Rui Reininho: "já não estou em idade de experimentar"

Vocalista dos GNR lança hoje o seu segundo álbum em nome próprio "20.000 Éguas Submarinas".

Afonso Sereno
Gonçalo Palma
11 junho 2021, 07:00

Rui Reininho sempre foi muito aquático nas suas letras, salpicadas de água salgada, de água doce e até de água benta (como no tema 'Vídeo Maria'). Agora parte para uma viagem musical para o alto mar, através do álbum conceitual "20.000 Éguas Submarinas" - num trocadilho, bem ao seu estilo, com o livro de Júlio Verne, "20.000 Léguas Submarinas".

O artista portuense deixou de lado as canções e mergulhou num mundo mais sensorial, com menos palavras e mais sons. Neste segundo álbum em nome próprio, Rui Reininho tem o grande apoio do produtor Paulo Borges e ainda a presença de Alexandre Soares (dos Três Tristes Tigres e dos Osso Vaidoso, nas guitarras e nas programações), Pedro Jóia (nas guitarras), Tiago Maia (nas guitarras), Eduardo Lála (no trombone), Ruca Rebordão (nas percussões), Moisés Fernandes (no trompete), Daniel Salomé (no clarinete e saxofone) e Jacomina Kistemaker (nas vozes, gongos, taças e monochorde).   

A conversa com Rui Reininho não foi por hidrofone, mas foi como se fosse. 

Como é que surgiu a vontade de fazer este segundo álbum a solo, "20 Mil Éguas Submarinas"? 
Não posso chamar de álbum a solo, porque não conseguiria fazê-lo sem o esforço do Paulo Borges e sem a inspiradora Jacomina Kistemaker, que tem 74 anos. Desde 2002 que frequento um centro de investigação cosmológica, para tratar da minha cabeça, porque estava cheio de ruídos e de zunidos. Estava muito desorientado, com um síndrome vertiginoso e com problemas de colocação de voz. Iria concluir os tratamentos com exercícios de voz, o pansori, que é uma técnica coreana. 
Isto é para ser um vinil, com um toque retro, virado para o outro. É um opus, é tudo menos uma ópera rock. Para mim, isto não é uma obra pretensiosa. Não quero armar-me em contemporâneo ou em sofisticado. A minha praia é o pop-rock, foi tudo o que servi nestes anos. Já me disseram: "isto soa um pouco a Scott Walker", "é um bocado Soft Machine". Claro que sim, eu ouvi essa gente toda. Se calhar, é menos binário, menos Kinks. 
 
Este disco contrasta muito com os GNR e até com o teu outro álbum a solo, "Companhia das Índias".  
Não tive a necessidade da bateria e do baixo. Começámos por estruturas mais magnéticas, mais abstratas, indo buscar isto e aquilo, estando mais próximo dos sons da natureza e sendo mais implacável connosco mesmo e mais exigentes, não estando sujeito ao formato canção. 
 
Este disco pode definir-se como de experimental? 
Já está concluído, não estamos a experimentar nada que não tivéssemos experimentado desde os anos 70. Estou a fazer coisas que na altura não fiz. O meu primeiro disco foi com a Anar Band [dupla formada com o já falecido Jorge Lima Barreto] e tinha a consciência que estava a experimentar. Agora não. Já fiz na vida milhares de quilómetros de mota. Se for agora de moto não vou dizer: "vou agora experimentar andar de moto". 
 
Tens também um passado transgressor no início dos GNR. Gostaste de voltar a ter a teu lado a guitarra do [ex-GNR] Alexandre Soares? 
Sim, sim! Não só a guitarra, como a própria presença. Ele até toca muito pouco no disco para o que seria de esperar. Mas a presença, a forma como ouviu e como instigou é muito importante. O Mestre de Avis [futuro D. João I, rei de Portugal] quando estava à beira de perder a batalha com Espanha, diz que lhe apareceu a Nossa Senhora a dizer-lhe que ia ganhar. Bastou a presença da Nossa Senhora para eles virarem o resultado em Aljubarrota. O Alexandre Soares foi uma espécie de santo naquele momento. Disse-me uma coisa muito importante: "isto vai ser sempre fácil para as pessoas que vão ouvir, para nós é que vai ser sempre difícil". É de uma grande profundidade filosófica. 
 
Tu releste de propósito o livro de Júlio Verne, "20.000 Léguas Submarinas"? 
Não tenho a certeza que o tenha lido todo. O Júlio Verne é como certos músicos que se tornam muito chatos. São pessoas que a meio de uma refeição começam a falar de amplificadores. Os produtores também. E os DJs são ainda mais chatos, porque falam de máquinas. O Júlio Verne tem esse lado. É uma inspiração para sair do quarto, naquela Volta ao Mundo em 80 Dias. Na minha infância e adolescência, sem irmãos, passei 80 dias ou mais fechado no quarto. Fazia tudo no meu quarto: contemplação, masturbação. O Júlio Verne tem muitas coisas para-científicas que se revelaram falsas. O homem imaginou ir à lua, imaginou um castelo dos Cárpatos, imaginou a primeira emissão de televisão, coisas fantásticas.   

Atrair-te-ia mais descer até ao fundo da Fossa das Marianas do que subir até ao pico do Everest?
Sim! Na minha última tentativa [de subir os Himalaias], fiquei-me pelos 2900 metros, no Annapurna Sul, há três anos. Aquilo era um trânsito, com milhares de japoneses em fila. É como os centros comerciais ao fim-de-semana. Mas foi o que me inspirou a fazer este livro, descendo pé ante pé. Não fosse eu uma pop star em decadência, teria sido muito duro aquela descida. 'Ah, mas já encheste estádios'. 'Pois é, mas agora só me interessa encher um só coração' com novas experiências.

“20 Mil Éguas Submarinas” é um álbum com muitas fossas?
Sim, e com muitas fossas nasais. É um momento muito feliz da minha vida. Já não estava tão nervoso desde o nascimento do meu único filho até à data.     

Encontraste dragões-marinhos nesta viagem submarina das “20 Mil Éguas Submarinas”?
Sou muito contraditório em relação ao dragão. Para já, deixei de fumar. Portanto, deixei de ter o bafo do dragão.