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Greenpeace: os 50 anos radicais que também passaram por Portugal

É uma das mais conhecidas organizações de defesa dos valores ligados ao ambiente e celebra, esta quarta-feira, 50 anos de existência.

Greenpeace/Daniel Beltrá
Redação / Agência Lusa

Parar o transito na ponte 25 de Abril, ocupar navios, lutar contra a importação de lixo, transgénicos e madeiras preciosas foram ações em Portugal da organização internacional Greenpeace, que faz 50 anos na quarta-feira.

Das mais conhecidas organizações de defesa dos valores ligados ao ambiente, muito devido a ações espetaculares que empreenderam ao longo de meio século, a Greenpeace nunca teve sequer uma delegação em Portugal o que não foi impeditivo para meia dúzia de ações, todas elas mediáticas, nos últimos 30 anos.

Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista portuguesa Zero, lembra à Lusa algumas delas, quando a Zero não existia e ele pertencia a outra associação ambientalista, a Quercus, que era então o apoio no país para as sempre espetaculares ações da Greenpeace.

Uma há quase 30 anos, sobre o escândalo “metalimex”, que envolveu dezenas de milhares de toneladas de escórias de alumínio depositadas no Vale da Rosa, em Setúbal, vindas da Suíça. A Greenpeace, com a Quercus, encheu um contentor de escórias em Setúbal e levou-o num camião para a Suíça, largando-o logo depois da fronteira. E a seguir chamou a imprensa.

“A ideia era mostrar como era fácil transportar resíduos perigosos dentro da União Europeia e também para fora dela”, diz agora Francisco Ferreira, que lembra também outra ação, com a Greenpeace, para impedir a descarga em Lisboa de um navio carregado de produtos geneticamente modificados. Os ativistas começaram por pintar um X no navio, e conseguiram “durante algum tempo” impedir que este atracasse.

Em 1998, no dia em que abria a exposição mundial de Lisboa (Expo98), uma carrinha de mercadorias parou no tabuleiro da ponte 25 de Abril, em hora de ponta, e ativistas da Greenpeace ataram uma faixa no tabuleiro que desceu até junto da água, alertando para a necessidade de proteger os oceanos.

“Eram precisos 20 minutos para garantir que as cordas ficavam em segurança para iniciar a descida da faixa. E foi em hora de ponta para não haver intervenção da polícia”, recorda Francisco Ferreira, que lembra também “as dificuldades” com a imprensa: por um lado haver garantia que não havia fuga de informação e por outro garantir que aquilo ia mesmo acontecer. E aconteceu, os ativistas desceram por cordas da ponte. Se foram apanhados no rio por um barco já não se recorda.

“Qualquer uma destas ações foi planeada entre a Quercus e a Greenpeace. Foram sempre ações com grande impacto. Não havia, nem há, Greenpeace em Portugal mas a Quercus cooperou sempre com a organização”, diz Francisco Ferreira, que lembra ainda mais duas ações de grande impacto, no porto de Leixões, contra a importação de madeira preciosa, vinda de África e da Amazónia, no Brasil.

A Greenpeace usou botes de borracha para tentar impedir que o navio atracasse, ativistas penduraram-se na ponte móvel para impedir a passagem do navio, e no fim de tudo, quando este já tinha descarregado, militantes da organização bloquearam-se no mastro do navio.

O dirigente ambientalista recorda o impasse que se gerou, com o navio a não poder sair, recorda a reunião com as autoridades e as negociações, com ele e com um português que veio coordenar a ação por parte da Greenpeace.

E recorda mais: acertou-se que os ativistas saíam, mas a imprensa tinha de fazer a cobertura e falar com eles. E quando as autoridades impediram a Quercus e a Greenpeace de entrar no porto de Leixões, porque era só a imprensa, o representante da organização avisou que ou estavam lá em dois minutos ou os ativistas não saiam. E estiveram.

 

Anos mais tarde, com madeira vinda da Amazónia, no mesmo porto, a Greenpeace voltou a usar botes de borracha, voltou a bloquear-se no mastro. “Estiveram lá quase uma semana”.

E em 2009 ativistas da Greenpeace também se penduraram na Torre de Belém, em Lisboa, por ocasião da uma cimeira ibero-americana, onde colocaram uma faixa em três línguas com a frase “O nosso clima, a vossa decisão”, para alertar para a urgência do combate às alterações climáticas.

Mas o que fez nascer a Greenpeace não foram as alterações climáticas nem o lixo nem a madeira preciosa. Rex Weyler, cofundador da Greenpeace Internacional em 1979, lembra, na página oficial da organização, que tudo começou a 15 de setembro de 1971 quando várias pessoas se uniram para, a partir do Canadá, tentar parar um teste norte-americano de uma bomba nuclear no Alasca.

O responsável lembra as personagens envolvidas, quando a ecologia nem sequer estava “na moda”, quando os primeiros “ativistas” eram também ativistas da paz. E a ideia de ir de barco até ao local marcado para a explosão. E a reunião que se fez para tentar encontrar um barco e um capitão e na qual se falou pela primeira vez em “paz verde”.

O barco de pesca “Phyllis Cormack” mudou de nome para “Greenpeace” e fez-se ao local da explosão, mas os Estados Unidos intercetaram a embarcação. Mas o protesto surtiu efeito mesmo assim, os Estados Unidos cancelaram futuros testes no Alasca. E a Greenpeace voltou-se para os testes franceses no Pacífico Sul. A França também cedeu ao fim de três anos.

A Greenpeace adotou na altura também outra causa, que a tornaria conhecida mundialmente, a matança de baleias. E nos protestos usou pela primeira vez os barcos de borracha, insufláveis, que se tornariam um ícone das ações no mar da organização, como lembra Rex Weyler.

E lembra depois outras causas, o primeiro navio que a organização comprou em 1977, a formação em Amesterdão dois anos depois da Greenpeace Internacional.

Em 50 anos, salienta, reproduziram-se os grupos ambientalistas, há ministros do Ambiente, agências ambientais, zonas protegidas, leis, documentos científicos, conferências e promessas de governos.

“Isto pode parecer potencialmente promissor, mas temos de fazer uma simples pergunta: Será a humanidade na Terra mais sustentável hoje do que éramos em 1971?”, questiona, para responder a seguir que não.

Em 2021, argumenta, há menos biodiversidade, mais gases com efeito de estufa na atmosfera, mais toxinas nos solos, menos solo fértil, mais rios secos e lagos mortos, mais zonas mortas no oceano, menos floresta, mais deserto, mais declínio de recursos.  “Somos claramente menos sustentáveis”.

Rex Weyler deixa números: os peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos diminuíram em 60%, perdem-se cerca de 13 milhões de hectares de florestas todos os anos, desde 1971, as emissões de carbono humano aumentaram 250%, de cerca de 4 para 10 giga-toneladas/ano.

É por tudo isso que Jennifer Morgan, diretora executiva da Greenpeace Internacional, diz à AFP que 50 anos depois há muito para fazer e não para comemorar. “Não há muito que comemorar agora, estamos numa emergência climática”.

A responsável defende uma mudança profunda e “absolutamente radical”, lembra outras causas da organização, contra o petróleo e o lixo, lembra quando em 1985 foi atacado o navio da Greenpeace “Rainbow Warrior”, matando o fotógrafo português Fernando Pereira. O escândalo acabou por dar à organização o maior impulso da sua história.

Hoje a Greenpeace tem milhares de trabalhadores em mais de meia centena de países e continua, diz a responsável, “radical”, ainda que também empenhada em ações legais contra governos e poluidores.

E qual o objetivo da Greenpeace para os próximos 50 anos? A responsável responde que o objetivo devia ser que a Greenpeace não existisse mais.

No seu texto publicado na página oficial da organização Rex Weyler afirma que a evolução ensina as espécies a reproduzir-se e a consumir, não ensina às espécies quando devem parar.