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António Manuel Ribeiro: "as canções são uma verdade imediata"

Conversámos com o homem dos UHF a propósito da reedição de "Julho, 13", o mítico álbum com o concerto que a banda deu há 30 anos, em Almada.

Sérgio Costa (cortesia António Manuel Ribeiro)
Silvia Mendes


No passado dia 13 de julho, os UHF  reeditaram o concerto que deram há 30 anos na mítica sala Incrível Almadense, em Almada, cidade que também foi o berço da banda de António Manuel Ribeiro no irrequieto final dos anos setenta. 

O concerto foi em jeito de best of e teve estatuto de histórico, uma vez que contou com a presença dos elementos do início da formação do coletivo, Carlos Peres, Renato Gomes e Zé Carvalho.

O homem dos UHF esteve nos estúdios da rádio para falar da nova reedição do álbum, mas não só. À boleia da nova vida do concerto histórico, houve outros temas de conversa como a "normalidade" pandémica (e as inevitáveis consequências para o setor da música), a força das canções, o novo disco dos UHF e, claro, o rock n' roll no geral.


Antes de falarmos sobre a reedição do disco "Julho, 13", tenho de perguntar como é que viveu a fase de confinamento?

Houve uma enorme estranheza, a partir do momento em que deixámos de conviver uns com os outros e tivemos de ficar em casa. Assim que acabávamos de almoçar, já estávamos a pensar no que íamos jantar. (risos) A verdade é que trabalhei imenso. Participei em iniciativas nas redes sociais, fiz coisas para a televisão através do Skype ou do Facetime. Nunca estive parado. Comecei a fazer algumas coisas que tinha deixado de lado. Voltei a pegar no livro que estava a escrever. Agarrei no livro, que já estava com algum avanço, e disse: 'vou acabar isto'. Este disco ["Julho, 13"] é um bocado o resultado do trabalho típico de quem está em casa, com tempo suficiente para ir à procura de arquivos e de coisas que ainda faltavam para ficar completo. Hoje em dia podemos brincar. Posso falar com o técnico de masterização sem precisar de estar com ele. Mando-lhe os ficheiros por wetransfer e ele envia de volta para ver se gosto ou não. Se for preciso, fazemos as alterações necessárias. Falo com o designer da mesma forma. Agora é muito mais fácil estarmos isolados. Se fosse há 40 ou 20 anos, teríamos mais dificuldades. Adaptei-me, mas foi muito estranho. Houve um dia em que me levantei, abri a porta para ir ao jardim e pensei: 'apetece-me tanto um café e um pastel de nata'. É uma coisa quase ridícula. (risos) São aquelas coisas, não ligamos muito por serem tão rotineiras. Não havia cafés abertos. Estava tudo fechado.

O que é que tem observado neste sobressalto coletivo? 

Tenho reparado que há pequenas psiques que se estão a soltar. O isolamento não deve ser nada fácil para uma família com uma casa pequena, por exemplo. (...) Acho que o primeiro sintoma que sentimos foi o medo. Quando disseram que éramos muito disciplinados, apesar de achar que agora não estamos a ser tão disciplinados quanto isso, estávamos a reagir ao medo. Isto assustou-nos. Foi o medo que pôs as pessoas em casa. [Quando confinámos] os UHF assumiram uma responsabilidade que começou quase em jeito de brincadeira. Criámos o Momento Musical Caseiro. Desde o dia 21 de março, todos os sábados, fazemos emissões em direto no Facebook e no Instagram. Estamos a descobrir portugueses no mundo inteiro, muitos são fãs de UHF desde pequeninos, que têm vontade de estar ligados para viver um momento feito para eles. Não é um momento para ver no YouTube, é um momento em direto. Além da partilha de canções, também começámos a fazer isso para falar com as pessoas. Havia necessidade de transmitir alguma paz de espíritoTento falar contra esse medo e esta sombra que tomou conta de nós. Tenho escrito textos sobre isso, aliás, ando a ser "empurrado" por algumas pessoas para fazer um livro só com textos sobre o confinamento. Acho que é fundamental conseguirmos acreditar na nossa força interior. Não falo propriamente de uma crença mas sim de uma descoberta. Em vez de termos medo, temos de usar a força interior para ver e aceitar a realidade. Isto é um medo passageiro, mas não sabemos quanto tempo vai durar. Se tivermos a liberdade de conversar uns com os outros e de transferir as nossas experiências, vamos ficar melhor. É isso que nos mantém a fazer o Momento Musical Caseiro. Vamos continuar até setembro. 

Como é que sido o feedback dos MMC? É uma companhia, uma forma de conexão...

É isso. É uma companhia. As canções são fundamentais. São uma forma de nos unirmos pela vibração. A vibração da voz, da música e da palavra. É o poder da vibração coletiva, aquela força que sentimos quando estamos a ver um espetáculo. É quando nos arrepiamos com algo que vem cá de dentro e vai até aos pelinhos dos braços. Neste estado de separação as pessoas precisam de confiança. Não sou um guru nem um pregador, o que tento transmitir às pessoas é a forma como ultrapassei e ultrapasso as situações. É a olhar para a realidade de frente, nunca ignorá-la. É não lhe atribuir mais importância do que a importância que realmente tem. Estamos a travar uma guerra, só que o inimigo é invisível. Não há aviões, não há disparos, não há bombas, não há mísseis. É algo que vai acontecendo todos os dias. Temos de ser um todo. Temos de ser responsáveis de uma forma coletiva. O isolamento não foi fácil para algumas pessoas e é precisamente com essas pessoas que gosto de falar. Há pessoas, espalhados pelo mundo inteiro, que nos têm dito: 'estou fechado em casa e estou longe do nosso querido país, vocês não imaginam como é que estão a ajudar'. Sentimos isto do outro lado. É muito emotivo.  

Além dos MMC, os UHF vão atuar no Live@A Casinha, nos estúdios dos Xutos & Pontapés, a 22 de agosto. O que é que estão a preparar para este concerto virtual?

Com estes momentos musicais caseiros fui descobrindo canções minhas que nunca toquei ao vivo ou que não tocava há 30 anos ou mais. As pessoas têm gostado muito disso. Numa digressão normal trabalhamos entre 40 a 42 canções. Neste momento, já toquei 78, 79 canções diferentes. Vamos fazer uma coisa bonita, algo que as pessoas não estejam à espera. Acho que é isso que se pretende neste momento. Temos de nos reinventar. Estamos até a pensar gravar um dos Momentos Musicais Caseiros para edição discográfica. Acho que é um documento. (...) Vale a pena deixarmos um documento que diga: 'isto aconteceu e nós ultrapassámos'.
 



42 anos de UHF. O António já viveu crises, mudanças e sobressaltos nacionais, mundiais, situações que estão refletidas nas canções dos UHF. E esta crise? Inspira-o?

Não quero ser vaidoso (risos) mas sempre escrevi com muito sentimento. E eu sou terrível, sou o principal censor de mim próprio. (...) As canções boas têm facilidade. As grandes canções duram cinco minutos a instalar. É a minha experiência. (...) As canções são uma verdade imediata. Uma das coisas que descobri nestes tempos é que os UHF têm canções escritas e gravadas que agora se tornaram muito importantes. Há uma em concreto, a 'Portugal Somos Nós', gravada e editada há dez anos, que era dirigida aos portugueses, à nação que ficou assustada quando a crise financeira [de 2008] se abateu sobre Portugal. Nessa altura, senti necessidade de dizer que há uma força dentro de nós. Dizia muitas vezes isso nos espetáculos. Portugal não é as estradas, as pedras, os muros ou até as instituições. Portugal somos nós. São os portugueses que têm o direito de ser felizes aqui e agora
 


                  

 



Ainda não conseguimos ter uma noção clara do prejuízo da Covid-19 para a indústria musical, mas muitos trabalhadores já estão a passar por sérias dificuldades. Como é que o setor poderá dar a volta e reerguer-se?


Posso dizer que a GDA, uma cooperativa de artistas não só músicos mas também de atores, bailarinos, comediantes de stand-up, enfim, os que têm a chamada "vida do recibo verde", criou um cartão de consumo que as pessoas podem usar no supermercado. O cartão tinha a duração de três meses, mas em junho teve de ser renovado por mais dois meses. (...) Mas isto não é nada. Não podemos olhar só para a questão do trabalho e da remuneração. É preciso olhar também para a questão psicológica. Muita gente sente-se inútil. Nós, os artistas, somos só a ponta do iceberg. (...) A nossa equipa são 12 pessoas, mas para montar um espetáculo dos UHF são necessárias 40 a 50 pessoas. São pessoas que estão sem trabalho. (...) O que é que vai acontecer às editoras? Isto vai mudar muita coisa. Há duas canções que revolucionaram a forma como a indústria via a música dos "jovens", dos "miúdos". O Rui Veloso, com o 'Chico Fininho', e os UHF, com os 'Cavalos de Corrida', mexerem nisto tudo. Os estúdios passaram a ser automatizados, começaram a haver técnicos capazes de fazer outro tipo de gravações e surgiram as equipas de promoção. Tudo isto é feito com o rock português em 1980. É isto que, neste momento, está a amarfanhar. Tenho algum receio que o futuro ameace aquilo que eu sempre pugnei, a existência do músico profissional que, como eu, acorda e adormece a pensar em música, que vive e trabalha música. (...) Receio que a música passe a ser feita por amadores, pessoas com muita piada e que sabem mexer em computadores. Em Portugal, a música vai continuar a ser profissional e respeitada ou vai começar a ser um hobbie? (...) Será que amanhã vamos ter um funcionário bancário que canta para ir ao festival da canção ou o rapaz que nos mete o gasóleo que só canta fado ao fim de semana. Não tenho nada contra as pessoas que são amadoras, mas não é isso que faz a evolução e que cria a agenda sociológica que as canções representam numa certa época, o que existe desde que há canção. Na Idade Média, era o trovador que ia de terra em terra a levar as novidades do reino. As canções representam épocas, são fotografias sociológicas. A música precisa desse estatuto. Precisa de ter capacidade para se reinventar e para se inquietar.  
 

 

Quando confinámos, os UHF estavam a gravar um disco, certo? Ficaram a meio das gravações?

Sim, estávamos. Parámos a 5 ou 6 de março, poucos dias antes do primeiro-ministro ter dado a ordem de confinamento. O disco era para ter saído em junho. Agora é certo que vá sair em outubro, até porque temos a necessidade de o pôr cá fora.

O disco chama-se "Podem os Oceanos Arder". É um título um pouco apocalítico, apesar de ter sido escolhido antes de tudo isto... 

É, sim. O título é sobre quando nós achamos que podemos empurrar com a barriguinha esta forma de olhar para o mundo. Há uma coisa que aconteceu durante o confinamento que foi a diminuição da poluição no mundo inteiro. A Greta [Thunberg], tantas vezes maltratada, andou a pedir aos líderes mundiais para perceberem o que está a acontecer e, de repente, vem uma pandemia que, no espaço de uma semana, conseguiu fazer aquilo que ela não conseguiu em meses. (...) O "Podem os Oceanos Arder" tem a ver com a forma como eu olho para o mundo. É a nossa casa e, ao contrário do que se pensa, tem um fim. A poluição constante, a poluição dos oceanos... Nós precisamos dos oceanos. Parece que os oceanos são um poço sem fundo mas não são. São uma série de ecossistemas vivos que se refletem na boa ou má vida dos homens em terra firme. Acho que temos de alertar para o que se passa à nossa volta, sobretudo quando o anormal se torna normal e nós assimilamos essa normalidade. Não é assim. Devíamos parar um bocado. Temos de parar um pouco para refletir. Estamos a chegar a um ponto de rutura, como nunca houve antes. Em matéria de sustentabilidade do planeta, já estamos a viver de algo que não temos. Ou acordamos, ou não sei.       

Já conhecemos um tema, o 'Hey! Hey! Bora Lá'. É uma canção autobiográfica em que o António canta: "vejo um puto audaz a seguir o instinto". O que é que o tempo pode fazer ao instinto? 

Nós temos vários planos de atuação. Antes a minha formação só me permitia soltar o instinto. Hoje prefiro a intuição. A razão dá-me jeito, obviamente, para entender tudo e arquivar o conhecimento, mas é na intuição que eu me revejo. Sempre segui os meus impulsos, é certo, mas nunca discuto com uma pedra que esteja no meu caminho. Se não a posso ultrapassar, dou a volta. (...) O instinto guiou-me em certos momentos, apesar de não ter tido essa perceção na altura. Em 1980, quando entrei neste corredor para a primeira entrevista aqui, vinha a tremer. (risos) Lembro-me que vinha a tremer. No ano seguinte, também vinha a tremer. (...) Deixei sempre soltar a minha ingenuidade. Nunca usei um véu. Havia pessoas que achavam bem, outras achavam que eu devia esconder-me e não revelar tudo. Acho que não se deve quando não se teme. 

 


'Bora Lá' é uma frase que marcou o início dos UHF, certo? É a ideia de um movimento sempre em direção a algo, sempre a avançar...

Há uma estrutura mental em Portugal, para mim detestável, que é a dependência do subsídio. (...) Falo das pessoas que para mexer o copo que tenho aqui à frente, por exemplo, precisam de uma ajudinha. Para abrir uma fábrica de copos precisam de uma ajudinha. Quando querem fazer canções vão pedir um subsídio para fazer canções. Sempre fui contra isso. É algo que tira a necessidade urgente do artista para ultrapassar dificuldades. Quando um artista ultrapassa as dificuldades cria novos caminhos. Isso é a evolução da vida e da música. Nunca me senti refém desse tipo de situação. (...)
 


 



Agora, sim, a reedição do "Julho, 13". Este concerto cruzou duas formações dos UHF, a original e a da época. Foi uma noite especial...

Sim, cruzou. Foi também a última vez que os quatro elementos de 1980 tocaram juntos. (...)

Os fãs passaram-se...

Passaram-se. Houve até problemas porque não havia mais espaço para as pessoas entrarem. Havia gente na rua que queria entrar. Só soubemos disso no fim do concerto.

Quando ouvimos o disco dá para perceber o entusiasmo do público...

Sim, sim. Isso é outra coisa que aconteceu neste trabalho. Antes não se masterizava os discos. Não havia tecnologia nem conhecimento suficiente. Nesta reedição, que já está remasterizada, parece que está tudo mais vivo. Parece que há mais gente. Percebe-se mais o ambiente, as interações do público. Revela uma noite fantástica. Foi uma noite de muitas emoções. 

E ainda por cima foi em Almada, onde tudo começou…

Nos anos 80, até meados dos anos 90, a Incrível era um ponto importante. Sei que há muitas pessoas que não estão de acordo, porque não entenderam a dinâmica, mas, apesar do Rock Rendez-Vous ter sido muito importante para divulgar, a Incrível Almadense era a sala boa. Era onde se fazia receita suficiente para os artistas e para toda a gente envolvida nos espetáculos. Era uma sala grande, maior que a do Rock Rendez-Vous, e, ainda por cima, tinha duas galerias. Enchia até ao teto, quase.

 



O concerto e a reedição foram a 13 de julho, o Dia Mundial do Rock... 

Uma coincidência. Acontece. (risos)

Como é que olha para o rock em 2020?

Há coisas muito boas. 

Existe alguma banda que gostasse de apadrinhar?

Há quem continue a mandar-me coisas, mas acho que, por outro lado, as pessoas têm estado um pouco mais caladas. Vivemos outro tempo, outra novidade. Para fazer música ao vivo, com 3, 4, 5 músicos, é preciso saber tocar. É preciso disciplina e conhecer o poder do ensaio. Hoje a música é feita em casa, com computadores. Trocam ficheiros e fazem umas canções. A música de palco é outra coisa. Podemos fazer um disco bem gravado, todo bonitinho, bem produzido, mas só em cima do palco é que as canções crescem. Parece que levam levedura, como os bolos, e crescem. Isso é que é o rock. Essa é que é a atitude. O rock é inquietante e, quando quer, é virulento. (...) É quando se diz algo, além do normal, que vale a pena. Algo que vai ficar.