Viagem ao Japão: do sushi ao judo

Só numa ficção anime, estilo Oliver e Benji, o Japão pode ser um gigante mundial do futebol. Fora do território do fantástico, se atingir os oitavos-de-final do Mundial já será bom.

12 de junho de 2018 às 07:00Viagem ao Japão: do sushi ao judo

Fosse o futebol uma arte marcial e o Japão seria mais do que uma potência asiática. Mas a ausência de um papão no grupo H pode alimentar esperanças de um sonho longo, como se fosse no território do fantástico dos livros aos quadradinhos de manga.

 Futebol Atual

Começa a ser um clássico! Desde o França-98 que o Japão é presença no Mundial, ainda que só por duas vezes tenha passado da primeira fase. Em 2002, a jogar em casa, caiu nos oitavos de final perante a Turquia (1-0) e em 2010, na África do Sul, saiu derrotado do desempate de grandes penalidades frente ao Paraguai (0-0 nos 90 minutos), também nos oitavos de final. A sexta presença do Japão em Mundiais foi conquistada sem grandes problemas, depois de vencer o grupo B da zona asiática, deixando para trás Austrália e Arábia Saudita (que também conseguiram o apuramento). 

O treinador bósnio Vahid Halilhodzic, que conseguiu o apuramento, acabou por cair entretanto, depois de alguns resultados negativos em jogos particulares (derrota com Ucrânia e empate com Mali) e de uma alegada má relação com os jogadores. Para o seu lugar, a Federação Japonesa recrutou Akira Nishino, com provas como treinador nas seleções sub-20 e sub-23, além de troféus conquistados por clubes (Taça Campeões, Liga Asiática e Supertaça). O técnico de 63 anos tem à sua disposição um lote de jogadores muito equilibrado, com os nomes de Kagawa (Dortmund), Inui (Eibar), Okazaki (Leicester) e Hasebe (Frankfurt) como principais destaques.

 

 

Os maiores da Ásia

Quando ainda faltavam 30 anos para a tardia estreia num Mundial, a seleção nipónica estava a ter aquele que é ainda o seu maior feito planetário, ao ganhar a medalha de bronze nas olimpíadas de 1968. A equipa foi um autêntico tomba-gigantes, tendo sido um entrave ao sonho do Brasil e de França, e tendo alcançado o lugar mais baixo do pódio diante do anfitrião México. O choque foi tão grande que voaram cadeiras no Estadio Azteca, onde estavam 105 mil espetadores. Jogava nessa equipa olímpica uma lenda japonesa chamada Kamamoto, o melhor goleador de sempre da seleção japonesa com o impressionante total de 80 golos em 84 jogos. O seu faro para para a baliza levou-o a ser o melhor marcador dos Jogos Olímpicos de 1968, com 7 golos.
 
Depois do batismo a seco no Mundial de 1998, com 0 pontos, o Japão aproveita bem o fator casa como co-organizador em 2002 para se apurar para os oitavos-de-final, onde o sonho é interrompido pela seleção turca que ganha por 1-0. A seleção oriental volta a esta fase e aos oitavos-de-final em 2010, onde cai só nos penaltis diante do Paraguai de Oscar Cardozo. A nível continental, o Japão é recordista com quatro títulos de campeão asiático, um dos quais ganho no país rival, a China, em 2004, numa final contra o próprio inimigo, que levou a motins em Pequim que assustaram o selecionador Zico e os seus comandados no trajeto de autocarro para o aeroporto.
 


     
 
Sopros orientais à ocidentalização

É muito rica a tradição musical japonesa, reflexo de uma civilização antiga. Esta herança é sustentada na música de corte chamada de gagaku - revestida de grandes ensembles com secções de cordas e de sopro e ainda gongos e tambores - e nos coros budistas, o shomyo, mas também em regiões muito ligadas às raízes como no frenético arquipélago de Okinawa e no teatro japonês, o noh, que também se envolveu na história da música nipónica e desenvolveu o canto japonês. Há também o número considerável de instrumentos tradicionais japoneses que conferem especificidade à música do país, nomeadamente os muitos tipos de flautas, uma das mais marcantes o shakuhachi, uma flauta de bambu de cinco buracos que ecoa a espiritualidade oriental. Nas pinturas antigas, vêem-se as geishas a tocarem shamisen, uma espécie oriental de bandolim de três cordas, muito requerido nas várias formas musicais japonesas, sejam mais ou menos formais.
 
Mas a pop também mete a sua unhada na música folk, como bandas como The Rinkenband, com as suas roupas tradicionais, por vezes de guerreiros. Enka é a soul-pop japonesa que teve como grande diva Misora Hibari (1937-1989), vestida com o seu kimono. Miyako Harumi ocupou o trono do enka. O rock underground do país inscreveu-se no mapa do mundo através dos Yellow Magic Orchestra, onde militava o músico japonês mais reconhecido, Ryuchi Sakamoto, pianista que se notabilizou pelas bandas sonoras para os filmes "Merry Christmas, Mr Lawrence" e "O Último Imperador" - este último valeu-lhe o Óscar de Melhor Partitura Original. Os mais poppy Pizzicato Five e as mais rebeldes Shonen Knife conseguiram captar a atenção do mundo indie durante vários anos.
 
O Japão é o segundo maior mercado musical do mundo e por isso costuma atrair as grandes digressões internacionais. E até há locais míticos imediatamente reconhecidos, como o Budokan, o grande templo do judo, que se tornou numa catedral de concertos mítico, que valia bootlegs valiosíssimos no mercado negro. Os Beatles iniciaram o ritual perante os protestos dos puristas nos anos 60. Outros grandes passaram por lá como os Led Zeppelin, os Carpenters, Eric Clapton ou Bob Dylan nos anos 70; os Police, Frank Sinatra e até os metaleiros Iron Maiden nos anos 80; e um rol interminável e posterior que incluiu Prince, Pearl Jam e os Oasis, entre muitas outras estrelas.
 


     

O design à mesa

A cozinha japonesa é milenar e inspirada em rituais budistas. O mais popular sushi, ou seja peixe cru, é apenas uma das seis grandes formas da culinária japonesa. Também há as formas ao vapor (mushimono), na grelha (yakimono), cozido (nimono), cozido na mesa (nabemono) e frito (agemono). Os pratos são autênticas obras de arte de design, sempre impecavelmente cortados em pequenos pedaços. Nas mesas baixas, rolam vários pratos. Como é universalmente sabido, come-se com pauzinhos tudo e mais alguma coisa, incluindo sopas, onde se podem também usar as colheres.
 
O budismo encaminhou a gastronomia do país para o grande uso de legumes. Mas há como se sabe uma grande cultura de peixe… E a presença assídua de algas, que se incorporam no sushi ou nas sopas. Claro que o arroz é também omnipresente, também importantíssimo para o sushi.
 
O chá é fulcral nas várias cerimónias e sempre muito apreciado, especialmente o verde. Nas bebidas mais frescas, já estamos familiarizados com a cerveja japonesa, muito graças à expansão de restaurantes de sushi em toda a Europa, nomeadamente marcas como a Sapporo. Já em estado gelado, o saké é o líquido sagrado, fermentado a partir do arroz e obrigatório em qualquer restaurante de inspiração nipónica.
 
Hoje é fácil alimentarmo-nos de comida japonesa, embora se tenham banalizado restaurantes de sushi de qualidade mais duvidosa. Entre os melhores na Grande Lisboa, contam-se por exemplo o Tomo (em Algés), o Hikidashi Taberna Japonesa (em Campo de Ourique) ou o novo híbrido asiático Soão (em Alvalade). No Porto, também há por onde escolher: e nós escolhemos o IKEDA, no Campo Alegre, o Ichiban, na Foz, ou o 3 Hyoshi, na Baixa.
 
 

 
Sumo e manga

Os livros de banda desenhada japoneses manga e o cinema anime (a animação japonesa) interligam-se como um todo. Por exemplo, "Nausicaä do Vale do Vento" (1984), de Hayao Miyazaki, é inspirado no livro de manga do mesmo nome: um princesa tenta salvar uma povoação dos ares tóxicos poluídos por vizinhos inimigos. Miyazaki, com filmografia riquíssima, destacou-se no final dos anos 90 pelo filme "A Princesa Mononoke", outra história de amor por linhas tortas e guerrilheiras. A saga futurista "Caçador de Vampiros D" (de 1985) de Toyoo Ashida (1944-2011), mistura romance e terror. "Taro: The Dragon Boy" (de 1979), de Kirio Urayama, fica na memória como uma busca desenfreada pela mãe, supostamente metamorfoseada num dragão. "Akira" é realizado pelo próprio autor da história em manga, Katsuhiro Otomo: o filme anime passa-se numa Tóquio futurista (Neo-Tóquio), na iminência de um ataque militar durante a III Guerra Mundial. Mas o anime também sabe sair do território fantástico e falar de uma guerra que realmente tenha acontecido. É o que acontece com "O Túmulo dos Pirilampos" (de 1967), baseado num conto semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka sobre o Japão bombardeado do final da II Guerra Mundial: é um postulado de humanidade o relato da sobrevivência de um rapaz de 14 anos e da irmã de quatro aos seus cuidados. A animação japonesa também entrou muito pela nossa televisão adentro, com séries como o "Conan, o Rapaz do Futuro" ou, para os petizes amantes de futebol, "Campeões: Oliver e Benji".
 
O cinema japonês é um dos mais ricos do mundo, com alguns dos melhores cineastas de sempre. Kenji Mizoguchi (1898-1956) e Akira Kurosawa (1910-1998) destampam os tabus da sociedade japonesa, indo da era contemporânea aos tempos ancestrais - especialmente Mizoguchi. Nagisa Oshima (1932-2013) eternizou-se em filmes como o sexualmente ousado "Império dos Sentidos" (de 1976) ou a experiência de um soldado britânico num campo de concentração japonês na II Guerra Mundial, em "Feliz Natal Sr. Lawrence" (de 1983), contracenado pelos músicos David Bowie e Ryuichi Sakamoto. Yasujiro Ozu (1903-1963), Noboru Nakamura (1913-1981), Shohei Imamura (1926-2006) ou, presentemente, o mãos pesadas Takeshi Kitano ou o Palma de Ouro Hirokazu Kore-eda fazem parte da galeria de grandes cineastas nipónicos. Mas o cinema americano também faz reverência ao Japão, ou aos samurais, no caso de Quentin Tarantino nos dois filmes "Kill Bill". Um polícia americano (Michael Douglas) envolve-se numa guerra perigosa de gangues no Japão em "Black Rain" de Ridley Scott (de 1989). Uma mulher americana (Scarlett Johansson) conhece um compatriota (Bill Murray) numa Tóquio onde se sentem estranhos, em "Lost in Translation" (de 2003) de Sofia Coppola. E há ainda o "The Karate Kid Part II", que se passa no ambiente bem japonês de Okinawa.
 
Num país tão dado à imagem, não é de estranhar que a marca de projetores domésticos Epson seja japonesa. Mas a Epson é mais conhecida pelas impressoras, uma especialidade da compatriota Ricoh. A mania dos nipónicos com as máquinas fotográficas não é só para disparar, é também para fabricar, como a bem respeitadas Olympus e Nikon, ou a Minolta e a Fujifilm, esta última também conhecida pelos velhinhos rolos fotográficos. Mais como transmissora de imagem, sempre foi fiável a Sony que se tornou na empresa tecnológica e multifacetada mais famosa em todo o mundo. Nos dispositivos de jogos (ou video games), quem tem fama mundial é a Nintendo. Na indústria automóvel, o Japão é igualmente eficaz, seja nos automóveis Toyota, Mitsubishi, Nissan ou Mazda, ou nas motos da Honda, Suzuki e Yamaha.
 
O Japão é um país de desportos de luta. Foi nestas ilhas que nasceu o judo, hoje um desporto muito praticado em todo o mundo, incluindo em Portugal. Aparentemente não tão elegante e mais dado à força é o sumo, o combate entre homens rechonchudos, com toda aquela carne gordurosa à mostra.
 


 

 

 

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