Viagem à Suécia: de Borg a Greta Garbo

A Suécia pós-Ibrahimovic já fez escândalo ao eliminar a Itália. O estatuto de 'underdogs' não os incomoda.

29 de maio de 2018 às 07:00Viagem à Suécia: de Borg a Greta Garbo

Este é o país de uma fábrica de êxitos pop inesquecível (os ABBA), de uma fábrica de móveis famosíssima (o IKEA) e de uma fábrica de automóveis robustos (a Volvo). À falta de um talento individual como o ex-tenista Björn Borg ou de uma força em bruto como a personagem Pipi das Meias Altas, a Suécia sabe bem que o futebol é um desporto coletivo. Com raça viking e coesão, a seleção nacional sabe há muito jogar em equipa.

Futebol Atual

Não deixa de ser curioso constatar que o regresso da Suécia a fases finais de Mundiais só aconteça depois da retirada do melhor jogador sueco dos últimos anos. Zlatan Ibrahimovic marcou presença (ainda muito jovem) no distante Mundial de 2006, mas não conseguiu guiar a Suécia a mais fases finais de Mundiais durante a sua melhor fase da carreira desportiva, onde conquistou títulos por todos os clubes onde passou. Foi já no período pós-Zlatan que os suecos voltaram a confirmar presença na maior prova de seleções, deixando para trás Holanda (na fase de grupos) e Itália (no play-off). Convém, por isso, não subestimar a seleção de Janne Andersson, treinador de 55 anos que depois de conduzir o Norrkoping a campeão sueco, devolvou o país a fases finais de Mundiais.

Já sem a estrela dos últimos anos (ainda se falou no regresso apenas para jogar no Mundial), o futebol sueco não apresenta o perfume e a nota artística de Ibra mas tem como base um coletivo forte, consistente, pouco atrativo... mas muito eficaz. Sem a capacidade criativa de outrora, a Suécia aposta num 4.4.2 clássico, com Toivonen e Berg como referências no ataque e com Forsberg (Leipzig) como a estrela do meio campo. O futebol mais direto da Suécia vai medir forças com a velocidade da Coreia do Sul, logo no primeiro jogo. Uma partida que pode ser decisiva, tendo em conta que, a seguir, vai defrontar Alemanha e México. 

 

Elegância
Não é só o equipamento amarelo e azul que é bonito. Também o é o estilo de jogo elegante que a seleção sueca nos habituou, com um nível técnico interessante, apesar da associação fácil à agressividade física que caracteriza as equipas do norte da Europa. O historial da seleção é de peso. A juntar ao título olímpico de 1948, a equipa viking já esteve presente por quatro vezes entre os quatro primeiros lugares em Mundiais. Já ficou em 2º (em 1958), em 3º (em 1950 e em 1994) e em 4º (em 1938), mas nunca em 1º. Quando organizaram pela única vez o Mundial de Futebol, em 1958, fizeram o melhor possível à escala humana: foram a melhor equipa da competição a seguir ao insuperável Brasil de Pelé e de Vavá. Na final, tiveram o deslumbramento de estarem à frente do marcador durante cinco minutos, até à imposição do samba e de uns concludentes 5-2 favoráveis à canarinha.

Se o italiano Salvatore Schillaci teve o seu mês de exuberância no Itália ’90, com um total de seis golos, e depois voltou à sua normalidade, o sueco Kennet Andersson também teve o seu período de sonho no Mundial seguinte, em 1994, antes do regresso à modéstia. Aquele que era um ponta-de-lança pouco mais que razoável no Lille, superou-se como um avançado de topo durante 30 dias: de repente rematava em arco para as redes, disparava com pontaria à distância e cabeava mais alto do que era antes a sua média. Resultado, cinco golos, a Suécia com uma campanha de sonho nos Estados Unidos e um 3º lugar. Depois, Kennet Andersson recolheu-se novamente no seu registo de um golo ao mês, mas desta vez ao serviço do também modesto Caen.

Quem já jogava nessa seleção de 1994 era o inesquecível ponta-de-lança Henrik Larsson, que ao longo dos anos foi-se refinando. Depois de sete anos a dar alegrias aos adeptos do Celtic, já para lá dos 30 anos subiu na hierarquia clubística e ainda jogou no Barcelona e no Manchester United. Outro ponta-de-lança com características de eterno é o acrobata-génio Zlatan Ibrahimovic, que fazia dos golos golpes de ginasta. O talento conseguiu estar à altura do seu enorme ego um pouco por toda a Europa: no Ajax (na Holanda); na Juventus, Inter e no Milan (em Itália); no Paris Saint-Germain (em França); e até no Manchester United (em Inglaterra). Só no Barcelona, as coisas não correram bem. A seleção sueca vai sentir a sua falta.

Para um liga interna que tem sido semi-profissional, não deixa de ser surpreendente que um clube sueco como o IFK Göteborg tenha sido vencedor de duas Taças UEFA nos anos 80. É o único clube nórdico que já venceu competições europeias. Na primeira Taça UEFA ganha pelo IFK Göteborg, o treinador era um então desconhecido Sven-Göran Eriksson que o Presidente do Benfica, Fernando Martins, contrataria rapidamente para dois anos auspiciosos no clube das águias, entre 1982 e 1984, implantando um estilo de jogo moderno que impressionou a Europa. O centro-campista Glenn Strömberg deu o músculo necessário a uma equipa que era muito mais mais técnica que física. Strömberg foi o primeiro futebolista de uma vaga de suecos que viria ao longo dos anos para o Benfica como o ponta-de-lança empático Mats Magnusson, a carraça de meio-campo Jonas Thern, o esquerdino Stefan Schwarz ou, mais recentemente, o central bem trabalhador Lindelöf. Todos eles deixaram saudades na Luz, com uma imagem de disciplina tipicamente sueca. Já o Sporting (através do avançado Eskilsson e do médio Farnerud) e o FC Porto (por causa do guardião Lars Eriksson) não têm assim tantas saudades de suecos.


 
Indústria de exportação
Quando na pop, o sucesso mundial tinha como requisito ter como origem um país de expressão inglesa, os suecos ABBA quebraram essa barreira, graças a um domínio impecável da língua de Shakespeare, um jeito heterogéneo para a canção orelhuda dos compositores Benny e Bjorn e um jogo de vozes fortíssimo entre Agnetha (a loira) e Anni-Frid (a morena). Desde que ganharam a batalha da Eurovisão através de 'Waterloo' em 1974, tiveram oito anos seguidos de presenças seguidas nos maiores tops. O projeto dos dois casais foi uma máquina que soube abarcar com mestria pop os vários movimentos da época, desde o glam-rock ao disco sound. Os Ace of Base, com o mesmo modelo de dois homens e duas mulheres mas mais ligados ao eurodance, também saborearam o sucesso internacional: 'All That She Wants' colou-se a muitos ouvidos, no início dos anos 90, enquanto uma dupla de rockers, os Roxette, mostrava ao mundo que havia já uma indústria sueca a prosperar nas exportações.

Neneh Cherry, filha do trompetista de jazz Don Cherry, deu voz ao prenúncio do trip-hop no seminal álbum "Raw Like Sushi" (de 1989). Na eletrónica sueca, não têm faltado ideias interessante de que o mundo tem dado conta como Jay-Jay Johanson que se lembrou nos anos 90 de cantar à Frank Sinatra e ser acompanhado por beats poderia funcionar. Lykke Li, que passou a infância em Portugal, não inova assim tanto na pop eletrónica mas sabe fingir que sim; mais arrojada tem sido Fever Ray que a solo ou nos The Knife faz uma música que poderia ser a banda sonora de filmes de terror. Não tão underground, Robyn e a mais sexualizada Tove Lo também gostam de se virar para as pistas de dança, e o mundo tem dado nota.

O jeito para a pop também se sente na música indie sueca desde os anos 90, quando os Cardigans, Stina Nordenstam e os Wannadies mostravam a sua inocência. A música destes nomes era suficientemente orelhuda para ser usada para spots publicitários, o mesmo aconteceu no novo milénio com os Peter Bjorn and John, que ficaram conhecidos pelos portugueses pelo assobio de 'Young Folks'. A indie-pop dos Shout Out Louds e das First Aid Kit também pede passagem radiofónica.

Mais nos domínios do rock, ou do indie-rock, os endiabrados The Hives, os dançantes Mando Diao, ou os mais agrestes The (International) Noise Conspiracy e The Soundtrack of Our Lives têm animado muitos festivais pela Europa fora, incluindo por cá. Mais especificos, os Refused criaram culto no punk-hardcore no final dos anos 90 através do álbum "The Shape of Punk to Come". Vindos de nenhures, os  Whale surpreenderam a Europa nos anos 90 com o vídeo de 'Hobo Humpin Slobo Babe'. Também de bizarria vivem os afropunks Goat, que são da Suécia mais polar mas fazem música como se fossem do Mali.  

Há uma curiosa tendência das bandas de rock pesado para o death metal: os Opeth e os Entombed são nomes mais sonantes dentro de uma ninhada de outros grupos da mesma família. No metal mais sinfónico, Yngwie Malmsteen gosta de tentar encaixar a sua guitarra elétrica com uma grande orquestra. Já os metaleiros Clawfinger preferem vociferar através do rap. Mas falta falar-nos, dentro do ramo metaleiro, dos hard-rockers Europe, os guedelhudos loiros que invadiram os programas musicais de TV nos anos 80, em especial o "Countdown" de Adam Curry, com os vídeos de 'Final Countdown' ou da balada 'Carrie'.

Não basta à eficiente indústria sueca ter bons managers e compositores de canções em inglês. É da Suécia a maior plataforma de streaming do mundo, o Spotify, com um mundo de músicas que já marca a nossa vida, nos telemóveis e nas colunas de casa.

 

O bosque no prato
A nova cozinha nórdica tem sofisticado a culinária sueca, com novos chefs premiados. A gastronomia do país estava muito ligada a fritos e a cozinhados de carne picada. Dentro deste último ramo, os mais reconhecidos são de longe as almôndegas, sempre acompanhadas de batatas (nas suas variadas formas, incluindo em puré). Come-se também muita carne de caça, sobretudo no norte do país. Algumas dessas carnes não nos são muito familiares, como a carne de rena e de veado, de alce e até de pato selvagem. Apesar de tradicionalmente serem um país rico, os suecos têm uma grande cultura de aproveitamento de restos, daí a recorrência de ovos mexidos com qualquer coisa que sobre, sempre com o presunto à espreita.

Se nas florestas abundam as renas e alces, na costa ocidental da Suécia há um grande presença de bom marisco, como lagostins, ostras ou mexilhões. Come-se também muito peixe, muitas vezes frito, mas também salmão curado. O arenque é bastante pescado e merece várias abordagens, incluindo em pickles. Muitas das técnicas de cozinha são herdadas dos lapões, o grande grupo étnico do norte da Suécia (e da Finlândia), que expandiu para os seus compatriotas os métodos de secar, salgar e defumar carnes e peixes para os melhor preservar.

Os frutos silvestres estão por todo o lado na gastronomia sueca, em molhos sobre pratos salgados, em sumos e em doces. Mas neste capítulo da doçaria, o mais popular de todos é o kanelbullar, ou caracóis de canela, num país que cozinha muito bolas de chocolate polvilhada com coco ralado - uma das receitas mais fáceis de se fazer.

A água potável é de muita qualidade e os suecos têm um gosto especial em aprimorar jarros de água com pepinos, ou com rodelas de limão. Em qualquer café ou restaurante suecos, a água está sempre à disposição numa mesa. O que não está à disposição e é muito mais condicionado são as bebidas alcoólicas, só possíveis de comprar em lojas especializadas controladas pelo Estado. De qualquer maneira, o país é especialista na produção de bebidas destiladas como a aquavit ou a vodka. A Absolut Vodka é talvez a marca sueca de bebidas mais internacional.

 

A força de dinamite de Pipi das Meias Altas
As cores azul e amarela da bandeira da Suécia predominam nas lojas do IKEA, que revolucionou a nossa forma de equipar a casa: em troca de preços acessíveis, somos nós mesmos a montar o mobiliário. Se o IKEA nos vende mobiliário, há um outro gigante do país habituado a equipar cozinhas com os seus eletrodomésticos. Falamos da Electrolux, pródiga em máquinas de lavar loiça e roupa, ou em frigoríficos e fogões. A indústria de roupa sueca também prospera, a julgar pelo número elevado de lojas de roupa da H&M no nosso país. Quando se falava de chapa de carro exemplar, os automóveis da Volvo sempre foram a referência, tal como os já extintos Saab, conhecidos pela beleza dos seus modelos, bem menos auteros que o do seu concorrente compatriota. Mas a tecnologia sueca também sabe apontar para o mundo das telecomunicações através da Ericsson. Há muito mais Suécia nas nossas vidas do que o que pensamos, se nos lembrarmos da Tetra Pak, que expandiu o enpacotamento de comida pelo mundo fora a partir dos anos 50, com o registo devido da patente. É também na Suécia que são atribuídos os Prémios Nobel, talvez os galardões mais honrosos de todo o mundo, que distinguem as áreas de literatura, química, medicina, física e economia - o Nobel da Paz é atribuído na Noruega. Foi o inventor do dinamite Alfred Nobel que os instituiu, graças à sua enorme fortuna.

Estocolmo é uma das capitais mais bonitas da Europa, rasgada pelo mar e composta por edifícios amarelados. Não tão relaxada como Copenhaga, a mais austera Estocolmo tem uma imponência imperial mesmo que a Suécia nunca tenha sido propriamente um império. Tão conhecido como o Galo de Barcelos em Portugal, o Cavalo de Dalarna, feito de madeira, aparece de mil e uma maneiras a diferentes escalas, desde o brinquedo que cabe na mão de uma criança à estátua num parque mas sempre com a mesma figura. A Suécia é um país de florestas e lagos, de estâncias de inverno, com rampas para saltos em esqui, a estância balneares mais veraneantes, como a cidade de Fjällbacka, enfiada entre rochas. A localidade foi mesmo cenário de alguns livros policiais de Camilla Läckberg. Mas o escritor de livros sobre crimes mais famoso em todo o mundo é Stieg Larsson (1954-2004), autor da trilogia "Millennium" - planeada para ser uma coleção de dez obras - que tem merecido adaptações cinematográficas na Suécia e até nos Estados Unidos. Mas há muito mais na literatura sueca que livros policiais, como o dramaturgo August Strindberg (1849-1912), autor de algumas das maiores peças teatrais do país e considerado o pai da literatura sueca moderna, com a sua sátira social. Uma oposicionista a este estilo realista era a contemporânea Selma Lagerlöf (1858-1940) com o seu estilo mitológico sobre a vida rural sueca, num mundo de fábulas e de elementos supranaturais. O imaginário de Lagerlöf também a permitiu escrever para crianças, mas a nível de literatura infantil do país a mais célebre é claramente Astrid Lindgren (1907-2002) que, entre as várias personagens que criou, a mais popular é a Pipi das Meias Altas, a orfã de sardas e tranças ruivas, de força extravagante e uma traquinice que ninguém leva a mal. Pipi das Meias Altas ficou famosa também pela série de TV, trabalhada de perto pela própria Astrid Lindgren, e que fez da intérprete Inger Nilsson uma jovem estrela.

A literatura sueca inspirou o reconhecido cinema do país, como é o caso de Victor Sjöström, um dos maiores cineastas de filmes mudos, que se afirmou em Hollywood quando comoveu o público com o filme "O Palhaço" (de 1924). Victor Sjöström foi uma referência para aquele que é um maiores realizadores da história do cinema, Ingmar Bergman, ao ponto de o chamar para interpretar na longa-metragem "Morangos Silvestres". Ingmar Bergman foi dos que melhor retratou as questões existenciais do ser humano, com uma especial sensibilidade para o mundo feminino. Grandes atores suecos foram filmados por Bergman, incluindo já no final do seu percurso, a própria Ingrid Bergman (com quem não tem relação familiar), em "A Sonata de Outono", numa das muitas fases da atriz, que se popularizou em Hollywood, dirigida por cineastas como Alfred Hitchcock ou Victor Fleming. Mas a maior diva de todas, na viragem do mudo para o sonoro, talvez tenha sido Greta Garbo, esplendorosa na tela, misteriosa durante o resto da sua recolhida vida.

Vem da Suécia um dos maiores tenistas de sempre, Björn Borg, de estilo paciente e longe da rede, o oposto da forma intempestiva e mais espetacular do rival e amigo nova-iorquino John McEnroe. O escandinavo de cabelos compridos foi vencedor de cinco Torneios de Wimbledon seguidos, entre 1976 e 1980. Também com raqueta e uma rede pelo meio, é também sueco um dos melhores mesa-tenistas de sempre, Jan-Ove Waldner, o maior ídolo internacional dos chineses. O chamado "Mozart do ténis de mesa" foi uma autêntica máquina de ganhar, que fez dele campeão olímpico, mundial e europeu. Na Suécia, o andebol é tão popular como o futebol: a seleção nacional já foi campeã do mundo por quatro vezes, a que acrescenta outros tantos títulos europeus. Falta vencer um final olímpica; das quatro que disputou, perdeu-as sempre. A Suécia é ainda uma das seis potências mundiais do hóquei no gelo, outro dos desportos mais populares no país. A equipa nacional, já campeã olímpica por duas vezes, ganhou os últimos dois campeonatos do mundo em 2017 e em 2018. Nicklas "Mr. Perfect" Lidström, um dos históricos da NHL, é recordado como um dos melhores defesas de sempre da modalidade. Desportos de inverno é mesmo com os suecos, que têm como um dos seus maiores heróis Ingemar Stenmark, bicampeão olímpico e tricampeão mundial no esqui alpino.


 
 

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