Amália: com que outras vozes

Olhar ao legado da Rainha do Fado, no dia em que se começam a comemorar os 100 anos do seu nascimento.

Gonçalo Palma
01 julho 2020, 07:30

Para Amália Rodrigues, o dia 1 de julho era o seu aniversário, embora os seus documentos apontassem para 23 de julho o seu nascimento, no ano de 1920. 
 
No dia de arranque das comemorações sobre os 100 anos de Amália Rodrigues, olhamos para vários dos seus possíveis descendentes que vão além do fado ou de quaisquer similitudes sonoras. 
 
António Variações
O cantor mais mais meteórico da pop nacional era um fã devoto de Amália Rodrigues, conhecendo detalhadamente a sua discografia. Foi mesmo a versão de um clássico da Rainha do Fado, 'Povo Que Lavas no Rio', que ajudou a projetá-lo em 1982. Levou a canção para um ângulo longe do seu imaginário original, mas a inspiração de Amália esteve sempre presente, incluindo na sua voz, tal como canta na sua música de tributo, 'Voz-Amália-De-Nós'. Essa paixão quase obsessiva pela fadista teria ainda um momento especial quando António Variações fez a primeira parte - segundo os relatos, o cantor minhoto estava muito nervoso - de um concerto de Amália Rodrigues na Aula Magna, em Lisboa.
 


 
Madredeus
Pisaram as mesmas ruas de Lisboa e voaram para destinos do globo em comum. Os Madredeus construíram o seu som à parte mas a sombra do vulto de Amália foi a cauda incontornável do corpo do grupo, numa inspiração mais representativa - a figura de uma mulher a cantar Portugal lá fora de trajes lúgubres - que musical.
 


 
Cesária Évora
A “diva dos pés descalços” gostava mais de Amália Rodrigues do que propriamente de fado. A cantora lisboeta foi uma referência para Cesária que tiveram em comum o tema recorrente da saudade e o palco da glória internacional que é o Olympia, em Paris. Ambas vinham da famílias pouco abonadas, superando a pobreza do berço com a riqueza da sua voz e do seu carisma.
 


 
Camané
É um afilhado de Amália. Foi a cantora lendária que insistiu com a EMI - Valentim de Carvalho para que a editora contratasse o jovem talento, no início dos anos 90. Era uma admiração recíproca. Camané é um amaliano, e já por várias vezes interpretou temas consagrados pela sua madrinha musical, um dos mais recentes esta versão de 'Com Que Voz', com Mário Laginha ao piano.  
 


 
Dulce Pontes
Desenvolveu muito a sua internacionalização em torno da figura de Amália e da 'Canção do Mar', tema que passou pelo enorme fôlego da fadista hoje centenária, mas que Dulce Pontes a transformou em algo mais pop. Tornou-se numa declaração de identidade para o que Dulce Pontes viria a fazer no resto da sua carreira.
 


 
Mariza
A fadista da Mouraria nunca fingiu fugir do trilho cancioneiro de Amália. Sempre a idolatrou, também se aventurou naquelas ondulações vocais tão amalianas e não teve medo de se afrontar com canções do seu reportório. A seguir a Amália, tornou-se na fadista com mais sucesso internacional, ficando permeável ao rótulo de "nova Amália" com que nunca se identificou.
   


 
Amália Hoje
Nuno Gonçalves dos Gift encontrou o lado pop em Amália, desmaquilhou-lhe a imagem de fadista e mudou-lhe a vestimenta sonora, no bem sucedido projecto Amália Hoje, onde participam a vocalista Sónia Tavares, Paulo Praça (músico ao vivo de há vários anos dos Gift) e o menos previsível Fernando Ribeiro dos Moonspell.
 


 
Carminho
Ainda criança, Carminho cantou fados para Amália. Cresceu no meio e, claro, ao longo da sua carreira não se esquivou às canções imortalizadas por Amália, apenas as desviou para o seu estilo mais pessoal. Agora para comemorar o centenário de Amália, escreveu o livro ilustrado para crianças (e não só), "Amália, Já Sei Quem És", uma biografia escrita em sextilhas, ao bom estilo poético do fado.
 


 
Cuca Roseta
Tal como Carminho, Cuca Roseta também não passou ao lado do centenário de Amália, tendo gravado um álbum todo ele dedicado à Rainha do Fado, “Amália por Roseta”. Em muitas das faixas do disco, o acompanhamento é tão só o piano de Ruben Alves