Viagem ao Irão: dos tapetes persas ao cinema

O peso mitológico da velha Pérsia arruinar-se-á diante dos favoritos ibéricos, como se fosse uma Persépolis em forma de onze?

01 de junho de 2018 às 14:00Viagem ao Irão: dos tapetes persas ao cinema

Herdeiro de uma civilização milenar habituada a geometrias elaboradas (seja na arquitetura, seja nos tapetes persas), que losangos e retas conseguirá desenhar o português das diásporas Carlos Queiroz para surpreender um dos gigantes ibéricos do Grupo B? Para mandar para fora do tapete um dos gigantes, também podem perguntar aos grandes lutadores olímpicos iranianos como se faz.

Futebol atual

À quinta tentativa, o Irão vai tentar o que ainda nunca conseguiu: passar a primeira fase de um Mundial! Nas anteriores quatro participações, nunca chegou à segunda fase, mas na memória dos iranianos está, seguramente, a imagem positiva deixada no Brasil há quatro anos. Depois do empate com a Nigéria no jogo inaugural, a formação asiática ficou a um minuto de pontuar com a Argentina. Para mal dos iranianos, Messi marcou já no minuto 90 o único golo do jogo e deixou a seleção asiática a precisar de um milagre na última jornada. Milagre que não aconteceu, ao perder com a Bósnia-Herzegovina, por 3-1

Com Carlos Queirós no comando técnico (o português alcançou o quarto apuramento para Mundiais) o Irão foi a terceira seleção a conseguir o bilhete para a Rússia, só depois do país organizador e do Brasil, na sequência de um apuramento imaculado, sem qualquer derrota e apenas dois golos sofridos em dez jogos. Liderou do princípio ao fim um grupo onde estavam a Coreia do Sul (apurada em segundo lugar) e a Síria (qualificada para o play-off). Para este autêntica goleada na qualificação, muito contribuiu uma nova geração de jogadores, com muitos deles a mostrarem qualidade em campeonatos europeus. Aos 23 anos, Sardar Azmoun (Rubin Kazan) também conhecido como o Messi iraniano, é a estrela da companhia, com golo nos pés. Ao seu lado, Reza Ghoochannejhad (Heerenveen, 30 anos) e Ansarifard (Olimpiakos, 27 anos). A LigaNOS também vai estar representada, com o guarda-redes Amir Abedzadeh (Marítimo) que aos 24 anos vai seguir as pisadas do pai,  Ahmed Abedzadeh, também guarda-redes, que representou a seleção principal iraniana por 79 vezes. O antigo guarda-redes português Manuel Bento é a referência de Amir, cujo primeiro clube em Portugal foi o ... FC Barreirense!

 


Ali Daei, o maior goleador de seleções de sempre

A paixão dos iranianos por futebol é desmesurada. Tão desmesurada que é tudo à grande. Têm o internacional A que mais golos marcou em todo o mundo, Ali Daei, com 109 golos, a única marca acima dos 100 golos, superior a Puskas e a Cristiano Ronaldo. E é no Irão que está o quarto maior estádio de futebol do mundo: o Azadi, em Teerão, com capacidade para 100 mil pessoas.

Foi no Estádio Azadi que o Irão celebrou o terceiro título de campeão asiático seguido, em 1976, com um livre direto do mítico Parvin, que levou à loucura a centena de milhar de compatriotas presentes nas bancadas em Teerão.

Não é só o selecionador do Irão, Carlos Queiroz, que conhece bem a vivência persa. Vários treinadores portugueses têm passado pela liga iraniana, a Persian Gulf Pro League. A passagem mais carismática foi a do ex-benfiquista Toni pelo Tractor, não pelos títulos, mas pela empatia que criou com os adeptos. Outro veteranos das diásporas, Manuel José, também já passou pelo Irão. Mas quem foi campeão foi Nelo Vingada, pelo Persepolis.

 

 

A grande clássica oriental


Dos três tipos de música no Irão, a clássica, a folk e a pop, a Revolução Islâmica de 1979 liderada por Khomeini baniu a última e beneficiou as restantes duas, determinando o regresso às raízes culturais da música iraniana e obrigando os músicos pop a exilarem-se no estrangeiro.

A mais majestosa das músicas é a clássica iraniana, talvez a música erudita oriental mais imponente de todas, que combina ensembles e grandes orquestras com o recurso a instrumentação tipicamente local. É música aristocrática, com instrumentistas vestidos nobremente, com muita carga poética e muito ligada à tradição do país. Neste género, sobressai o tahrir, um estilo de canto que exige uma enorme projeção vocal em vários tons e em grandes ondulações, ao estilo muçulmano. Não faltam grandes cantores persas. O maior é talvez Mohammad-Reza Shajarian, banido atualmente do Irão por ser um opositor de Ahmadinejad. O tenor curdo Shahram Nazeri é outro dos cantores mais lendários, sempre faustosamente acompanhado por orquestra. A maior representante feminina é Parisa, mulher lindíssima nos anos 70, com uma voz hipnótica. Mas a Revolução Islâmica afastou-a dos palcos.

Tão ou mais carismáticos que os músicos, são os vários instrumentos tradicionais como o setar (objeto de cordas de cabo fino e longo), o santur (espécie de dulcimer, uma mesa de cordas baquetada), as neys (flautas arabescas) ou o tombak (tambor de batucada oriental, tocado sobre os joelhos e que exige um grande manuseamento rítmico). Mas o mais reconhecido é o kamancheh, instrumento de três ou quatro cordas (varia) tocado com um arco - espécie de violino, com agudos mais orientais. O instrumento é hoje Património Imaterial da UNESCO.


Ensopados em borrego

Mais de cinco mil quilómetros separam Portugal do Irão mas apesar da distância, vários coisas nos unem nos paladares, como o fascínio comum por marmelada e o hábito de ver o algodão doce em pauzinhos. O próprio pudim de açafrão (sholez zard) é uma espécie de arroz doce mas mais aromático e trabalhado, com águas de rosa e açafrão, sendo que o arroz usado é o mais refinado basmati.

Até há, como em Portugal, ensopado de borrego, o popular khoresh-e-qeyme, de influência curda, mas com outras variantes. Aliás, num país tão grande como o Irão, o que não faltam são várias variantes sobre os mesmos pratos. Mas a paixão pela carne de borrego, essa vai de norte a sul, especialmente através dos kebabs - ou espetadas (se preferirem)

O sumo de lima ou o molho de iogurte costumam molhar os pratos, onde a carne de frango também é muito consumida. A gastronomia iraniana é muito rica em sopas, algumas delas feitas em leite e em molho de iogurte. Uma das sopas iranianas que talvez os portugueses estranhem menos são as adasi, a sopa de lentilhas (igualmente popular na Turquia e na Síria).

Na doçaria, os frutos secos como os pistachos, as nozes ou as amêndoas são recorrentes. É o que acontece com o nougat persa, proveniente de Yazd, no centro do Irão, epicentro da doçaria iraniana, e onde são muito populares as baclavas (feitas de camadas de filo e também típicas na Arménia, Turquia e Grécia). Na sobremesa iraniana, os gelados persas têm também fama, pelos seus aromas de açafrão e de águas-de-rosa e cardamomo, decorados habitualmente por canela.

As bebidas alcoólicas são proibidas desde a Revolução Islâmica, num país com grande cultura de café e sobretudo de chá. No Irão, quando faz calor, abundam os refrescos. Um dos mais tradicionais é o sekanjabin, uma bebida açucarada e avinagrada de menta. Os iogurtes líquidos (dooghs) e os sumos de fruta, sobretudo de romã, também refrescam muitos iranianos.

Aos poucos, vão aparecendo restaurantes iranianos, mas todos em Lisboa, como o Rose, na Avenida Duque de Loulé, o Darshin, na Penha de França, ou o 1001 Nights, próximo da Avenida de Roma, do outro lado da linha de comboio em frente ao Hotel Roma.

 


A frescura da velha Pérsia

Têm boa fama em Portugal os tapetes persas, afamados pelos seus desenhos e padrões elaborados, tecidos à mão. Há tapetes persas, sobretudos os de seda, que custam mais de 300 mil euros, mas a maioria são de lã. Os tapetes persas são tão belos e valiosos que na Europa têm sido muitas vezes usados de forma decorativa, em cima de arcas ou em paredes, e não tanto no chão.

Outra herança da velha Pérsia é a sumptuosidade da arquitetura, da era pré-islâmica, em templos ou em masoléus, e resiste hoje em ruínas, sobretudo em Persépolis, a cidade que o exército de Alexandre Magno destruíria no século IV antes de Cristo, e que é hoje Património Mundial da UNESCO. A imponência artística da arquitetura persa prolongou-se na era islâmica, em mesquitas e bazares. Também é da velha Pérsia que vem o imaginário dos Jardins do Éden, ou melhor dos jardins persas, autêntico idílio num espaço verde e fechado, deslumbrante e espiritual. Árvores e muros que criem sombras, além de lagos e piscinas, são alguns dos elementos essencias nos jardins persas.

Os fãs do cinema de autor estão bem familiarizados com o cinema iraniano, que tem como um dos embaixadores maiores Abbas Kiarostami (1940-2016), num estilo de fusão entre ficção e documentário que se tornou muito comum na criação cinematográfica do seu país, nomeadamente noutros grandes cineastas como Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi. Esta habilidade de contar uma história simples com uma autenticidade neo-realista também tem merecido a sensibilidade feminina de mulheres como Samira Makhmalbaf e Marjane Satrapi. Esta última está ligada a uma velha tradição do país, o cinema de animação iraniana que tem como antecedente milenar a animação de velha cerâmica persa. A rebelde Marjane Satrapi adaptou para a grande tela a sua BD autobiográfica "Persépolis", onde narra os horrores do regime de Ayatollah Khomeini, alguns deles sobre a própria família, como a morte do seu querido tio Anoosh, executado e despejado numa vala comum.

Num país dado à mitologia, a fauna da sua vida selvagem deu espécies animais que só não são mitológicas porque existiram mesmo de verdade mas que não escaparam à extinção como os tigres persas (mais robustos que outras raças de tigres e mais migratórios), os leões persas ou, de tempos mais antigos, os elefantes sírios, vítimas da ganância e do exibicionismo dos caçadores. Há mais subespécies em perigo como os leopardos persas ou as chitas asiáticas, mas que habitam em áreas naturais protegidas, num país com uma vida selvagem rica, que tem nas suas terras ursos, chacais (necrófagos como as hienas) ou os gamos persas. Por cá, a subespécie oriunda do Irão mais conhecida é de longe o gato persa, cuja única característica que mantém dos tempos idos da Pérsia é a sua pelagem longa e fotogénica.  

A nação berço do pólo, o desporto equestre coletivo mais famoso do mundo e popularizado no Reino Unido e na Argentina com outras regras, tem conquistado uma série de medalhas olímpicas em halterofilia e em luta. O halterofilista mais imortalizado é o bicampeão olímpico Hossein Rezazadeh (medalha de ouro em 2000 e 2004). Outro repetente do lugar mais alto do pódio olímpico foge às duas especialidades iranianas, falamos do taekwondista Hadi Saei (campeão olímpico em 2004 e 2008), talvez o mais consagrado desportista iraniano de sempre.

 

 

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