Viagem à Tunísia: das ruínas romanas às mesquitas

Será desta que a Tunísia passa para a segunda fase? Olhando para adversários como a Inglaterra e a Bélgica, as probabilidades são baixas.

11 de junho de 2018 às 14:12Viagem à Tunísia: das ruínas romanas às mesquitas

O país está habituado a morder os calcanhares aos gigantes, apesar das eliminações precoces nos Mundiais. A grandeza do país continua apenas na herança histórica (fenícia, romana) e nas mesquitas de cidades sagradas como Kairouan.

Futebol Atual

Com Inglaterra e Bélgica como primeiros adversários da competição, só uma primeira fase de grande superação deixará a Tunísia com possibilidades de fazer o que nunca conseguiu nas anteriores quatro presenças em Mundiais: passar à segunda fase. Apesar do apuramento sem derrotas, deixando para trás República do Congo (um ponto de diferença), Líbia e Guiné, a Tunísia vai ter muitas dificuldades em qualificar-se nos primeiros lugares, num grupo com Bélgica e Inglaterra, acresentando ainda o estreante Panamá, com quem vai medir forças na terceira e derradeira jornada do Grupo G.

Foi com o pensamento nesse sorteio menos feliz que a Tunísia se preparou, nestas semanas que antecederam o Mundial, com seleções europeias mais cotadas. E os testes nem correram nada mal: empate com Portugal (2-2), derrota com Espanha (1-0) com golo sofrido nos últimos minutos e nem o empate (2-2) com a Turquia deve ser desvalorizado por belgas e ingleses. Os 23 que o antigo adjunto Nabil Maaloui (fez parte da equipa técnica de Lemerre quando a Tunísia conquistou a Taça de África em 2002) escolheu para levar ao Mundial são pouco mediáticos, até porque Abdennour (antigo central do Valencia) não faz parte da lista. Ainda assim, vale a pena olhar com atenção para Wahbi Khazri, avançado de 27 anos do Rennes, principal figura da equipa.

 

 

O regresso cedo a casa

As quatro presenças da Tunísia no Mundial podem ter em comum a sensação azeda da eliminação logo na primeira fase. Mas cabe-lhes a proeza de terem sido a primeira seleção africana a ganhar um jogo do Mundial. Isso aconteceu em 1978, logo no jogo inaugural frente ao México, por 3-1. Ainda voltaram a surpreender oito dias depois, ao secarem a um nulo os campeões do mundo, a Alemanha Ocidental. Mas nem assim passaram à segunda fase, iniciando um ritual de fazerem cedo as malas, que se tem mantido ao longo das décadas seguintes.
 
Em 2004, a Tunísia aproveitou bem a condição de anfitriã para se tornar campeã africana, sob os comandos do selecionador francês Roger Lemerre, que já sabia o que era ganhar uma competição continental, mas na velha Europa, através da equipa nacional do seu país, em 2000. A nível clubístico, os tunisinos também chegaram ao palanque mais alto da Liga dos Campeões de África: dois títulos para o Espérance de Tunis, um para o Étoile du Sahel e para o Club Africain.
 


 

Malouf

O malouf é a grande música ancestral da Tunísia, com mais de 500 anos de história e até influências ibéricas, por intermédio das invasões cristãs. Ritmicamente berbéres, a alma árabe destes grandes ensembles de percussionistas, violinistas, violoncelistas e flautistas fervilha também nos coros. Outra instrumento que tem que marcar comparência é o oud, primo árabe do bandolim.
 


 

Tomatadas

A comida tunisina é muito à base de ovos, com pratos muito simples, que justificam a sua existência meramente como entradas como o kafteji, uma tomatada com especiarias e azeitonas. Outra tomada tunisina, mas com chilli e várias carnes, é o ojja. Já o shakshouka é uma tomatada mais robusta, popular em toda a África do Norte, que leva ainda alcachofra e feijão: no molho de tomate, fazem-se umas crateras para onde estrelam os ovos. Os tunisinos (e, no fundo, os magrebes) também gostam muito de merguez, umas salsinhas com especiarias. Há ainda uma famosa salada fria, a salada tunisina, à base de pepino e de tomate, ambos partidos em cubos, regados com azeite, e envolvidos em alho e cebola, com um toque valente de pimenta. Tudo muito simples e gostoso.
 
 

 

História com vista para o Mediterrâneo

É na Tunísia que está a grande ex-rival de Roma, a antiga cidade fenícia de Cartago, que hoje só tem como actividades a arqueologia e o turismo naquele imenso cenário de ruínas. O Anfiteatro de El Jem, com distinção de Património da UNESCO, foi usado em vários filmes e é um dos estádios romanos melhor preservados. Serviu de muralha contra muitos ataques forasteiros ao longo de eras subsequentes. Mas há mais ruínas, como a antiga povoação romana de Bulla Regia. Mas o peso da história também se faz do Islão, frase que tem como evidência Kairouan, que é uma das grandes atrações turísticas islâmicas, com as suas madraças e mesquitas de imponentes minaretes. Mais longe da reza e mais próximo do prazer está a cidade costeira de Sidi Bou Said, que parece um sonho desenhado por um pintor mas que existe de verdade, com as suas casas brancas, brindadas de pátios sumptuosos e uma vista de sonho para o Mediterrâneo. Fora de mãos humanas, assombram no deserto do Sahara as monumentais dunas de Grand Erg Oriental, que podem fazer de um trajeto de jeep uma experiência sensorial similar à montanha russa. Mas há areais tunisinos mais virados para os banhistas. Na ilha de Djerba, é impossível não mergulhar naquelas claras águas, em praias também frequentadas por dromedários e cavalos.
 
O futebol é o desporto-rei na Tunísia mas é o fundista da natação Oussama Mellouli, o grande desportista histórico do país. Foi campeão olímpico por duas vezes, nos 1500 metros em 2004 e nos 10 000 metros em 2012, além dos dois títulos mundiais. O andebol é a segunda modalidade mais popular no país, com resultados interessantes, como o quarto lugar no mundial de 2005 que organizou, e onde Wissem Hmam foi o melhor marcador da competição.
 

 

 

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