Diogo Varela Silva: "o Zé Pedro era o rei dos afetos"

Chega hoje às salas de cinema "Zé Pedro Rock'n'Roll", o documentário sobre o carismático guitarrista dos Xutos & Pontapés. Estivemos à conversa com o realizador e amigo de longa data do músico.

Diogo Varela Silva: "o Zé Pedro era o rei dos afetos"LUSA
Silvia Mendes
Mais do que um filme que documenta a vida do músico que tão facilmente colhia afetos, é uma homenagem feita por um amigo que está a tentar "arrumar" e a "gerir" a saudade.

O realizador Diogo Varela Silva, amigo de longa data de Zé Pedro, conta a história e recupera as histórias do homem, do músico e do fã curioso e convicto de música. 

Quase três anos depois da morte do carismático guitarrista dos Xutos, o realizador, sobrinho emprestado de Zé Pedro, projeta na tela os testemunhos de quem esteve perto. A mulher do músico (Cristina Avides Moreira), os irmãos, os sobrinhos, os amigos e uma mão-cheia de bons companheiros de aventuras vividas nas noites agitadas de rock n' roll. Xutos & Pontapés incluídos, claro.

Além dos depoimentos de quem conhecia o Zé Pedro à lupa, o documentário mostra uma série de imagens de arquivo, nunca antes vistas pelo público, que Diogo Varela Silva encontrou no espólio da família do guitarrista português.

No filme/tributo são ainda recuperados excertos de entrevistas com Zé Pedro, imagens de arquivo de concertos e ensaios dos Xutos & Pontapés, memórias do Johnny Guitar, o famoso bar lisboeta que Zé Pedro geriu, e o registo áudio de algumas participações do músico em programas de rádio.

"Zé Pedro Rock 'n' Roll", filme que conquistou o prémio do público no DocLisboa 2019, chega esta quinta-feira, dia 30 de julho, às salas de cinema nacionais.

 


Sei que a ideia de fazer este documentário já tem alguns anos e que, inclusivamente, chegou a partilhá-la com o Zé Pedro. Lembra-se das conversas que tiveram sobre o filme?

Nunca adiantámos muitos pormenores. Falámos apenas sobre a ideia de o fazer. Ele dizia que eu era a pessoa certa para fazer um documentário sobre ele. A verdade é que o Zé Pedro tinha muitos projetos ao mesmo tempo, e eu também tinha as minhas coisas. Tínhamos a ideia de fazer um filme mas não sentíamos pressa. Infelizmente, já não consegui fazer o documentário com ele.


O Zé Pedro, como ávido amante de música, teria certamente uma lista de documentários de música que considerava essenciais. Deu-lhe alguma sugestão, um ponto de referência quanto à abordagem? 

Vi alguns documentários com ele. O do Joe Strummer, por exemplo. O dos Rolling Stones. Mas nunca discutimos sobre como deveria ser o documentário. Se deveria ser assim ou assado. Não chegámos a essa fase, falámos apenas da ideia. Foi algo que ficou no ar, como uma coisa para fazer um dia. Esse dia, infelizmente, já não chegou.

Com a morte do Zé Pedro, começou a trabalhar no filme já com o sentimento de perda. Como é que lidou com isso?

Não foi agradável para mim e calculo que não tenha sido fácil para nenhuma das "famílias" do Zé Pedro. Para as irmãs, irmão, sobrinhos, mulher, a Cristina, e para os Xutos. Tivemos de remexer nas coisas. Voltámos a falar, estivemos a rever os arquivos. Mexeu com os nossos sentimentos. Trouxe-me muitas memórias. Recordei algumas histórias e experiências que vivi com ele. Por outro lado, acho que me ajudou a fazer o luto. Se é que alguma vez fazemos verdadeiramente o luto. Ajudou-me a arrumar, a gerir a saudade.   

Há um legado de boas emoções que o Zé Pedro deixou aos que lhe são próximos. Sentimos isso quase de uma forma palpável quando estamos a ver o documentário...

Sim. O Zé era o rei da boa onda. Era realmente boa pessoa. Emanava essas boas vibrações para os amigos e para os que o rodeavam. Apesar de ser muito teimoso, tinha um coração de ouro. Acho que é o segredo para ter sido tão querido para tanta gente. 

Como foi o trabalho de pesquisa, sendo que conseguiu encontrar algumas imagens inéditas? Qual era o ponto de partida e como foi o processo de seleção das imagens?

Eu já tinha uma ideia sobre o material que havia e o que poderia encontrar nos arquivos da família. Há algumas coisas pessoais. Havia duas bobinas, super 8, que quase ninguém tinha visto e que foram digitalizadas para o filme. São esses os grandes inéditos que o público ainda não viu. Foi um trabalho de pesquisa grande. Procurei na RTP e, graças à parceria com a Blitz, também conseguiu recuperar uma outra entrevista. Houve todo esse trabalho de pesquisa. O filme nasceu à volta desse material. Foi a partir daí que começou a ser desenhado.

"Convocou" as pessoas que eram mais próximas do Zé Pedro. Houve algum momento que o tenha emocionado particularmente?

Houve muitos momentos desses. Tentei ao máximo que não fosse um filme piegas. É uma homenagem que faço a um amigo. Com esta premissa, o filme poderia ter ficado muito lamechas, mas acho que consegui fugir a isso. Ainda assim, houve momentos muito tocantes. Momentos com a família, os amigos, a Cristina, os Xutos. Foram momentos que mexeram muito connosco. Com todos eles. Do processo de produção à rodagem, estávamos constantemente a ser confrontados com a perda.

O documentário começa com uma frase que o Zé Pedro disse há muito tempo, ainda na altura em que os Xutos eram uns miúdos. "Um gajo tem de dar de si, não pode ser uma máquina". Acaba por ser uma frase que liga toda a existência do Zé Pedro…

Ele foi fiel até ao fim. Acho que é o grande segredo por trás da grande força de vontade do Zé e da maneira como estava na vida, na música e com os amigos.     

O documentário mostra várias dimensões do Zé Pedro. Em algumas entrevistas, disse que cada espectador poderá guardar o Zé que lhe diz mais.
  

Acho que, acima de tudo, as pessoas vão conseguir perceber de onde é que veio este Zé Pedro, porque é que o Zé Pedro era o Zé Pedro. Porque é que chegou a tanta gente e porque é que fez o que fez. Embora a vida dele seja sobejamente conhecida do grande público, acho que este documentário poderá ajudar a conhecer pequenas nuances que antes não estavam tão à mão de semear.
 



Uma das características do Zé Pedro, também vincada neste filme, é a constante necessidade de partilhar música e de contar histórias relacionadas com música. Conheceu muitas bandas com o Zé Pedro?

Conheci imensas bandas com o Zé Pedro. Imensas. A primeira vez que ouvi Smashing Pumpkins foi por causa dele. Quando fui pela primeira vez aos Estados Unidos, o Zé Pedro incumbiu-me de arranjar por lá um CD deles. Era um CD que tinha saído há pouco tempo. Nunca tinha ouvido sequer falar da banda. (risos) Fiquei muito curioso. Acabei por trazer o CD e ouvi-o com ele. A primeira vez que ouvi os Nirvana também foi com o Zé Pedro. Os Morphine. Tantas bandas.   
 



Essa paixão do Zé Pedro pela música, que era um amor quase juvenil, nunca se extinguiu. Foi também isso que quis retratar, desde os bilhetes dos concertos que ele continuava a guardar à forma como ainda falava dos Rolling Stones...
 

Acho que é outro segredo que explica o facto de o Zé Pedro ser tão querido pelos fãs. Nunca perdeu o lado de fã que tinha. Era um fã de outras bandas, de outros músicos. Talvez fosse por isso que Zé Pedro compreendesse tão bem os fãs e fosse uma pessoa acessível e muito dada à partilha de momentos com eles. Acredito mesmo que esse fosse o segredo dessa ligação. 
 

 

Houve alguma coisa que o tenha surpreendido ao fazer este filme? Uma história ou uma perspetiva?  

Na verdade, acho que não. Acho que a única coisa que percebi é que esta coisa da saudade não passa mesmo. Está cá. Reforcei a certeza de que o Zé Pedro é um amigo que me faz falta. Vai fazer sempre. O que ficou foi isso.

O Diogo evidenciou "pequenos" gestos do Zé Pedro, vou chamar-lhes gestos "à Zé Pedro", que são de uma grande dimensão humana. Dar o lanche aos colegas na escola ou dar boleia a alguém esperar que essa pessoa entrasse em casa são dois bons exemplos... 

Mostram a grandeza do Zé Pedro. É nos pequenos gestos que se vê a grandeza das pessoas. Acho que o público vai gostar de ver essa parte. 

O Diogo esteve presente na fase inicial dos Xutos & Pontapés, certo?

Sim, foi nessa altura que conheci o Zé Pedro. Ele vivia com uma tia minha. Era quase como se fosse um tio para mim. E ficou. Ficou um tio até ao fim. Lembro-me que o primeiro cartão com um logótipo dos Xutos foi desenhado pelo meu padrasto. A morada para agendar concertos era a morada da nossa casa. Não fui ao primeiro concerto dos Xutos, mas estive no segundo ou no terceiro. (risos) Foi mesmo no princípio, ainda com o Zé Leonel.
 


É uma testemunha na primeira fila do nascimento dos Xutos & Pontapés...

Sim, mas não tinha essa noção. Não sabia que aquilo que estava a acontecer acabaria por ter uma dimensão tão grande. Não tinha noção de nada. Era um miúdo. 

Que legado é que o Zé Pedro deixa? 

A par com os Xutos, o Zé Pedro deixa um legado enorme. Temos de estar eternamente agradecidos ao trabalho que fizeram, à forma como abriram circuitos e caminhos na música. Muito daquilo que se faz hoje em dia é porque os Xutos deram os primeiros passos. Abriram as portas.  

O filme ganhou o prémio do público no DocLisboa 2019, foi reconhecido lá fora. Como é que se sentiu com esse reconhecimento?

O prémio do DocLisboa soube muito bem, mas também sei que, mais do que ao filme, é um prémio entregue o Zé. É um prémio do público. O Zé Pedro é o rei dos afetos do público em Portugal. Há uma legião enorme de pessoas que gostam dele, que não o esquecem. E ainda bem. Também sabe bem ser reconhecido lá fora, partindo do pressuposto que essas pessoas não conhecem o Zé Pedro. É bom saber que essas pessoas perceberam a história do Zé Pedro.