Neev: "precisamos de uma geração com o foco na solução e não no problema"

Ainda no rescaldo do Festival da Canção, conversámos com o autor de 'Dancing in the Stars', a canção mais votada pelo público. Uma conversa que começou nas emoções do festival e acabou nas inúmeras possibilidades que temos "ao colo" para mudar o mundo.

Mike Ghost
Silvia Mendes
16 março 2021, 15:30


Bernardo Neves, mais conhecido por Neev, tem 26 anos, mas parece ser dono de uma alma bem mais madura que tenta não ficar enrolada nas encruzilhadas da vida. Ao invés, o músico e multi-instrumentista prefere transformar as reflexões, que viajam a diferentes velocidades pela sua mente curiosa e inquieta, em canções.  

À final do Festival da Canção, Neev levou o tema 'Dancing in the Stars' - a canção mais votada pelo público mas que, ainda assim, não recolheu os votos necessários por parte do júri para ser a representante de Portugal na Eurovisão. Não faz mal. Neev ganhou quando percebeu que a história que contou (aliás, cantou) no palco entrelaçou-se com as histórias de quem o escutou do outro lado, em silêncio ou, quando muito, entre o burburinho de um serão familiar


Neev editou a primeira canção em 2016. Foi o tema 'Breathe', que o músico português compôs e interpretou com os noruegueses Seeb. O single soma agora mais de 230 milhões de streams no Spotify e conta com mais de 30 milhões de visualizações no YouTube. Chegou a estar em 28.º lugar do top da Billboard, onde permaneceu durante 10 semanas, e foi reconhecido com galardões de multiplatina e ouro em vários países da Europa e nos Estados Unidos. 

O disco de estreia, "Philosotry", chegou no verão de 2020. O álbum, feito de uma honesta sonoridade eclética, resultou da fusão das visões de Neev e do famoso e experiente produtor Larry Klein - homem que já trabalhou com Joni Mitchell, Herbie Hancock ou Melody Gardot.

Juntos, produziram "Philosotry" em Los Angeles, nos Estados Unidos. A magia, que resultou de uma afinidade preciosa e de convicções parecidas, aconteceu mais precisamente no reputado Sunset Sound - estúdio por onde passaram nomes como Prince, Led Zeppelin ou The Beatles - a joia da coroa na cartilha de influências que guiou Bernardo Neves quando era mais novo. 
  
No início de 2019, o músico editou o single  'Calling Out'. Seguiram-se os temas  'Lie You Love It', 'This Dream', 'It Is What It Is' e 'Something Trivial'.

Contexto feito. Vamos à conversa.

Estamos ainda no rescaldo do Festival da Canção. A tua música, 'Dancing in the Stars', foi a mais votada pelo público. Como é que te sentes com esse "título"?

Sinto-me muito bem. Fiquei muito feliz. Foi a melhor vitória que podia ter tido. Ao longo das semanas de preparação para a final, vivi momentos muito bonitos. Quis que esta viagem fosse escrita em conjunto com o público e sinto que isso aconteceu. A prova disso mesmo foi ter culminado nessa votação. O resultado deixou-me muito orgulhoso e feliz. Foi uma sensação que nunca tinha sentido antes. É realmente tocante ser o autor da música mais votada precisamente no ano em que o Festival da Canção teve o maior número de votações por parte do público. 

O Festival da Canção tem a tradição de unir a família à volta da televisão. Como é que te sentiste no palco, sabendo que o país, ainda por cima confinado em casa, estava a ver-te? 
  
Cá em casa passaram-me essa forma de experienciar o festival. É realmente muito bonita. Honestamente senti que estava com as pessoas lá em cima. Apesar de não haver público, nunca me senti tão acompanhado em cima de um palco. Toda a experiência foi muito intensa. Vivi-a de uma forma muito apaixonada e sinto que as pessoas fizeram o mesmo. Gostei muito de sentir a energia do Festival da Canção. É uma energia muito parecida à forma como vivo as coisas. Acho que houve uma conexão muito bonita.

Compuseste o tema 'Dancing in the Stars' de propósito para o festival. O que é que quiseste transmitir com essa canção? 

Quis que a canção representasse a minha entrega ao desafio. Achei que criar uma canção de raiz seria uma boa forma de materializar essa entrega. Ao mesmo tempo, nunca quis criar uma caricatura de mim mesmo. Acho que a melhor forma de criar uma história bonita é quando usamos o que vem de dentro. É com esse material interior que as histórias ganham verdade. São verdadeiras, puras e genuínas na essência. O meu grande objetivo é conseguir meter essa verdade cá fora através da música. Nem sempre consigo fazer isso, mas acho que consegui com a 'Dancing in the Stars'. Sinto que essa canção veio de um sítio muito genuíno, muito verdadeiro. As coisas podem ser frias, podem doer. É sinal que são reais, verdadeiras. É uma música que me custou a escrever e ainda me custa a cantar, o que significa que está no sítio certo. Vem de um sítio verdadeiro. Foi esta a forma que encontrei para entrar neste desafio de corpo e alma: meter cá para fora tudo o que tenho. Meti cá fora tudo o que estava cá dentro. Além disso, o que a música representa para mim não é muito diferente daquilo que representa para as outras pessoas, embora cada um sinta a canção de maneira diferente. Acho que isso é uma das coisas mais bonitas da música. Recebi muitas histórias de vida, muitas partilhas. Fazer parte da criação de algo que inspire as pessoas e que promova essa partilha é muito bonito. Tentei sempre criar uma relação muito próxima com todas essas pessoas e com as histórias que partilharam comigo. Embora cada um se conecte com a canção individualmente, acabamos por fazer isso juntos. Essa conexão exemplifica a força que a música tem. Nesse sentido foi uma viagem lindíssima. Estou muito grato por ter feito essa viagem. 
 

 



O que retiraste da experiência é bem mais importante que a vitória, certo?

Sem dúvida. Foram várias vitórias. Tocar a vida de alguém é algo monumental. É muito bonito tocar alguém ao ponto de levar essa pessoa a pegar no telemóvel para partilhar a sua história. Também sei o que sinto quando uma canção me ajuda a dar vida ou um twist a uma memória. Ou quando me ajuda a ultrapassar fases menos boas. Este tipo de coisas tem um impacto gigante na vida das pessoas. Foi o que aconteceu com a 'Dancing in the Stars'. Senti calor nessa ligação. Servir a música desta maneira é uma grande responsabilidade e um privilégio. Não encaro isso com leveza. Se não for para trilhar um caminho que leve a essa interação ou a esse sentimento, então não estou a fazer nada na música. Vale a pena lutar para seguir esse trilho, mesmo que nem sempre consigamos chegar lá. Eu e os outros concorrentes ganhámos várias vezes. Ganhámos à medida que fomos recebendo mensagens das pessoas. A conexão foi acontecendo. A música é isso. E é maior que nós.
 


Os Black Mamba foram os escolhidos para representar Portugal na Eurovisão e vão fazê-lo com uma canção em inglês, tal como era a tua. O que é que respondes aos que se questionam sobre recurso à língua inglesa para representar o país? Ainda estamos a ter essa discussão...

Ainda estamos nesta discussão mas creio que já estamos a sair dela. Vão existir sempre perspetivas diferentes em relação a isso, mas acho que quanto mais falarmos no assunto mais se torna numa questão. Quero acreditar que já não é assim tão importante. Os Black Mamba venceram com toda a justiça. Representaram a canção de uma forma muito digna. Desejo-lhes toda a sorte, embora não precisem. Eles não só têm muito talento, como somam muitos anos de trabalho. Tenho a certeza que vão dar tudo, como dão sempre. O que interessa na música é a essência, a mensagem. Houve uma pessoa que uma vez me disse uma coisa muito bonita, a qual aplico a todas as canções que escrevo: 'o maior desafio na música é conseguir transmitir uma emoção verdadeira sem sequer dizer nada'. Esta frase ficou-me na cabeça. Não interessa em que língua uma canção é cantada. O que interessa é que transmita verdade. A missão de um artista, antes de todas as outras, é a de arranjar a sua maneira de conseguir transportar o que tem dentro de si para fora da forma mais direta e eficiente possível. O artista tem a missão de fazer justiça à verdade que vive dentro dele. O resto são muralhas que criamos para nós próprios. Respeito quem defende que a canção deveria ser em português, mas acho que a língua portuguesa não tem de ser defendida porque nunca esteve sob ataque. Estamos só a celebrar a música e a música tem muitas formas de existir. O que importa é a conexão que criamos com uma canção e com a verdade que a canção guarda. Acho até que foi um passo importante ter vencido uma música em inglês.
 

 

O teu disco de estreia - "Philosotry" - exemplifica muito bem a forma como respeitas a vastidão e as muitas possibilidades da música. Cresceste a ouvir o quê?

Realmente é um disco muito eclético, mas essa diversidade surge muito naturalmente. Ainda ontem estava a tocar uma série de canções minhas e dei por mim a pensar: 'será que não consigo fazer quatro músicas parecidas?'. (risos) Mas não é uma coisa má. Cresci a ouvir Beatles. Ouvia muito Beatles quando era mais pequeno. Aliás, os Beatles são capazes de ser a banda que mais me marcou para a composição de canções. Foi a minha mãe que introduziu essa joia na minha vida. Agarrei-me à música deles com muita força, depois é que passei para o Neil Young e por aí. O meu pai mostrou-me Def Leppard, ZZ Top ou Chicago, por exemplo. Falo das influências dos meus pais porque vivi essas influências muito intensamente. Quando somos mais jovens interiorizamos as coisas sem as racionalizar. São influências que vivem dentro de mim de uma forma muito verdadeira. Cresceram comigo e influenciaram-me para o que comecei a ouvir depois. Quando comecei a ganhar um olhar crítico e a ser eu a descobrir a música, surgiram os Queen, a Melody Gardot ou o Jeff Buckley. Também sou um fã ávido dos Muse, mas os Radiohead foram os que mais me impactaram. O meu amor pela música vem dos Radiohead. Foi a primeira banda que descobri sozinho e a que mais me marcou. Tiveram um forte impacto em mim, até porque naquela altura estava a passar por uma fase mais complicada. É a tal força gigantesca da música. Senti isso com os Radiohead. A minha dedicação à música e a forma como quero estar na música vêm das emoções que senti com os Radiohead e com as viagens interiores que eles me encorajaram a fazer. Ajudaram-me a encontrar alguma paz e a tomar melhores decisões. 
 

 



Sei que já gostavas de escrever antes de começares a compor canções. Sempre foste um pensador inquieto com necessidade de "desabafar"?

Ainda hoje penso muito nas coisas. Além de me chamarem perfecionista, as pessoas também acham que penso demais. (risos) Adoro perder-me nos pensamentos, embora, às vezes, esses pensamentos levem-me para labirintos que depois não têm grande saída. Comecei a escrever antes de aprender a tocar qualquer instrumento. Na altura escrevia sobre o que achava de vários assuntos, criava pequenas histórias e escrevia poemas. Não gostava muito de escrever sobre mim mas tinha aquele ritual de manter um diário. Continuei a escrever mesmo depois de a música ter surgido na minha vida. Ainda hoje, quando componho canções, começo sempre pela escrita. Não é matemático, mas para cada canção tenho um bloco de notas cheio de anotações de coisas que me vão impactado, momentos da minha vida, o que for. Muitas vezes nem são poemas, é escrita em prosa. Simplesmente vou anotando as minhas reflexões. Vou refletindo com o papel. Meto as palavras cá para fora até chegar a altura em que sinto que já fui fundo o suficiente para conseguir imortalizar isso numa canção. Aquelas notas todas transformam-se numa letra para uma música. É algo muito sintetizado mas acaba por ser uma viagem ao núcleo mais profundo daquilo que estou a sentir. Isso permite que as outras pessoas se possam relacionar com a canção e faz com que a viagem também seja delas. 
 


 

E este disco tem uma canção que fizeste quando andavas no 8º ano, a 'This Dream'. O facto de incluires esse tema no álbum é uma forma de assumires, sem qualquer problema, a tua evolução, enquanto pessoa e músico?

Sim. Nós estamos sempre a evoluir e eu gosto muito de me lembrar de onde venho. Gosto de me lembrar das coisas que sentia quando nem eu prestava muita atenção ao que estava a sentir. Eu disse ao Larry [Klein, o produtor do álbum] que não queria mudar aquilo que fiz no passado. Este disco foi escrito em diferentes fases, e todas essas fases ganharam vida de uma forma diferente. As músicas são assim porque têm de ser assim. O meu objetivo é fazer das canções o melhor que podem ser. Há coisas que gostava de mudar, mas também sei que essa intenção vem do ego, da minha noção em relação ao que cresci e até do medo. Sou eu a proteger-me. Recuso-me a viver a vida dessa maneira e não quero transferir isso para a música. Quero que a verdade transpareça. Estou aqui para servir a música. O que faço é viajar no tempo, até esses momentos que vivi no passado, para perceber onde estava. Depois faço com que a essência desses momentos brilhe o mais possível. Quis honrar as diferentes fases da minha vida. A 'This Dream' tem uma energia específica daquela altura. Não quis corromper essa energia.    
 

 


A visão do Larry Klein, sendo ele um produtor com muita experiência e habituado aos bastidores da indústria musical, foi ao encontro da tua...

Sim. O Larry respira experiência e está em paz com o trabalho dele. Está na fase em que já não tem de provar absolutamente mais nada a ninguém. O percurso e a música dele falam por ele. Quando falava com o Larry sobre isso sentia que havia poucas barreiras em relação ao que é a indústria e tudo mais. Havia um ímpeto genuíno para fazer boa música. Ele ensinou-me que as coisas não podem vir do medo, o que significa que as lições que aprendi com ele não vêm nem do medo nem de um sítio corrompido. Foram lições para valorizar o que realmente importa, que são também as lições que ajudam a que fiquemos mais tempo na música. Ele dizia-me muitas vezes: 'se fizeres uma coisa que amas verdadeiramente, a probabilidade de as pessoas amarem o que criaste é muito maior. Tudo o resto é conversa'.
 



Sendo um disco com uma sonoridade tão eclética, o que é que liga as canções?

A maior ligação que existe entre as músicas está na essência de cada uma. Está no lugar de onde vêm. Nós não somos a mesma coisa todos os dias e, consequentemente, as nossas emoções também não são as mesmas. A música é uma tradução e um reflexo do que sentimos e o que sentimos nem sempre tem a mesma cara. Ou seja, a verdade, o que está cá dentro, não tem sempre a mesma manifestação. Sempre quis que o "Philosotry" fosse um universo, com diferentes mundos lá dentro. Foi assim que desenhei a viagem. É como se fosse o Principezinho, a saltar de sítio em sítio para a conhecer várias realidades e diferentes cantinhos interiores. A nível estético e musical não meto rótulos no álbum. Também foi isso que fez com que me apaixonasse pelo disco.  
 


Por falar em Principezinho, o Larry Klein diz que és o Prince (o músico) português. Como é que se reage a um elogio desses?

Ele conheceu o Prince. Aliás, quando estávamos a gravar o álbum no estúdio Sunset Sound, em Los Angeles, estávamos a gravar na sala ao lado da sala onde o Prince gravava e fazia tudo. Acho que o que ele quis dizer tinha mais a ver com a pessoa que o Prince era, e que o Larry conheceu no seu íntimo, no sentido em que para o Prince também não existiam barreiras na música. Era uma pessoa que fazia música de vários estilos. A carreira dele exemplifica isso mesmo. Era um espírito livre. Se algum dia chegar aos calcanhares do Prince, será uma coisa de outro mundo. Fiquei feliz e grato com a comparação, sei que veio de um sítio bom. Quando o Larry disse isso, ri-me e agradeci-lhe.   
 

 


 

Também és um homem de causas e gostas de ter a música como aliada para as defender. O que é que te preocupa mais neste momento?

O que me preocupa mais? Quanto tempo temos? (risos) Há muita coisa. Este mundo está todo virado de pernas para o ar. Acho que toda a gente tem a noção de que existe um caminho a percorrer e sente que a nova geração tem muitos desafios pela frente. Acho que a nova geração tem muito potencial e uma capacidade muito grande de dar a volta a isto tudo, o que pode ter impacto no futuro, mas também acho que estamos cada vez mais apáticos e indiferentes. Isso é uma das coisas que tem de mudar. Vejo a minha geração como uma geração muito egocêntrica, muito apática. Vejo isso no meu círculo próximo e à distância. Falo da indiferença por certos assuntos que considero importantes, por exemplo. Também sinto que as pessoas têm medo de relacionamentos profundos e verdadeiros. Sinto que as pessoas não têm paciência para cultivar esse tipo de relações. Basta pensar no imediatismo e na superficialidade que se vê nas redes sociais.  

Esse problema já é transversal...

Sim, sim. É um problema transversal, mas acho que a minha geração tem a mão no leme em relação a isso. Isso preocupa-me, porque reflete-se noutras coisas. A indiferença e a apatia é algo transversal no mundo. Com a internet parece que, à medida que o mundo está mais pequeno, a indiferença cada vez maior. Esta geração tem uma grande capacidade para cultivar a mentalidade a que eu chamo de "cidadãos do mundo". Eu considero-me um cidadão do mundo, o que não significa que não valorize as minhas raízes. Aliás, quanto mais viajamos e experienciamos realidades diferentes mais valorizamos as nossas raízes. É nessas alturas que nos encontramos e criamos elos emocionais diferentes que não estão assentes numa mentalidade estanque mas sim numa verdadeira noção do que é realmente importante para nós. Esta geração tem a capacidade de levar o mundo nesse sentido, combatendo a indiferença e a apatia. A ideia de "cidadãos do mundo" é a de partilhar a nossa realidade com o outro de uma forma genuína. De uma forma que nos enriqueça, com respeito e sem divisão. Acho que a nova geração abraça muitas causas, e faz isso com muita facilidade, mas depois não luta por elas. Gosto de pensar numa geração verdadeiramente ativa que se foque na solução e não no problema. E que não fuja, não tenha medo. É uma geração que tem muito para dar e a verdade é que, por vezes, também é mal interpretada. Temos muitos desafios mas também temos um potencial gigante. Só precisamos de meter a cabeça no sítio certo.