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'Ainda fiz algumas valentes vozes para telemóveis!' - O trabalho improvável de Adolfo Luxúria Canibal em Paris

Adolfo Luxúria Canibal viveu num típico bairro de Paris onde fez de voz de atendedor de telemóvel e conheceu gente de todo o mundo. Este foi apenas um dos temas deste Era o que Faltava.


Com 61 anos e uma vida cheia, Adolfo Luxúria Canibal entrou em direto de Braga, no Era o que Faltava do Rui Maria Pêgo e da Ana Martins. Falou-se confinamento, poesia, música e direito. E também de como foi morar em França.

Há 21 anos, aos 40, Adolfo Luxúria Canibal, deixou tudo e foi para Paris “começar uma vida nova”. Foi com “alguma segurança, a minha mulher era francesa, quando fui tinha perspectivas de iniciar qualquer coisa”.

Os planos iniciais de trabalho sairam ao lado, mas Adolfo deu a volta e uma das coisas que fez foi ser voz de atendedor de telemóvel. “Em França, criaram vozes para as pessoas utilizarem para o seu telemóvel, como voz de resposta quando não atendiam”.

“Lembro-me de uma que fiz na altura do Natal, em que fazia de Pai Natal! Eram textos escritos, eu emprestava apenas a voz. Eles gostavam do meu sotaque, porque não era um sotaque reconhecível. Ainda fiz algumas valentes vozes para telemóveis!”

Em Paris, gostou da típica vida de bairro. “Quando se vive num bairro multicultural, como é tipico em Paris, as experiências partilhadas vêm de cantos muito diferentes, é tao enriquecedor que é incrível!”

E ias comprar a baguete? “Comprava a baguete, mas não ia de manhã, que sou demasiado preguiçoso”.


O Confinamento

Adolfo Luxúria Canibal está em Braga, no campo, em modo confinamento. Como se sente confinado? “Sinto-me muito bem, tenho a sorte de viver numa casa com terreno numa freguesia semi-rural, todos os dias saio um bocadinho, passear a cadela… Não vejo as pessoas, mas não é estar fechado em quatro paredes!”

Sobre o isolamento social, Adolfo diz que não sente falta de se cruzar com pessoas “eu sou um bocado isolado por natureza, sou um bocado solitário e estou em casa com a minha mulher, com os meus animais, portanto tenho o meu núcleo familiar, as minhas relações afetivas principais estão cá”.

“Mas percebo e penso no meu filho” que mora em Paris e que, com 18 anos, tem sofrido um pouco com o confinamento. “Ele esteve cá no Natal e estava com tensões demasiado baixas, com vertigens, estivemos a acompanhar isso”. Quando voltou para Paris foi fazer exames e o médico acabou por chegar à conclusão que ele estaria com principio de depressão”.

E ele estava a dizer-me que em França foi feito um estudo e que na faixa etária entre os 18 e os 25 anos, um terço dos jovens estão deprimidos ou em vias de depressão.

“Deve ser duríssimo e deve afectar muito mentalmente. É um tempo em que se vivie muito intensamente e tirar este anos nestas idades é terrível, estes anos não são substituiveis porque estas idades não se passam duas vezes”.


A música

Nasceu em Luanda, cresceu em Vieira do Minho e em Braga. Foi advogado e é consultor jurídico. Escreve poemas e letras de canções para bandas e é um dos fundadores dos Mão Morta.

Sobre a banda, que existe desde 1984, Adolfo diz que os elementos parilham acima de tudo uma grande amizade e gosto pela música, apesar de não ser um “ganha pão, é uma forma de nos encontrarmos e de brincarmos uns com os outros quase como miúdos”. Para a banda, a música é uma forma de aprender e de questionar o que está à nossa volta.  E, acrescenta  Adolfo Luxúria Canibal, “A música é uma plataforma que me ensina a pensar, a estruturar o pensamento, a ver o que era acessório”.

Nesta conversa falou-se também muito de poesia, mas essa parte tem mesmo de ouvir, não dá para contar! Pode ouvir a conversa completa aqui!