imagem do Brasil seria ele subir lá no palco e dizer: 'Eu renuncio'".

Além de organizações ambientais, também a oposição criticou duramente Bolsonaro, um dos mais céticos em relação à gravidade da pandemia, pelo seu discurso de abertura da 76.ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em que defendeu a autonomia médica e o uso de medicamentos sem eficácia contra a covid-19.

No seu discurso, Bolsonaro disse ainda que “o Brasil está há dois anos e oito meses sem nenhum caso concreto de corrupção”, omitindo que alegados casos de corrupção na aquisição de vacinas contra a covid-19, envolvendo elementos do executivo, estão a ser investigados pela Polícia Federal.

"Nunca um Presidente foi à ONU dividir o Brasil! Especialmente num momento que precisamos de união entre os brasileiros para salvar vidas! Absurdo sem precedentes! Bolsonaro mentiu do início ao fim, e ao invés de defender a vacina, criticou o passaporte da vacina, que tem dado resultados bons no mundo todo, e falou sobre um tratamento sem eficácia contra a covid-19! Um vexame [vergonha] mundial", disse o senador Randolfe Rodrigues.

Já o senador Renan Calheiros, relator da comissão parlamentar de inquérito (CPI) que investiga falhas do Governo na pandemia, afirmou que Bolsonaro “mentiu do começo ao fim” e classificou o discurso como um “triste espetáculo”.

O deputado federal Marcelo Freixo criticou os ataques de Bolsonaro à imprensa e o facto de dizer que não há corrupção no país, acusando ainda o chefe do executivo de mentir sobre a Amazónia.

"Bolsonaro atacou a imprensa, fez pregação anti-vacina, promoveu medicamentos ineficazes contra a covid, disse que não há corrupção no Governo e mentiu sobre a destruição na Amazónia. Um vexame que degrada ainda mais a imagem do Brasil no mundo”, escreveu Freixo no Twitter.

“Bolsonaro falou a verdade apenas uma vez, quando disse que o Brasil mudou. Sim, mudou e nós vivemos num país muito pior, com 19 milhões de famintos, 14 milhões de desempregados e quase 600 mil mortos pela irresponsabilidade do desgoverno na pandemia”, acrescentou o deputado.