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Nico viu em Nick (Cave) outro Nick (Drake)

Nick Cave recorda a comparação a Nick Drake feita pela enigmática cantora alemã.

Associated Press/capas de The Boatman's Call e Time of No Reply
Redação

Nick Cave parece ter material para um dia escrever a sua autobiografia, tais as histórias que, de vez em quando, se lembra de contar na sua plataforma de partilhas The Red Hand Files, onde responde de forma sincera a algumas perguntas mais profundas dos fãs.

De vez em quando, o artista australiano junta duas ou mais perguntas para um só texto de resposta. Foi o que voltou a fazer no seu site confessional. Raghav, da Índia, pergunta-lhe se Nick Cave tem algo mais em comum com Nick Drake além do nome próprio. Pamela, dos Estados Unidos, quer saber se Nick Cave alguma vez se encontrou com um "herói que o não tenha desiludido". 

Perante as interrogações, Nick Cave vai ao baú das suas memórias. No início dos anos 80, o cantor é desafiado a ir à casa de um fotógrafo, em Londres, para ser retratado. O músico aceitou o desafio. "Dentro do apartamento, o fotógrafo disse-me que tinha que montar a sua máquina fotográfica e pediu-me para eu esperar e sentar-me num pequeno sofá na sua sala-de-estar bem escura. Lembro-me que o ambiente da sala era inquietante, pesado e estranho, mas sentei-me de qualquer maneira".

"Passado um bocado, sinto a presença de alguém por trás de mim. Entra na sala, caminha muito lentamente à volta do sofá e, de forma muito cuidadosa, senta-se atrás de mim. Demorei um pouco até me aperceber que essa pessoa, essa mulher, era a cantora Nico", a modelo loira e germânica que se mitificou como convidada do álbum de estreia dos Velvet Underground, "The Velvet Underground & Nico", e que depois seguiu uma peculiar carreira a solo, marcada pela melancolia cancioneira. Nico era uma "heroína" para Nick Cave. O australiano viu-a "sentada de forma muito paralisada, com umas botarras verdes de borracha".

Nick Cave recorda-se do sotaque germânico de Nico e do diálogo que estabeleceu com ela. "Conheci um jovem que era exatamente como tu", começa Nico. "Ah sim?", interroga-se Cave. "Era um cantor e o seu nome era Nick". "Bem, isso é estranho, porque eu sou um cantor e o meu nome é Nick". "E ela diz-me de forma muito arrastada: 'eu sei'. E então, ela nada mais disse por uns instantes, e a minha cabeça fugiu para uma série de sítios, comigo a pensar: 'bolas, estou sentado ao lado na Nico'".

E continua. "Eventualmente, ela terá dito: 'ele morreu'. E eu digo-lhe: ‘ah, refere-se a Nick Drake?'. Ela diz: 'morto pela sua própria mão'. E eu digo-lhe: 'bem, é aí que divergimos'. Ela vira-se para mim e depois da pausa mais longa diz-me: 'a sério? Isso é o que tu pensas'.  

Nick Drake foi uma lenda da folk inglesa, de existência breve (morreu aos 26 anos), mas com uma suavidade misteriosa e doce, imortalizada nos seus três álbuns: Five Leaves Left (de 1969), Bryter Layter (de 1971) e Pink Moon (de 1972). Nick Drake termina a sua vida numa pacata e bucólica auto-destruição, fechado no seu quarto, da casa dos seus pais, na Inglaterra rural, em 1974.

Voltando ao tal apartamento londrino do fotógrafo, Nick Cave continua a descrever a sua experiência no Red Hand Files. "O método do fotógrafo era tirar fotografias connosco a olhar para um espelho, neste caso, um espelho da sua casa-de-banho, e ele captaria o nosso reflexo. Quando estava a arranjar o meu rosto, surge no espelho, do fundo do hall a Nico, como uma aparição, muito fixa a olhar para o espelho".

Nick Cave quis ficar com uma fotografia mas, presentemente, não sabe onde elas estão. 

"Portanto, aquele foi o dia em que a Nico, que celebremente cantou 'I'll be Your Mirror', se tornou no ‘meu espelho’". Apesar de "ter profetizado erradamente a minha auto-destruição, ela jamais desiludiu-me” no contacto pessoal.    

'I'll Be Your Mirror' é um dos muitos temas marcantes do álbum de 1967, "The Velvet Underground & Nico". Nick Cave fez, com os Bad Seeds, uma versão de outro tema desse álbum, 'All Tomorrow's Parties', originalmente também cantado por Nico.