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Estarmos sempre contactáveis é uma realidade que 'nos está a deixar mais sós'

Escritora desde tenra idade, Dulce Maria Cardoso falou sobre o facto de já não conseguir ler um livro de seguida e sobre cuidar de quem já cuidou de nós.

Aos 14 anos decidiu que queria escrever e já vai no quinto romance. Dulce Maria Cardoso escreve semanalmente para a Visão e recentemente, publicou o seu diário do primeiro confinamento, ao lado da mãe. A escritora esteve no Era o Que Faltava à conversa com o Rui Maria Pêgo e a Ana Martins 

Dulce diz que “dantes conseguia estar a ler tranquilamente durante horas”, mas agora é impossível “porque tenho a tendência de ir ao telemóvel ver se a mensagem chegou”. A escritora diz que “o facto de estarmos sempre contactáveis, o facto de tudo ter resposta imediata, é uma novidade muito grande que nos está a deixar mais sós”. 

As dúvidas da mãe

Dulce diz que às vezes a mãe a questiona, “mas agora para que é que é que eu sirvo?”, a escritora responde “serves para ser amada, como sempre foste (...) serves para eu gostar de ti”. Ao contrário do que possamos pensar, “não é só o velho que faz essa pergunta”. 

A velhice levanta outra questão para Dulce, “se nós não conseguirmos ser íntimos com os que mais amamos então quem é que vai ser, os enfermeiros?”. Apesar de precisar de ajuda externa para cuidar da mãe, a escritora diz que durante meses “fui eu que fiz tudo e sinto que é o natural numa relação de pessoas que se amam”. 

Somos escravos do trabalho 

Em relação às oito horas ou mais que a maior parte das pessoas passa a trabalhar, Dulce Maria Cardoso diz que vivemos numa “escravatura esquisita, porque é voluntária”, aceitamos isso e às vezes até nos gabamos. Continua e diz que “é estranhíssimo perceber como nos levaram a aceitar (trabalhar muitas horas) e a achar isto normal, quando não tem nada de saudável nem de normal”.

Na opinião da escritora, daqui a uns anos “os robots serão uma realidade, o que acontece é que muitos de nós vão ficar mesmo sem emprego”. O que mais a preocupa é que se vai fazer “a estas pessoas sem emprego, aos tais que deixam de poder trabalhar, aos velhos, aos doentes, aos que têm limitações e incapacidades”. Dulce acrescenta que “não nos devemos orgulhar de dar essa primazia à produtividade, não me parece nada sensato”.

Pode ouvir a conversa completa aqui!