Dino D'Santiago, com (muito) amor para o mundo

O Música no Parque arrancou hoje em Cascais com Pedro Mafama e Dino D'Santiago. Uma noite que foi uma autêntica bolha de oxigénio com vista para a futuro.

Dino D'Santiago, com (muito) amor para o mundoRúben Viegas
Silvia Mendes

Esta noite, o Hipódromo Manuel Possolo, acostumado a grandes concertos, abriu as portas para receber o festival Música no Parque. E que bem que soube respirar música ao vivo com vista para a liberdade de movimentos que nos tem fugido das mãos. Até dia 28 de agosto, a música portuguesa e lusófona vai ser celebrada com o estatuto que merece. Celebração de forma segura e a céu aberto. 

A noite ganhou balanço com o cantor e compositor Pedro Mafama - um dos artistas mais entusiasmantes do momento. O músico levou a Cascais "Por Este Rio Abaixo" - o disco de estreia - e foi a escolha evidente para abrir caminho à festança crioula que veio a seguir. O cruzamento de sons geograficamente e temporalmente distantes entre si - como o fado, a música tradicional portuguesa, a batida africana, a música árabe e o trap - encetou aquela que seria a noite para honrar a bem-aventurada fusão de culturas e a multiculturalidade bordada a ouro. A relva do recinto foi sendo ocupada ao som da "ode marítima" de Mafama e nem as máscaras atrapalharam o entusiasmo do público que remou para o mesmo lado que o músico lisboeta. 


É certo que o público aqueceu com Pedro Mafama, mas Dino D'Santiago pô-lo a ferver. Ajudou a quentura da voz, os impressionantes movimentos de anca e aquela força da alma que agita as nossas. Dino D'Santiago, o homem que tem a gentileza de levar para o palco o coração combativo e criativo que o move, meteu toda a gente a dançar. Foi uma feliz inevitabilidade. Do batuque cabo-verdiano ao funaná, passando pela eletrónica pulsante e contemporânea em qualquer capital europeia, Dino D'Santiago personifica uma cuidada mesclagem de universos, com destaque, claro, para a mistura fina da rica lusofonia, que ganha um corpo gingão que pede, descaradamente, para dançar - ainda que, por estes dias, a dança seja adaptada a esta realidade que se estranha e não se entranha. Tudo com distância de segurança.

A intermitência recente da música ao vivo não reflete a permanência da criação. O músico algarvio subiu ao palco com o mais recente "Kriola" - disco que emergiu, sem anúncio prévio, em abril de 2020. Somou ao alinhamento uma mão cheia de temas mais antigos, que se foram soltando dos álbuns anteriores: "Mundo Nôbu", "Sotavento" e "Eva" - o primeiro de todos. Ao som de um alinhamento intercalado com preciosidades dos vários álbuns, o Hipódromo Manuel Possolo foi uma arena de ritmos ondulantes, acalorados e esperançosos. Relatar um concerto do Dino D'Santiago é, essencialmente, escrever sobre as boas emoções que o músico da Quarteira começa a fermentar no público assim que solta o primeiro tema. A conexão é imediata, translúcida e muito real. 'Morabeza', a faixa que abre o disco mais recente, foi a primeira a ganhar corpo. 

'Nova Lisboa, do disco Mundo Nôbu, fez a passagem para a visita obrigatória à Ilha de Santiago, com a faixa 'Raboita Sta. Catarina', e 'Tudo Certo', tema que o músico algarvio partilha com Branko, meteu toda a gente de pé. O batuque de 'Santiago (Jorge & Andresa)' pôs Dino D'Santiago a bater com a mão no peito e 'Nôs Crença' levantou os braços da massa humana que o músico tinha aos pés.
 



O mais vagaroso 'Sô Bô' acalmou os ânimos e 'Arriscar' mostrou a versão "pai babado" do músico que, orgulhosamente, falou do filho, o pequeno Lucas, que, mesmo ainda sem andar, também esteve no concerto.

As canções 'Roda', 'My Lover' e 'Sofia', todas do disco "Kriola", seguiram-se no alinhamento sem grandes demoras pelo meio e a percussão de 'Brava (Carta Pa Tereza)' - o momento mais agigantado da noite - ecoou bem para lá de Cascais. Tanto que público respondeu com uma ovação à medida da grandiosidade do que tinha acabado de ouvir. 'Morna' chegou com calma mas em sobressalto. Dino dedicou-a todos os refugiados e cravou na dedicatória um pedido desesperado e urgente pela liberdade das mulheres afegãs que agora vivem ameaçadas pelo recente assalto ao poder pelo movimento talibã. "Enquanto caminhamos no mundo, os mares são cemitérios”, disse o músico. Dino D'Santiago, o homem que bate no peito para defender a causa e dá-lhe ritmo.  

O sedutor 'Como Seria' desarrumou corações e o ritmo frenético de 'Kriolo' andou à solta por todo o recinto. "Sinto que querem libertar os sorrisos por trás das máscaras. Sinto a vossa vontade de gritar, de sentir a vida, de respirar", disse-nos. "Vocês estão a ser o meu oxigénio nesta fase da minha vida", acrescentou Dino que foi a nossa bolha de ar durante hora e meia.

Para o final, o músico guardou um momento de "discos pedidos". O público, fiel ao percurso suado de Dino, pediu o mais antigo 'Djonsinho Cabral' que mereceu a solenidade à capela. Um mimo em troca do bom comportamento e da força anímica da "nação crioula" que se juntou em Cascais. 'Ilhéus' devolveu o músico ao palco para o encore e 'Nôs Funaná', com a estonteante aceleração no remate, serviu o grande final.  
  
Dino D'Santiago foi uma espécie de anfitrião de um sonho de uma noite de verão cheia de "amanhãs". O sonho de um mundo melhor e bem mais apetecível que este gémeo mau que tenta acossar a esperança. Até pode nem ser sonho nenhum, como gosta de dizer Dino. Basta o mundo querer. E esta noite parecia que o mundo inteiro estava na relva do Hipódromo de Cascais a querer ser melhor. A noite foi um ponto de luz com boas emoções a gravitar à volta. Ver o Dino D'Santiago a ocupar o palco com tanta ginga, honestidade e paixão desperta-nos o lado bom e as saudades do futuro.

O Música no Parque continua até dia 28 de agosto. Fernando Daniel e Cláudia Pascoal atuam amanhã, dia 20, e Os Quatro e Meia e Mimi Froes sobem ao palco do Hipódromo Manuel Possolo a 21.

Deixem o Pimba em Paz (com Manuela Azevedo e Bruno Nogueira) e Filho da Mãe atuam a 26 de agosto, Carminho e Marco Rodrigues a 27 e os Xutos e Pontapés e Churky a 28 de agosto.

Nota importante:
para entrar no recinto é necessário ter o certificado de vacinação, o cartão de cidadão ou um teste negativo à Covid-19 que pode ser feito à porta do hipódromo num dos vários pontos de testagem rápida. Serve a nota para assegurar que ninguém fica para trás nos próximos concertos do festival.